Descrição de chapéu Crítica Artes Cênicas

Truncada, 'Jornada de um imbecil' se arrasta em diálogos enormes

Peça de Plínio Marcos faz das personagens palhaços, mas alegoria parece dissociada do poder crítico

Rogerio Brito (esq.), Fernanda Viacava e Douglas Simon em cena do espetáculo 'Jornada de um Imbecil até o Entendimento' - Lenise Pinheiro/Folhapress
Paulo Bio Toledo

Jornada de um Imbecil até o Entendimento

  • Quando Sex. e sáb., às 21h, dom., às 20h. Até 16/12
  • Onde Centro Cultural São Paulo - espaço Cênico Ademar Guerra, r. Vergueiro, 1.000.
  • Preço Ingressos: R$ 30
  • Classificação 14 anos

Há 50 anos estreava no Rio de Janeiro a primeira montagem da peça “Jornada de um Imbecil até o Entendimento” finalizada por Plínio Marcos naquele mesmo ano de 1968. O espetáculo do Grupo Opinião foi dirigido por João das Neves, que viveu toda a vida buscando um sentido de resistência para o teatro até sua morte recente em agosto de 2018.

A montagem atual com direção de Helio Cicero começa com uma homenagem ao antigo diretor do Opinião. Seu primeiro movimento é a entrada do elenco cantando em coro “Silêncio no Bexiga” de Geraldo Filme. A canção é um réquiem sobre a morte de Pato Nágua, antológico mestre de bateria da Vai-vai e uma das primeiras vítimas do grupo de extermínio da polícia paulista chamado Esquadrão da Morte. Isso em 1969, pouco após a promulgação do AI-5.

Como um lamento, a palavra “silêncio” fecha a canção e dá início ao espetáculo. O luto pela morte de João das Neves é, ao mesmo tempo, a lembrança doída da violência praticada nos anos da ditadura militar, quando a peça foi montada e Pato Nágua assassinado.

Em tempos de apagamento e reescrita do passado, é um gesto importante e que merece ser destacado. Além de ser uma bela forma de conexão com a memória e com a obra de Plínio Marcos, autor inconformado, sempre atento aos excluídos e leal aos seus companheiros. Em contrapartida, o empenho pela homenagem beira a reverência. De modo que a montagem atual acaba por subscrever alguns dos problemas desta peça de Plínio Marcos.

“Jornada de um imbecil” é um texto que foge ao tratamento naturalista recorrente na dramaturgia do autor. Com inspiração tropicalista, o esforço é o de apresentar uma alegoria sobre o capitalismo periférico que vá além do retrato da tragédia social para refletir sobre seus mecanismos. Mas a peça não possui aquela objetividade cirúrgica que caracteriza suas mais famosas obras, como “Navalha na carne” e “Dois perdidos numa noite suja”. “Jornada de um imbecil” se arrasta em diálogos enormes descolados das situações que os originam, a trama é truncada e repleta de comentários óbvios, displicência crítica e desordem estrutural.

O espetáculo atual segue o tratamento dado por Plínio Marcos para a peça e faz das personagens palhaços. Mas o excesso de conversação atravanca o jogo popular circense e este, quando funciona melhor, parece dissociado do poder crítico da alegoria.

Apesar de algumas inserções curiosas da encenação, como o coro de jovens vestidos em trajes de gala ou o referencial cenográfico inspirado em Banksy, o resultado é uma montagem acanhada que reverbera os limites da peça e, sobretudo, esforça-se pouco em tentar inscrever o debate nas circunstâncias atuais. O importante gesto de olhar com atenção e respeito para o passado torna-se um tipo de memorialismo sem muito brilho próprio.

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