'Agora podemos', diz mexicana de origem indígena indicada ao Oscar de melhor atriz

Yalitza Aparicio foi selecionada entre mais de 3.000 mulheres para protagonizar 'Roma'

Laura Tillman
Cidade do México | The New York Times

Yalitza Aparicio, estrela de “Roma”, de Alfonso Cuarón, estava acomodada ao sol, em um banco do parque México, a poucos quarteirões do bairro da Cidade do México que dá nome ao filme. Ela escolheu o parque para a nossa conversa, depois de meses de tapetes vermelhos, sessões de fotos e entrevistas com jornalistas em quartos de hotel, porque disse que o lugar a lembrava de sua cidade natal, Tlaxiaco, no estado mexicano de Oaxaca.

Aparicio, 25, havia acabado de se formar como professora e vivia em Tlaxiaco, uma cidade montanhosa de 40 mil habitantes, quando decidiu de improviso fazer um teste para o papel principal de “Roma”, o da empregada doméstica e babá Cleo. Agora, ela vem sendo apontada como exemplo para as mulheres e para as pessoas de ascendência indígena no México, e os críticos não se cansam de elogiar seu desempenho.

As pessoas a reconhecem muito nas ruas, agora?

“Não. Aqui? Não, não reconhecem”, disse Aparicio em espanhol. “Elas só parecem me reconhecer quando estou bem arrumada, mas se estou vestida naturalmente, não. Acho que muita gente não viu o filme ainda, e na tela somos diferentes do que somos em pessoa.”

O parque está muito movimentado —pessoas correm sob as palmeiras e jacarandás, passeadores de cachorros levam dez ou mais animais pelas coleiras, pessoas trabalham sentadas às mesas dos cafés. Ela veio ao parque pela primeira vez durante as filmagens, dois anos atrás.


“Sinto-me mais livre aqui do que quando estou cercada de edifícios, enclausurada. Nunca gostei de me sentir enclausurada”, disse Aparicio.

Em poucos minutos, ela estava cercada de outra coisa: fãs. Eles aparecem um a um, olhando-a de longe, e depois se aproximam para um aperto de mão —e para pedir selfies. Aparicio atende a todos os pedidos.

“Parabéns, Yaki, filme incrível, incrível. Cresci aqui e o filme me levou ao passado. Tive uma babá, todos aqueles detalhes. Chorei cinco vezes quando assisti.”

“É você, não é? Você poderia tirar uma foto de nós? Não estou usando maquiagem nenhuma. Se você puder, quanto mais longe melhor. Parabéns, todo sucesso no futuro."

No México, “Roma” é mais que um projeto pessoal de um diretor famoso. O filme deu início a uma discussão nacional sobre desigualdade, o tratamento das empregadas domésticas e quem é bem-vindo no tapete vermelho em um país no qual mulheres indígenas raramente são vistas em revistas, quanto mais em cerimônias de entrega de prêmios em Hollywood.

Em dezembro, Aparicio apareceu na capa da revista Vogue Mexico, um marco para as mulheres de origem indígena nos 20 anos de história da publicação. Aparicio não se contenta em ser uma exceção. Quer usar o poder que seu estrelato confere para criar um futuro de maior inclusão em seu país.

“Não deveria fazer diferença o que você gosta, que aparência você tem —qualquer pessoa pode aspirar ao que quiser”, ela disse.

Mesmo antes que o filme começasse a ser exibido pela Netflix, em dezembro, havia sinais de mudança. Naquele mês, o Supremo Tribunal do México decidiu que mais de dois milhões de trabalhadores domésticos, a maioria absoluta dos quais mulheres, devem ser cobertos pelo sistema de previdência social do país. 

O novo presidente, Andrés Manuel López Obrador, prometeu atenção especial ao combate contra a opressão e a pobreza que os cidadãos de origem indígena enfrentam.

Ainda que o objetivo de Cuarón não fosse fazer um filme político, ele ficou feliz com o resultado. Em uma estreia no mês passado na Cinemateca Nacional da Cidade do México, ele pediu que Marcelina Bautista, defensora dos direitos dos trabalhadores domésticos, subisse ao palco. 

