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Cinema

Kevin Spacey e Woody Allen não merecem ser jogados no limbo

Confundir obra e vida, como nos casos dos dois artistas, nos leva a uma visão tribal

Woody Allen em evento em Los Angeles, em junho de 2017

Woody Allen em evento em Los Angeles, em junho de 2017 Kevin Winter/AFP

Miguel de Almeida

“A Rainy Day in New York” conta a história de um casal durante um fim de semana chuvoso em Manhattan. No elenco, Jude Law, Selena Gomez, Timothée Chalamet, entre outros. Custou cerca de US$ 25 milhões (cerca de R$ 97 mi) e foi dirigido por Woody Allen. Só que você corre o risco de jamais assistir a ele. Não há data para sua estreia.

Algum ditador do tipo Médici ou Stálin proibiu sua exibição porque contraria suas convicções político-religiosas (desculpe a tautologia)?

Sigamos.

Cerca de um ano atrás, Kevin Spacey já gravara diversas cenas no papel de Frank Underwood em “House of Cards”, quando foi despedido e o material, jogado no lixo. 

A sexta temporada da série estreou há pouco e Claire Underwood (Robin Wright) passa seus oito capítulos frente a uma franja indócil e na tentativa de destruir a memória do ex-marido. Quanto mais ela mexe no cabelo, mais você sente falta do falecido.

Este é um pequeno balanço (lucros/perdas) artístico do movimento #MeToo nas comemorações de seu primeiro ano de combate. Tanto Allen quanto Spacey foram abatidos no auge de suas habilidades pelas denúncias de abuso ou assédio localizadas em algum lugar no passado de suas vidas.

Kevin Spacey, na borda do Natal de 2018, divulgou um vídeo errático na pele de seu personagem em “House of Cards”. Havia pelo menos um ano não dava as caras, desde que veio a público dizer que era gay em meio às denúncias de abuso. Tanto agora quanto antes tem soado fora do tom em suas justificativas.

Woody Allen é perseguido pelas desconfianças lançadas por sua ex-mulher, Mia Farrow, e por sua filha adotiva, Dylan Farrow. Outra ex-mulher do diretor, Diane Keaton, saiu em sua defesa. Como não há um processo judicial, com testemunhas e depoimentos perante a corte, tudo sempre se resumiu a bate-boca público. 

Cate Blanchett e Scarlett Johansson, que já trabalharam com o cineasta, ficaram ao seu lado, ressaltando suas imensas qualidades e situando a discussão dentro do terreno doméstico das brigas familiares.

Foram adultas e generosas. Deram ao diretor o benefício da dúvida. Não tripudiaram. Outra atriz, de menor talento e menor currículo, Greta Gerwig, depois de idas e vindas, declarou que nunca mais irá filmar com o diretor. 

Ela é conhecida por ser casada com o talentoso diretor Noah Baumbach, parceiro do grande Wes Anderson, e ser tão expressiva quanto um caixa eletrônico. Sua declaração ocorreu em meio à sua campanha para ganhar um Oscar como diretora por seu filme “Lady Bird”. 

Era marketing, claro. Quis surfar a onda da indignação. Não funcionou. Com exceção das militantes de frases feitas, não li boa crítica de ninguém de respeito ao seu melodrama de formação à la “Porky’s”. Seu oportunismo não arrombou a porta. Ela não tem o talento de Lina Wertmüller ou Leni Riefenstahl.

Aí que a vaca torce o rabo. Ou o jabuti coça a cabeça.

Dentro da própria dinâmica da sociedade, num bolsonaríssimo tese/antítese, o #MeToo sofreu ataques inesperados. Atrizes e intelectuais francesas golpearam o manifesto capitaneado por Meryl Streep, chamando-a à realidade pelo excesso de moralismo carregado nas tintas americanas. Streep ficou na cena pintada como bedel de convento.

Pois as francesas Catherine, a Deneuve e a Millet, cantaram a bola do que estava por vir: aquele excesso ressaltado agora nos privará (até quando?) de obras de Woody Allen e de atuações primorosas de Kevin Spacey. 

A punição dada a eles não parece exagerada? Mais à frente (Allen já está em idade avançada, logo ficará jogando pipoca aos pombos na praça), passado o calor da arma quente, a história colocará o abate dos dois artistas em qual tintura? Existem outros casos neste tiroteio, como há ainda o safado do Harvey Weinstein, mas não quero misturar as bolas (com todo o respeito).

Sêneca, filósofo romano, um epicurista contundente, autor de linhas decisivas desse amor ao instante vivido, foi condenado à morte por Nero, seu ex-aluno, por causa de suas ideias. 

No caso de Allen e Spacey, seus comportamentos, mesmo sendo condenáveis, deveriam resultar em limbo eterno? Mortos em vida criativa? Eu leio Sêneca e Nero morreu louco.

Respondo que não. Ezra Pound fez transmissões a favor dos nazifascistas. Jorge Luis Borges apoiou a ditadura argentina. Céline era antissemita furioso. Heidegger apoiava as ideias de Hitler. Saramago foi um baita de um stalinista… 

Todos mereceriam ter suas obras jogadas no fogo do inferno? O mundo sem um filme anual de Woody Allen sempre será um mundo mais triste. Confundir obra e vida nos leva a uma visão tribal dos problemas: o leitor deveria banir Diadorim por que ela se revela mulher e não um jagunço? Valha-me deus.

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