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'Vejo a Cuba de hoje com muitas perguntas', diz Leonardo Padura

Nos 60 anos da Revolução Cubana, novo livro do escritor usa a velhice de personagem para analisar desgaste da ilha

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Em sua nona aventura, o detetive Mario Conde, protagonista de boa parte dos romances do cubano Leonardo Padura, tem um novo desafio, que surge já no ocaso de sua carreira. Afastado da polícia e convivendo com amigos de toda a vida cheios de dúvidas existenciais, políticas e amorosas, ele recebe a visita de um ex-colega da escola. 

Homossexual que se assumiu só nos últimos tempos, porque quando eram jovens a perseguição aos gays em Cuba poderia ser fatal, o amigo quer ajuda para encontrar um ex-amante que havia assaltado sua casa. O roubo dos bens não parece importar tanto quanto o de um objeto específico, a estátua de uma Virgem negra pela qual o personagem se mostra obcecado.

Conde mergulha em seu próprio passado, no do amigo e no mundo das crenças, das histórias dos artistas e dos homossexuais marginalizados em Havana, levando consigo suas dúvidas e reflexões. O resultado é o romance “A Transparência do Tempo”.

 

A busca de um objeto desejado está por trás de vários clássicos. Em que sentido essa tradição o inspirou? O desejo de possuir algo é uma manifestação da condição humana que esteve presente de forma permanente na criação literária. Em meu subconsciente de escritor estiveram gravitando esses modelos e, ao mesmo tempo, os comportamentos das pessoas na vida real.

Neste caso, escolhi um objeto que pudesse conectar à trajetória dos personagens, com dois elementos pelos quais sempre tive obsessão, a história e a fé. Por isso a estátua da Virgem negra roubada dá o argumento do livro e toda uma crônica de séculos de manifestações místicas.

Isso me permite percorrer a história para ver como os homens são tocados por ela, que se impõe a suas possíveis vontades individuais. Por outro lado, serve para mostrar algumas das formas em que a fé afeta os pensamentos dos indivíduos e os leva a ver outras manifestações da realidade que entram no campo do mistério, ou do milagre.

E por aí me conecto com outro dos universos que me interessam —o mágico como manifestação da realidade em indivíduos que têm fé, um dos assuntos tratados com insistência pelo romance latino-americano do século 20, em obras como “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, ou “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Jorge Amado. Cito esses porque me sinto em dívida com eles, por sua influência em meu trabalho.

A Cuba do livro é uma sociedade desgastada desde a Revolução em 1959, os efeitos da política atual, da perseguição a artistas e homossexuais. Isso ainda influencia como se relacionam os cubanos?  A sociedade cubana, no essencial, se comporta como qualquer outra sociedade. As coisas negativas da nossa cultura são comuns a muitas outras —inveja, traição, desencanto. E também as virtudes —fidelidade, amor, compaixão.

Só que o fato de ter vivido um intenso e dilatado processo revolucionário, no qual o papel do indivíduo se viu subordinado a um suposto bem social, em que os limites do privado foram invadidos pelo público, com a vigilância e o controle constantes, fez com que algumas atitudes e formas de comportamento se tornassem muito mais dramáticas.

Tudo isso se agravou nas últimas três décadas de crise econômica, que provocou uma crise moral. De um lado está essa cidade que se desintegra, se mostra hostil, se enche de ruínas e se mostra alheia, às vezes até mesmo inimiga. Do outro, os comportamentos mesquinhos relacionados com as estratégias de sobrevivência, o que em Cuba chamamos de “resolver” ou “inventar”. E que, em última instância, é o “salve-se quem puder”, que pode levar desde decisões como ir ao exílio em busca de uma solução individual até a traição ou o engano.

Nesses aspectos está o resultado mais daninho da crise e o mais difícil de reverter, pois já são duas gerações que viveram neste ambiente desgastado e estão marcadas por ele.

Cena da série 'Four Seasons in Havana', inspirada em livro de Leonardo Padura
Cena da série 'Four Seasons in Havana', inspirada em livro de Leonardo Padura - Reprodução

Mario Conde aparece aqui pensando muito em sua velhice. Essa novela é também uma forma sua de refletir sobre o passar do tempo? Mario Conde me acompanha já há 28 anos. Eu tinha 35 quando escrevi “Pasado Perfecto” e as obras da primeira série em que ele aparecia. Sim, ele foi envelhecendo comigo, até chegar aos 60 deste “A Transparência do Tempo”.

