Descrição de chapéu Análise

Onda pós-'Despacito' está mais para elevação do mar que tsunami

Nova geração capitaneada por J Balvin, Maluma, Camila Cabello e Rosalía segue trilha aberta por Ricky Martin em 1999

Rafael Gregorio
São Paulo

A cada vez que latino-americanos tomam as paradas pop nos Estados Unidos, ressurge uma pergunta: é agora que Miami vira Havana?

É assim com a novíssima onda latina dos colombianos J Balvin e Maluma, da cubano-americana Camila Cabello e da espanhola Rosalía.

Em 2018, eles saltaram nas métricas de sucesso deste século 21: números de streaming, quantidade de parcerias com colegas famosos e cachês.

A escalada culminou no último Grammy Latino, quando a forte presença deles nas listas de premiados realimentou o frenesi sobre uma latinização definitiva dos EUA.

Foi assim também em 1999. Naquele ano, a América e o mundo foram tomados por uma “explosão latina”, como foi chamada a febre propulsionada por “Livin’ la Vida Loca”, do porto-riquenho Ricky Martin.

Seguiram a fila a colombiana Shakira, a americana de ascendência porto-riquenha Jennifer Lopez e o espanhol Enrique Iglesias —filho de Julio, ícone da música romântica em língua espanhola nos anos 1970 e 1980. 

Nas marolas dessa onda remaram Carlos Santana e Christina Aguilera: nunca tantos latinos haviam passado tanto tempo no topo.

Não que fosse tudo mato antes deles. Além de Iglesias, as décadas anteriores haviam visto latino-americanos atingirem sucesso na América e, depois, no mundo, de Carmen Miranda à mexicana Thalía, passando pelos Menudos.

Além disso, os EUA já viam intensificar-se uma latinização cultural, política e social que evoluiu até fazer dos hispânicos o maior grupo minoritário do país —em alguns estados, como o Texas, essa população deve superar a branca até 2022.

Entretanto, ao requebrar malemolente, Ricky fundou o pop latino como o conhecemos: a mescla de gêneros regionais dançantes, como a salsa, com elementos melódicos dos hits radiofônicos dos EUA, temperada pelo estereótipo “latin lover” e por letras genéricas em inglês.

Parecer latino deixou de ser demérito e virou um quase ativo, a ponto de alguns serem acusados de tentar aderir na marra —foi o mote “not Latin enough”, com que artistas como Aguilera foram criticados por não serem latinos o suficiente, em um primórdio das atuais discussões sobre apropriação cultural.

Contudo, aquela previsão de que a América seria de uma vez por todas tomada pelo pop latino não se confirmou. Pelo contrário: em pouco tempo, os ícones do movimento sumiram do top dez, e a crítica caçou outras modas.

Entender por que isso aconteceu remete à resistência a línguas estrangeiras e à capacidade de absorção que historicamente marcam a dominação cultural dos EUA. 

Uma latinização da América, ficou provado, requer uma americanização dos latinos.

Além disso, alguns pagaram preço alto por suas ambições; Julio Iglesias, por exemplo, nunca mais vendeu tantos discos ou ingressos no México após seu dueto com Diana Ross em “All of You” (1984).

Anos de hits pontuais se passaram até que, em 2017, uma nova onda latina tomou o planeta: o fenômeno “Despacito”, parceria de Luis Fonsi com o rapper Daddy Yankee (de “Gasolina”).

O hit de reggaeton —uma mescla de hip-hop e dancehall— projetou Fonsi, que já montava quase 20 anos de carreira calcados em canções românticas de sucesso circunscrito à sua ilha, Porto Rico.

O vídeo oficial da canção no YouTube ultrapassa 5,8 bilhões de visualizações, e a música foi a primeira em espanhol a liderar o top cem da Billboard desde “Macarena”, o hit de 1996 da dupla espanhola Los Del Río.

Mudou a receita estética: também as células rítmicas passaram a espelhar formas americanas, em especial o hip-hop e o techno pop.

Mudou também o marketing: “Despacito” se beneficiou de versão gravada depois com Justin Bieber, popularizando o recurso das parcerias com colegas de gêneros vizinhos, de olho na divulgação em playlists temáticas de plataformas de streaming.

Surgiram novos nomes, como Danny Ocean, Ozuna e Bad Bunny, que mantiveram aberta aquela trilha para que, agora, nela avance essa novíssima leva —à qual até Anitta tenta aderir desde sua “Paradinha”.

Prever o potencial dessa moda daqui em diante é futurologia rasa, suscetível às volatilidades da cultura de massa.

Mas algumas lições foram aprendidas: o impacto dessa presença no pop será menos parecido com um tsunami e mais próximo da elevação do nível dos oceanos. Centímetro a centímetro, ano a ano, sílaba a sílaba: des-pa-ci-to.

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