Luiza Lian mistura eletrônica, psicodelia e MPB em novo disco

Cantora paulistana, que cresceu na Bahia, explica como transformou 'Azul Moderno', seu terceiro álbum

Thiago Ney
São Paulo

Azul Moderno

  • Preço R$ 27 (CD) e plataformas digitais
  • Autor Luiza Lian
  • Gravadora Risco

A cantora Luiza Lian lançou há pouco seu terceiro disco, “Azul Moderno”. O curioso é que existem dois “Azul Moderno”: o oficial, que pode ser ouvido nos principais serviços de streaming e que saiu pelo selo Risco, e um que está guardado e que serviu de base para o oficial.

É que a cantora e compositora de 30 anos fez as dez canções que estão no álbum em dois momentos: no final de 2015 e, mais tarde, em 2016. Chamou para ajudá-la Charles Tixier (da banda Holger) e Tim Bernardes (que tem carreira solo e na banda O Terno). O resultado foram músicas com cara acústica.

“Começamos a fazer o disco em 2015 e, ao final de 2016, fomos para um sítio e montamos um estúdio. Então gravamos todas as músicas que formariam o disco ali”, conta Luiza Lian. “Eram faixas com violão, bateria, uma coisa meio samba-rock. Mas depois eu percebi que não queria aquilo, queria outra coisa. Então pedi para o Charles pegar esse material e desconstruir completamente.”

​E foi o que o produtor fez. Pegou trechos das faixas, cortou, picotou, juntou com samples, remixou. 

A partir dali, o “Azul Moderno” inicial tinha sido transformado em outro “Azul Moderno”, mais eletrônico, experimental, inclassificável.

“Ele chegou a recortar algumas músicas e as transformou em faixas que lembram gravações dos anos 1970. Ou manipulou vocais para criar algo mais sutil”, afirma Luiza.

O som de músicas como “Pomba Gira do Luar”, “Mira” e “Mil Mulheres” tem uma forte carga psicodélica, que lembra a de artistas como Zé Ramalho, Mutantes, Lula Côrtes.

O “Azul Moderno” que serviu de base para este que saiu está guardado. Luiza não sabe se vai lançá-lo algum dia.

“O meu primeiro disco [‘Luiza Lian’, de 2015], que é mais com formação de banda, já tinha uma atmosfera meio psicodélica”, diz Luiza. “Fui muito influenciada por gente dos anos 1970, bandas como Pink Floyd, Led Zeppelin, coisas do tropicalismo. Sempre fez parte da minha formação musical.”

“O primeiro disco, que é mais de banda, já vai por esse caminho. Gosto de criar uma música que exala vários climas, que nos levam para muitas imagens.”

Luiza Lian nasceu na cidade de São Paulo, mas ainda criança mudou-se com os pais para um vilarejo próximo a Trancoso, na Bahia. 

O pai compunha e escrevia poemas. A mãe era cantora profissional: Fabiana Lian é uma das fundadoras da banda Mawaca e cantou com nomes como Mauricio Pereira e Jorge Mautner. Anos mais tarde, trocou a carreira de cantora pela de produtora de grandes shows internacionais (exemplos: David Bowie, Iron Maiden, festival Monsters of Rock).

“Minha mãe sempre foi uma grande influência para mim, sempre me estimulou. Tive sorte de ter mãe, pai, padrasto que são ligados à música e às artes de um jeito ou de outro.” 

Depois da temporada no Nordeste, Luiza voltou a São Paulo e, entre outras coisas, fez faculdade de artes visuais e passou por um conservatório de música. Aos 15 anos, começou a cantar para valer, em uma banda que chamava Noite Torta (nome de uma faixa do cantor Itamar Assumpção).

O estudo de artes foi importante para a concepção de “Oyá Tempo”, o segundo disco, lançado em 2017 (Oyá, também conhecida como Iansã, é uma espécie de deusa da mitologia africana).

O álbum foi produzido inteiramente durante as duas sessões de “Azul Moderno”. “Parei de fazer o ‘Azul’ para seguir com o ‘Oyá’. Gravamos ele inteiro no quarto do Charles, bem eletrônico. Era uma linguagem que me interessava mais naquela época.”

“Oyá Tempo” acabou virando não apenas um disco mas um álbum visual: as oito faixas são desenvolvidas também em vídeos e têm o acompanhamento de um média-metragem (dirigido por Camila Maluhy e Octávio Tavares,  estrelado pela cantora Nina Oliveira e pelo rapper Digão).

O tempo é um tema meio recorrente para Luiza, que, apesar de achar que faz um tipo de música não muito comum, coloca-se no meio de uma cena que inclui Tim Bernardes, Maria Beraldo, Baleia, Boogarins e o rapper-cantor Edgar (ela também afirma beber em referências de gente como Céu, Ava Rocha, Metá Metá e Negro Leo).

“O tempo, junto com o espaço, delineia nossa existência na Terra. Se a nossa passagem fosse infinita, talvez o tempo não fosse tão importante. Como é finita, o tempo nos fornece certa transcendência”, diz.

Em 2019, a cantora vai continuar rodando o país para levar aos palcos as faixas de “Azul Moderno”. 

“Tive um ano muito bom, o disco ganhou prêmio da APCA [Associação Paulista dos Críticos de Arte]. Não esperava toda essa receptividade”, afirma. “O ‘Oyá Tempo’ já tinha ganhado elogios bem legais, mesmo sendo um álbum mais experimental. É muito bom ver que tem gente que se emociona com seu trabalho.”

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