Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

A beleza nos foi roubada pelos gurus da publicidade, diz arquiteto Renzo Piano

Arquiteto italiano assume o projeto da nova ponte de Gênova após desmoronamento e defende prédios públicos que deem forma a mudanças em curso e construam a paz

O arquiteto Renzo Piano - Divulgação
Lucas Neves
Paris

Recém-anunciado chefe dos trabalhos de construção da ponte de Gênova que vai substituir a que desmoronou em agosto, matando 43 pessoas, o arquiteto italiano Renzo Piano, 81, assume a função como um dever cívico.

O que não significa, para quem causou furor nos anos 1970 com as colossais estruturas expostas multicoloridas do Centro Georges Pompidou, em Paris, relegar a beleza ao segundo plano.

Para a estrutura a ser erguida em sua cidade natal, ele imaginou um deque no formato de uma proa e 43 grandes postes que aludem a velas de uma embarcação. Autoridades prometem entregar no fim deste ano a nave de aço, orçada em € 200 milhões, cerca de R$ 893 milhões.

O vencedor do Pritzker, maior prêmio da arquitetura, é também autor de projetos como os da sede atual do jornal The New York Times, da praça Potsdamer pós-reunificação de Berlim, do  novo prédio do museu Whitney, em Nova York, e do arranha-céu Shard, em Londres.

Segundo ele, seu ofício é um cruzamento de pragmatismo, espírito coletivo e poesia.  “Hoje, temos vergonha de falar em beleza. Ela nos foi roubada pelos gurus da publicidade”, lamenta, em entrevista em seu escritório parisiense, um dos três de onde saem os contornos de museus, igrejas, centros comerciais, tribunais de Justiça, hospitais, escolas e laboratórios universitários —os outros dois ficam em Gênova e Nova York.

Nomeado senador vitalício na Itália em 2013, Piano se diz mortificado pela ascensão ao poder em seu país de uma aliança que combina políticas anti-imigração, anarquia fiscal e um populismo desabrido.  

“Estou perdido, como que em luto”, diz. “Meu país não é intolerante, racista, está acostumado a ser a ponte, por estar no meio do Mediterrâneo.”

Para tentar remediar a “onda populista terrível” (na qual encaixa o presidente brasileiro Jair Bolsonaro), o arquiteto reorientou o foco de trabalho dos cerca de 150 funcionários de seus escritórios, que agora praticamente só se debruçam sobre prédios públicos –nas palavras dele, “máquinas, não de guerra, mas de paz”.

“A beleza e a cultura melhoram as pessoas, acendem uma luz nos olhos. E os prédios que acolhem essa cultura fazem da cidade um lugar melhor. É o oposto de um bombardeiro”, ele argumenta.

No mesmo sentido vai a disposição em ampliar os horizontes da arquitetura de ambição estética elevada. “É preciso começar a fecundar, a fertilizar as periferias. 

Elas são o começo do deserto, e o deserto cria monstros”, observa, dando como exemplo a votação expressiva de Donald Trump no interior dos Estados Unidos há três anos.

 

Em um vídeo recente, o senhor diz que se vira arquiteto para mudar o mundo, não para seduzi-lo. Qual é o papel social do arquiteto? É uma utopia. Cabe a nós construir os locais em que as pessoas se encontram, onde se produz o milagre da convivência. É por isso que, aqui no escritório, praticamente só fazemos prédios públicos: bibliotecas, hospitais, museus, salas de espetáculo, escolas e universidades.

Nasci numa família de construtores que não eram grandes empreiteiros. A empresa do meu pai não tinha mais do que 15 funcionários. Depois, tive a experiência das primeiras ocupações universitárias, em Milão, em 1962, 1963 e 1964, antes até do Maio de 68 em Paris.

Foi ali que entendi a vocação do trabalho do arquiteto; trata-se de uma arte pública, que lida com pessoas, com suas atividades, com a ideia de civilização. ‘Città’ e ‘civiltà’, cidade e civilização, são quase a mesma palavra em italiano.

Algum grau de sedução não tem mesmo lugar nessa arte de juntar cidade e civilização? Infelizmente, a arquitetura muitas vezes virou o métier do agradar a todo custo. Isso é grave, é trair sua real função, que é a de construir lugares em que as pessoas se sintam bem e de buscar a beleza.

Mas não a beleza cosmética, de superfície, e sim aquela que nada tem de frívola e se aplica tanto à natureza e à arte quanto à ciência e ao saber.

A alma não é guiada apenas pela necessidade, mas também pelo desejo. E às vezes este é ainda mais forte do que aquela. Então, a arquitetura não é só a arte de responder a necessidades. Deve atender igualmente a quereres, esperanças, sonhos. E isso é algo complicado.

Por quê? Por um lado, a arquitetura é extremamente pragmática. Trata-se de  projetar prédios e pontes que fiquem de pé, não desmoronem. Ao mesmo tempo, você é um pouco poeta, não pode esquecer a beleza.

Hoje, temos vergonha de  falar em beleza. Ela nos foi roubada pelos gurus da publicidade. Quando se fala em beleza, pensa-se logo em “beauty center”, spa, em cosmética ou em folders de agências de viagens.

E há ainda na arquitetura um aspecto político, cívico, por causa da relação com a coisa pública, com a ideia da vida em comunidade.

