Masp termina seu ano afro com exposição do uruguaio Pedro Figari

Obras apresentam lado festivo de ex-escravos e da cultura negra no país vizinho

Gabriela Longman
São Paulo

Não é a casa da tia Ciata, considerada o berço do samba no Rio de Janeiro, mas é como se fosse. Ao retratar as festas populares em torno do candombe, ritmo afro-uruguaio criado por escravos, o pintor modernista Pedro Figari (1861-1938) deixou um registro ímpar das celebrações, da música e da cultura negra no Uruguai da virada do século 19 para o 20.

Encerrando um ano inteiro dedicado às “histórias afro-atlânticas” —fluxos e refluxos de migração entre África, Europa e América—, o Masp apresenta uma exposição de 63 pinturas de Figari, marcadas por pinceladas soltas e tons quentes usados para as cenas de casamentos, funerais e celebrações diversas de ex-escravos e seus descendentes.

Advogado, político e artista tardio que lutou contra segregação, o pintor nasceu 19 anos depois da abolição da escravatura em seu país (a lei é de 1842, 46 anos antes do Brasil). 

Segundo a curadora Mariana Leme, trata-se de um olhar diferente daquele lançado pelos modernistas brasileiros, como Tarsila ou Di Cavalcanti, por escapar da tríade natureza, erotismo e trabalho comumente associada à população negra na pintura dos anos 1920.

“Ao mesmo tempo, é interessante pensar que a maior parte dessas telas foram pintadas à distância, no ateliê do artista, em Paris”, conta Leme, lembrando que longe do registro objetivo, as obras contêm uma dimensão lírica em que a distinção entre lembrança e imaginação é fluida, vacilante. Questionado por um crítico francês se pintava um passado que conhecia, Figari respondeu que não exatamente.

“Desde minha infância ele já não existia. Mas estas são as coisas que me contaram e que realmente mexeram com minha imaginação. [Estão] desaparecidas há muito tempo estas festas camponesas [...], estas velhas casas coloniais, estas danças e enterros de negros, estas núpcias... Mas elas dão à nossa vida uma tranquilidade e um sabor extraordinários; há toda uma literatura entre nós que se inspira dessa falta.”

Para além das festas populares, aglomerações coloridas e festivas sob grandes espaços de céu azul, a seleção inclui ainda cenas de interior nos “conventillos”, habitações coletivas que funcionavam como verdadeiros centros de resistência negra, com forte presença em Montevidéu entre o final do século 19 e o começo do século 20.

“Figari representa a população negra de seu país com a dignidade da vida cotidiana, em cenas singelas que, no entanto, revelam a complexidade dos modos de vida daquelas pessoas”, escreve a curadora em texto para o catálogo. 

“Há brigas, beijos, cozinheiras descansando, visitas indo embora da casa, missas, luas de mel, passeios no campo e o esforço para descer um caixão pela escada.”

Concebida em parceria com o Museo Figari e o Museo Nacional de Artes Visuales de Montevideo, a mostra segue para a capital uruguaia em março do ano que vem.

Encerrando o ano de temática negra e abrindo um 2019 com programação inteiramente dedicada às mulheres, o Masp inaugura também uma mostra individual de Lucia Laguna, 77, professora de língua e literatura portuguesa que começou a se dedicar à pintura nos anos 1990, depois de se aposentar e frequentar os cursos livres da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Incorporando referências tiradas da história da arte canônica, formada majoritariamente por homens brancos e europeus, a pintora carioca trabalha a partir da paisagem dos arredores de sua casa e de seu ateliê, no bairro de São Francisco Xavier, na zona norte do Rio, com vista ao morro da Mangueira. 

Nas 21 telas, feitas entre 2012 e 2018, botânica, paisagens urbanas e arames de segurança estão emaranhados numa geometria delicada de forma e cor.

Pedro Figari e Lucia Laguna
Masp - av. Paulista, 1.578, Bela Vista, tel. (11) 3149-5959. De qua. a dom., das 10h às 18h; ter. das 10h às 20h. Até 10/2 (Nostalgias) e 10/3 (Vizinhanças). R$ 35 (grátis às terças)

Erramos: o texto foi alterado

O nome da artista Lucia Laguna foi incorretamente grafado em versão anterior deste texto. O erro foi corrigido

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