Ledusha Spinardi desfia em poemas sua 'formação esburacada'

Autodidata, autora associada à poesia marginal dos anos 1980 lança 'Lua na Jaula' pela Todavia

Francesca Angiolillo
São Paulo

“Vem pelo ouvido tudo”, diz a entrevistada ao telefone, recordando sua formação. Ou sua transformação, de Leda Beatriz Abreu Spinardi, nascida em Assis, no interior paulista, em 1953, em Ledusha, nascida como poeta no Rio de Janeiro, em 1981, com o lançamento de “Risco no Disco”.

Ao ver, menina, um homem laçando cães para levar na carrocinha, gritou “filho da puta”. A mãe escutou, não sabia que ela conhecia palavrões. Nem Leda, aliás, sabia. Mas deve ter aprendido de ouvido.

Aos quatro anos, alfabetizou-se só, não sabe como. Poderia ter sido de ouvir os adultos? As irmãs estudaram letras, enquanto Leda na escola sofria bullying, não pelos defeitos, mas pelas vantagens. 

“Era inteligente, era bonitinha, tinha o cabelo comprido, as mães não deixavam, puxavam meu cabelo.” 

“Foi um nó/ na garganta”, diz “Minha Infância”, poema do novo “Lua na Jaula”. Lançado em setembro pela Todavia, o livro marca o retorno da poeta que, menina, queria ser artista, após anos de silêncio.

O livro anterior, “Notícias da Ilha”, reuniu sua produção até 2012 e saiu pela 7Letras com o nome completo da poeta, não sob o apelido que a notabilizou nos anos 1980. Com este, assinaria “Finesse e Fissura”, publicado pela Brasiliense em 1984, e “40 Graus”, que a Francisco Alves lançou em 1990. 

“Exercícios de Levitação”, editado em 2002 também pela 7Letras, ela assinou como Ledusha B. A. Spinardi. No vaivém, não recordava o nome que estampa a capa de “Lua na Jaula”. É Ledusha Spinardi. 
Antes disso tudo, Leda, aquela menina, gostava de desenhar, e também tocava piano —de ouvido, claro. “Tinha aqueles múltiplos talentos, a pessoa fica meio louca, não desenvolve nenhum.”

Leda Spinardi, a Ledusha, é uma mulher de 65 anos, com os cabelos tingidos de louro castanho, usa óculos e camisa branca; sua expressão é de um meio sorriso, o fundo da foto é verde
A poeta Ledusha Spinardi, que lança "Lua na Jaula" (Todavia) - Renato Parada/Divulgação

O pai era fazendeiro, “só tinha o primário, mas lia muito”. Na juventude a mãe, professora formada no normal que alfabetizava crianças, escreveu versos sob pseudônimo. Dela ouvia poemas, e alguns aprendia de cor. “Eu me ligava no som, no ritmo.”

Casou grávida aos 17, “com um caretaço de Assis”. O bebê, um menino, morreu com três meses; no ano seguinte, teria um segundo filho, que também pouco viveu. “Aí eu separei, chutei o balde; estava louca para sair de Assis.” 

Aos 19, mudou-se para São Paulo, concluiu o ensino médio e, depois, tentou estudar letras —mas seu horror à escola permanecia. Entre a cidade —onde conheceu Gilberto Vasconcellos, seu professor de literatura no colégio, que se tornou namorado de idas e vindas e lhe deu o apelido de Ledusha— e Rio, deu-se o que ela chama de “formação esburacada” de autodidata.

“Tive muita sorte de conviver com pessoas com quem aprendia muito”, recorda, dizendo que lia tudo que ouvia mencionar pelos amigos.

E vai elencando os nomes: Cacaso, dono do apartamento na avenida Atlântica onde se reuniam outros poetas, como Ana Cristina Cesar e Chacal; o artista Tunga; Ricardo Miranda, montador de cinema, casado com sua amiga Sílvia Wolfenson —ela morou com o casal em seus anos cariocas.

“Fervilhava o Rio” e, no meio desse fervor, os poetas amigos diziam “faz um livro”. “Todo mundo fazia seu livrinho, era uma produção independente, eu resolvi fazer.”

“Risco no Disco”, em formato de álbum compacto, quadradinho, falava de amor, tédio, dúvida. Os temas da juventude vinham em poemas que eram como instantâneos, à espera do momento, da descoberta seguinte. Trouxe uma “resposta surpreendente”. 

“Acho que eu temperava a lírica com o humor, a ironia, de uma maneira legal”, diz, recordando os anos no Rio como a adolescência que o casamento malfadado tolhera.

“Lua na Jaula” ecoa a perseguição sonora que pontua sua poesia desde a estreia. Mas, em vez de apontar para o futuro, vai desfiando o passado. 

“Já posso passar em fila, engordar”, diz a poeta, mantendo a ironia aos 65. “Imagino que seja uma coisa comum, conforme envelhecemos, olhar para trás; porque, para frente, ‘acho melhor não’, como diz o escriturário de Melville.” E ri: “Eu adoro aquilo”.

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