Para voltar à primeira questão, o arquiteto na verdade não muda o mundo, mas dá forma a mudanças em curso. Pensemos no Centro Georges Pompidou. Ele alterou a postura das pessoas sobre edifícios culturais. Mas não fui eu, o arquiteto, que operei essa mudança. Apenas tinha chegado a hora.

Havia acontecido o Maio de 68 em Paris, existia uma percepção crescente de que a cultura deveria ser acessível a todos, aberta, não intimidadora. Então, o museu virou o símbolo de uma mudança, que o arquiteto só materializou.

O que o motivou a desenhar uma nova ponte para Gênova dias depois do desmoronamento da antiga? Aquilo foi uma tragédia terrível. Uma ponte que cai é algo particularmente grave, porque ela cai três, quatro vezes. Na primeira, no caso de Gênova, cortou a cidade ao meio. Depois veio o trauma, e em seguida a necessidade de desalojar centenas de pessoas que moravam nos arredores.

Há que considerar também um aspecto quase espiritual. Uma ponte que cai é como um muro que se ergue. E era isso que estava acontecendo na Itália naquele momento. Enquanto a ponte ruía, barcos de resgate humanitário [de imigrantes à deriva no Mediterrâneo] eram proibidos pelo governo de atracar nos portos do país.

Uma ponte é sempre mais do que si própria: ela unifica, reúne. Essa queda representou uma tragédia humana, política e simbólica. Pontes não podem cair.

Falando em pontes, muros e política, como vê o nacionalismo isolacionista de líderes que ascenderam ao poder na Itália e em outros países? Aí você toca em um tema que me exaspera dia e noite. Meu 
país natal não é intolerante, racista. A Itália está acostumada a ser a ponte, por estar no meio do Mediterrâneo. Trezentas mil, 400 mil, 500 mil pessoas que, a cada ano, possam querer imigrar para a Europa passando por lá não são um fardo. Tudo bem.

Acho a onda populista terrível, mas não sei o que fazer diante dela, a não ser continuar o que sempre fiz: construir locais em que as pessoas se  encontram e compartilham valores. Já é alguma coisa.

O senhor se sente impotente diante desse fenômeno? Posso fazer o que sempre fiz, mas talvez melhor. Patrocino pesquisas de uma dúzia de jovens sobre as periferias urbanas. Mas é uma gota. Aqui no 
escritório, criamos um programa para acolher de 18 a 20 estudantes por ano.

Além disso, quase que só projetamos edifícios públicos, e esse tipo de construção vai servir como catalisador por anos e anos, seja uma biblioteca, um hospital ou um tribunal de Justiça. Também são gotas, só que um pouco maiores.

A quem precisamente essas gotas buscam se contrapor? Jair Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos Estados Unidos, a aliança que comanda a Itália, [o primeiro-ministro Viktor] Orbán na Hungria. Vejo um quadro dramático. Não esqueça, nasci em 1937, sou filho da Segunda Guerra.

É claro que sofro com o populismo, mas a minha primeira reação enquanto construtor é: o que posso 
fazer? Desenvolver mais projetos públicos. Estamos trabalhando em vários hospitais, em um centro cultural na Rússia, em um museu de arqueologia em Beirute.

A verdade é que estou perdido, como que em luto. Mas reajo a ele, procurando as gotas possíveis.

Que espaço sobra hoje para debater o futuro das cidades, quando a atenção pública é sequestrada por temas como imigração, intolerância, populismo e disseminação de notícias falsas? Ele existe. As cidades ainda são lugares mais ou menos civilizados. Por isso, Trump teve pouquíssimos votos em Manhattan. Foi a América das grandes pradarias que o elegeu. Sempre são os desertos que fazem isso.

O islã que amedronta as pessoas não é o das metrópoles ou cidades litorâneas, mas o dos “desertos”. O 
deserto cria monstros.

Por isso o senhor tem realizado cada vez mais projetos em periferias de metrópoles, como o novo Tribunal de Justiça de Paris e os prédios da Universidade Columbia, no Harlem, em Nova York? É preciso começar a fecundar, a fertilizar as periferias. Elas são o começo do deserto, já não são a cidade, mas ainda não estão no campo.

Deixe-me contar uma história. Quando abriu em Berna um museu que projetamos, um ex-correspondente de guerra do New York Times foi cobrir. Perguntou quanto a construção havia custado. “Cem milhões de francos suíços”, eu lhe disse.

“Isso é o que custa um dia de operação de um bombardeiro americano no Iraque”, respondeu o repórter. Com o mesmo dinheiro com que se destrói uma cidade se ergue um prédio que, em 500 anos, ainda será um lugar de encontro para pessoas que compartilham valores e afinidades.

A beleza e a cultura melhoram as pessoas, acendem uma luz nos olhos. E os prédios que acolhem essa cultura fazem da cidade um lugar melhor. É o oposto do bombardeiro. Um edifício público, se bem feito, é uma máquina, não de guerra, mas de paz. Construir 
é um gesto de paz.

Fala-se cada vez mais em cidades inteligentes, com sistemas integrados de informação e sensores a serviço da praticidade. Onde fica a beleza nessa história? Acredito nesse modelo, mas construir um prédio supereficiente em termos de consumo energético não pode ser desculpa para abrir mão da ética ou da beleza. Elas são incontornáveis.
 

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