Game mineiro 'Dandara' é eleito um dos melhores do ano

Inspirado em escrava fugitiva, jogo está em ranking da revista Time

Natan Novelli Tu
São Paulo

"Dandara", jogo desenvolvido pelo estúdio mineiro Long Hat House, foi escolhido pela revista Time como um dos dez melhores deste ano. O game foi criado por João Brant, 28, e Lucas Mattos, 29, e aparece na lista ao lado de nomes de peso da indústria mundial, como "Super Mario Party", "God of War" e "Red Dead Redemption 2".

Essa é a primeira vez que um brasileiro aparece na seleção desde que a revista começou a publicar o ranking.

Segundo Mattos, a inspiração vem de Dandara dos Palmares, escrava fugitiva que dominava técnicas de capoeira e, ao lado de Zumbi, lutou contra a escravidão no Brasil.

"Muita gente se inspira em jogos japoneses e americanos e acaba reproduzindo uma cultura que não conhece direito", afirma ele.

Apesar disso, ele diz que a Dandara do jogo não segue exatamente o que a figura histórica fez na vida real. A personagem brinca com a gravidade para ultrapassar obstáculos e derrota chefões que usam poderes mágicos. Os mapas podem ser vasculhados de várias maneiras, com segredos que podem ser utilizados durante os combates.

O game segue a mesma dinâmica de franquias como "Metroid" e "Castlevania", ambos de 1986. No entanto, a própria revista Time aponta que os controles foram atualizados: há comandos de pulo que tornam a exploração dos espaços mais complexa.

Isso ajudou "Dandara" a conquistar os olhares estrangeiros e fez com que a RawFury, publisher de games sueca, lançasse o jogo no exterior —no ano passado, ele foi apresentado em Los Angeles, na E3, maior evento sobre o tema do mundo. Atualmente, pode ser jogado nos principais consoles do mercado.

Antes disso, já havia passado pelo paulistano BIG Festival, principal evento de games independentes da América Latina, quando concorreu como o melhor jogo brasileiro há dois anos. Não venceu o prêmio, mas ganhou destaque numa programação que reúne anualmente jogadores, desenvolvedores e investidores da indústria mundial.

Foi também o caso de "Horizon Chase" (2015), o único brasileiro a bater títulos estrangeiros e a vencer a categoria geral de melhor game do festival —além de se tornar o primeiro brasileiro a vender cópias físicas para PS4.

Hoje, ambos os jogos são referências para uma indústria que viu 206 empresas serem abertas nos últimos quatro anos. De acordo com o segundo Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, realizado pelo Ministério da Cultura, esse número é 182% maior se comparado a 2014.

É um cenário que vem se fortalecendo também pela inclusão de jogos eletrônicos em editais do governo para o setor audiovisual. Recentemente, o investimento do Fundo Setorial do Audiovisual para games foi ampliado para R$ 45 milhões. Até então, o valor chegava a R$ 10 milhões.

Frente a um futuro que se mostra favorável, Mattos, um dos criadores de "Dandara", acredita que a tendência é que mais incentivos possam ser discutidos e, com isso, outras empresas possam surgir e conquistar reconhecimento.

"Dandara", que tem música do paulista Thommaz Kauffmann, 24, e direção de arte do mineiro Victor Leão, 27, está disponível para PlayStation 4, Nintendo Switch, Android, Xbox One, iOS e PC.

 

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