Descrição de chapéu Crítica

'Tinta Bruta' conduz o espectador por caminhos insuspeitos, até o final

Beleza rara das imagens do filme impressiona mais do que pela história propriamente dita

Lúcia Monteiro

Tinta Bruta

  • Quando Estreia nesta quinta (6)
  • Classificação 18 anos
  • Elenco Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto
  • Produção Brasil, 2017
  • Direção Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

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Pedro (Shico Menegat), o protagonista de "Tinta Bruta", vive de fazer shows eróticos em frente à webcam. Sob o codinome de Garoto Neon, pinta o corpo com tinta fluorescente e brilha sob a luz negra do quarto. A plasticidade de seus movimentos seduz os frequentadores de um site, que pagam para vê-lo.

Os primeiros espectadores do longa de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon também ficaram seduzidos. Na estreia, no Festival de Berlim, levou o Teddy, dedicado a produções de temática LGBT. O Festival do Rio concedeu ao longa os prêmios de melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante.

Da mesma dupla de diretores de "Beira-Mar" (2016), "Tinta Bruta" impressiona mais pela rara beleza de suas imagens do que pela história propriamente dita. Não que ela seja banal, mas boa parte dela já ocorreu quando o filme começa.

Pedro é um garoto de cerca de 20 anos que perdeu a mãe na infância e vive com a irmã, Luiza (Guega Peixoto), em Porto Alegre.

Vítima de bullying, ele explodiu e cometeu um ato violento que lhe valeu a expulsão da faculdade e um processo na Justiça. Agora, passa a maior parte do tempo só, num apartamento de poucos móveis. A irmã está de mudança para Salvador.

Vamos compreendendo os meandros dessa trama aos poucos, em diálogos que, apesar de filmados em sequências por vezes bastante longas, são econômicos, de falas escassas.

Desde o plano-sequência inicial, a duração é um dado fundamental de "Tinta Bruta". Com poucos cortes, os shows de Pedro, seus deslocamentos pelas ruas da capital gaúcha e sua movimentação pela arquitetura do velho prédio onde vive trazem algo de hipnótico.

Quando surge o encontro amoroso entre Pedro e o bailarino Leo (Bruno Fernandes), a união plástica dos dois corpos que passam a se exibir juntos importa mais do que as palavras que trocam.

Enlaçados na dinâmica de voyeurismo-exibicionismo, observamos a tinta muito rosa tingir os lábios de Leo ou as pálpebras de Pedro, o amarelo passar de um corpo a outro e depois para o lençol, o laranja salientar músculos e tatuagens.

Há, é verdade, algo de autocomplacente na maneira de fazer durar as cenas de sexo, de banho, de dança. Ou de mostrar os corpos nus. Mas, quando Leo inicia o monólogo em que conta a história de Pedro, a quebra no ritmo de montagem surpreende e dá força à lírica sequência, uma das mais bonitas do filme.

Talvez "Tinta Bruta" pudesse, com alguns minutos a menos, trazer uma narrativa mais elegante. Trata-se, porém, de um filme importante, que conduz o espectador por caminhos insuspeitos, até o final.

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