Conde serviu para dar minha visão da realidade exterior e social de Cuba, além da realidade de um indivíduo que pensa, sente e sofre de uma forma muito parecida comigo. Mesmo sem ser meu alter ego, Conde é uma de minhas formas de expressar como vejo a vida em Cuba. E a preocupação pelo passar do tempo é universal.

Em meu caso, a velhice é complicada, porque não envolve só o físico, mas também o intelectual. Escrever romances é um exercício desgastante. Você pode estar três, quatro anos trabalhando numa obra e precisa de uma força física muito grande, mas também de uma claridade mental que permita ter sempre ativo o que Ernest Hemingway  chamou de “detector natural de merda”, que alerta os escritores quando estão indo pelo mau caminho literário.

Eu me espanto ao ver como envelhecem alguns autores, que se esforçam para seguir escrevendo, ainda que o que entregam esteja muito abaixo dos níveis de antes.

Por isso meu modelo é Philip Roth, que, quando pensou que já tinha dito o que tinha a dizer do melhor modo como podia dizer, decidiu se retirar e não escrever mais. Essa é uma lição que deveriam aprender todos e espero poder aplicar a mim mesmo quando chegue o momento.

A obra também nos leva à Guerra Civil Espanhola, à Catalunha na Idade Média. Por que sentiu que era necessário voltar no tempo para trazer a história a 2014? O presente é o resultado da história. Como escritor vou à história buscando comportamentos e sucessos que iluminem o meu presente. Como escritor de ficções que sou, ou seja, não sou historiador, mas sim novelista, encontro na história um arsenal de comportamentos que me advertem sobre o que há de permanente na condição humana.
E é a mesma estratégia ou conceito que está em todas as minhas obras. Creio que se lêssemos melhor a história, seríamos muito melhores como indivíduos e sociedades.

Você acha que, por meio de seus romances policiais, pôde explicar mais sobre a microfísica da sociedade cubana do que quando revela de modo mais explícito suas convicções políticas ou ideológicas?  Sim. Ainda que compartilhe o que penso, minhas dúvidas e ideias sobre política, sociedade e ideologia, sinto que, na ficção, por meio de meus personagens, e em especial de Mario Conde, tenho a oportunidade de olhar com mais profundidade e mais humanidade os processos que vivemos.

O objetivo que tive ao longo dos anos foi o de fazer a crônica possível da vida cubana em todas as suas manifestações, incluindo a política e a ideologia, mas sem que fossem obras de caráter partidário.

E como vê a Cuba de hoje com o recém iniciado governo de Miguel Díaz-Canel? Vejo a Cuba de hoje com muitas perguntas. De um lado me parece terrível o retrocesso das relações com os Estados Unidos, que Obama flexibilizou e que nos levou a viver num sonho mais plácido dentro de um dilatado pesadelo. Trump fez, depois, o que fizeram outros presidentes americanos e que tanto ajuda a qualquer governo —ter um grande inimigo externo. Esse inimigo pode ser o culpado de muitas coisas.

Do ponto de vista doméstico creio que o novo governo tem um enorme desafio, fazer que, por fim, o modelo econômico funcione, ainda que não parece factível que o alcance, pois está usando os mesmos métodos e princípios que provocaram que não funcionasse antes. O mundo de hoje é diferente e é preciso pensar a economia com soluções diferentes.

A grande urgência é melhorar a vida cotidiana dos cidadãos que, é preciso dizer, está muito dura há muito tempo e, como eu disse antes, isso provoca muitos desgastes, incluídos os morais dos cidadãos e dos políticos.

A Transparência do Tempo

  • Preço R$ 57 (376 págs.)
  • Autor Leonardo Padura
  • Editora Boitempo
  • Tradução Monica Stahel

Leonardo Padura, 63

Nascido em Havana, onde estudou literatura latino-americana, é escritor e jornalista. Sua série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde já foi traduzida para vários idiomas, sendo que uma das tramas foi vertida para a TV pelo serviço de streaming Netflix. Também é cineasta e autor de roteiros e peças de teatro. Foi colunista da Folha de 2014 a 2017

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