Estudo mostra que contatos no início da carreira são a chave do sucesso de artistas

Pesquisadores analisaram 500 mil profissionais em 143 países, em um período de 36 anos

João Perassolo
São Paulo

Artistas plásticos que expõem, no começo de suas carreiras, em museus e galerias prestigiados continuam tendo acesso a instituições de renome durante toda a vida profissional.

Além disso, têm menos propensão a desistir da profissão quando comparados a artistas que iniciam a carreira exibindo em instituições de menor importância —e que naturalmente têm mais chances de desistir.

Esta é a conclusão de um estudo divulgado pela revista americana Science, conduzido por um time de acadêmicos liderados pelo francês Samuel Fraiberger, pesquisador visitante da New York University.

Com base em dados coletados pelo aplicativo Magnus —que provém informações sobre obras de arte como o nome do artista, o título do trabalho e seu valor de mercado—, os pesquisadores foram capazes de reconstruir a carreira de quase 500 mil artistas em 143 países, em um período de 36 anos (1980 a 2016). Também mapearam como a arte (exceto performance) circula entre as instituições.

O resultado mostra forte concentração de poder com instituições de arte moderna e contemporânea americanas, como os museus MoMA e Whitney, além das galerias Gagosian e Pace. Isso significa que um grupo de artistas é continuamente exibido por tais espaços —o que faz com que suas obras se valorizem.

Artistas influentes têm trabalhos vendidos em leilões com uma frequência 4,7 vezes maior do que os demais, e o preço médio de cada venda é 5,2 vezes mais alto. "As pessoas sabiam disso tudo implicitamente, mas agora o fenômeno que chamamos de 'clube dos ricos no mundo da arte' está provado com números", diz Fraiberger.

Segundo o pesquisador, a chave para o sucesso de um artista são os contatos que tem logo no início da carreira. "O essencial são as conexões e o networking. Isso tem a ver com fatores como onde nasceu, onde estudou, seu comportamento, o quão bom é em contar histórias sobre o seu próprio trabalho e em construir relações e até seu talento."

O estudo argumenta que a performance de um artista é difícil de ser medida em termos objetivos, pelo fato de, no mundo da arte, fatores não diretamente relacionados às obras estarem em jogo, como os locais de exibição dos trabalhos e a relação de uma obra com seu momento histórico.

Por outro lado, em áreas como o esporte, "o desempenho é fácil de medir: é o quão rápido você corre, o quão bom você é em jogar tênis", diz o pesquisador. Ou seja, em campos em que o desempenho pode ser facilmente aferido, o sucesso está diretamente relacionado à performance --o que não acontece na arte.

Se não é propriamente uma surpresa que museus e galerias dos Estados Unidos estejam entre os mais influentes do mundo, do outro lado do Atlântico o museu Reina Sofia, de Madri, desbanca potenciais concorrentes, como a Tate Modern, de Londres.

Para o estudioso, isso se dá "porque a instituição está ligada a museus na América do Sul com quem presumidamente troca arte hispânica". Nenhuma instituição do Brasil aparece entre as mais influentes.

Fraiberger vê muitas desvantagens na concentração do sistema. "Tenho razões para acreditar que as instituições mais poderosas talvez nem sempre tenham a habilidade de descobrir os melhores talentos. Tais artistas podem ter nascido em regiões onde o mercado de arte é subdesenvolvido, ou viverem em Nova York e serem de uma condição social desfavorecida. Sim, tivemos o Basquiat, mas para cada Basquiat pode haver centenas de pessoas que também teriam obtido sucesso."

Os pesquisadores apontam duas soluções para tornar o mundo da arte mais acessível. A primeira seria a adoção de um sistema de cotas em instituições importantes para artistas emergentes que venham de regiões desfavorecidas.

A segunda prevê um processo de seleção de obras de arte às cegas, análogo às audições utilizadas na música clássica, em que um músico é avaliado com base no que o júri ouve, sem ver quem está tocando.

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