“Todas as trabalhadoras domésticas do México são Libo, e nos identificamos com ela”, disse Bautista à audiência, se referindo à babá de Cuarón em sua infância, Liboria Rodríguez, em quem Cleo se baseia. “O México deve muito às suas mulheres e precisamos acabar com a violência e o abuso de poder contra ela.”

Ainda que Aparicio esteja sendo celebrada, ela também se tornou alvo de ataques racistas online. Aparicio disse que isso a incomodou, inicialmente, mas que agora presta mais atenção. “Não sou o rosto do México”, ela acrescentou, porque o país tem muitos rostos.

A editora-chefe da Vogue Mexico e Vogue Latinoamérica, Karla Martinez de Salas, disse ter testemunhado as reações racistas e classistas às fotos de Aparicio na Vanity Fair, e que se preocupou com a possibilidade de uma resposta semelhante à reportagem da Vogue. Mas o artigo foi recebido com a resposta mais positiva que a revista já encontrou na mídia social.

No parque, Aparicio estava sentada com o rosto ao sol. Sua melhor amiga no filme e na vida, Nancy García García (que interpreta a cozinheira Adela), disse que ela anda parecendo cansada. E Aparicio se sente cansada. 

Em agosto, viajou a Veneza para a estreia de “Roma” e viu o filme pela primeira vez. Ela tentou segurar a emoção, mas já nos primeiros 30 minutos começou a chorar —e continuou a fazê-lo até os letreiros finais. 
Depois disso, sua vida se tornou um redemoinho, com viagens a Londres, San Francisco, Nova York, Toronto, Los Angeles e mais.

A jornada na verdade começou dois anos antes. O diretor de um centro cultural em Tlaxiaco convidou a irmã mais velha de Aparicio, Edith, para uma misteriosa seleção de elenco —para o retrato planejado por Cuarón sobre Cleo e a Cidade do México nos anos 1970. 

Selecionar a atriz para o papel principal foi um processo que demorou meses e envolveu audições com mais de 3.000 mulheres, nenhuma das quais Cuarón aprovou completamente. Na audição, Edith Aparicio, que estava grávida, hesitou e instou Yalitza a fazer o teste em seu lugar, para lhe contar os detalhes.

Cuarón conversou com ela em uma segunda rodada de testes. “Eu estava meio nervoso quando de repente Yalitza entrou no escritório, tímida, mas muito aberta”, recorda-se Cuarón. Ele queria alguém com uma sensibilidade parecida com a de Libo, uma maneira empática de tratar os outros.

“É o modo como ela aborda as pessoas, o jeito dela de estar em algum lugar e querer que todas as pessoas, especialmente as vulneráveis, fiquem bem”, ele disse. Mas quando disse a Aparicio que a queria como estrela do filme, ela hesitou. Tinha acabado de se diplomar como professora e precisava consultar sua família.

Pouco depois, Aparicio ligou para o diretor. Ela teria alguns meses livres antes do prazo para se candidatar a um emprego como professora. “Ela disse: ‘Bem, acho que posso fazer o filme’”, recordou Cuarón. “Disse que não tinha coisa melhor para fazer.”

Para que se preparassem para a filmagem, Cuarón pediu a Aparicio e García que improvisassem cenas. Ficou espantado com a rapidez com que elas começaram a interpretar Cleo e Adela —sem reproduzir as conversas que talvez tivessem quando estudavam para ser professoras. “O que se vê no filme não é Yalitza, e sim Cleo”, disse Cuarón. “Ela criou o papel, sabe? E o fez de modo muito detalhado.”

Os atores não receberam roteiros ou resumos de suas histórias. Aparicio se baseou na complicada cenografia do filme, inspirada pelas memórias de infância de Cuarón, e em sua visão da personagem, em parte recordando as experiências de sua mãe como empregada doméstica. Aparicio vestiu o papel de tal forma que, quando a personagem passa por uma tragédia, o sofrimento dela é dolorosamente real. Na verdade, quando os médicos dão uma notícia terrível a Cleo, Aparicio se recusou a acreditar, inicialmente.

No estúdio, Cuarón criou uma realidade para que Aparicio habitasse. Agora, ela espera criar uma nova realidade no México e mostrar que as mulheres indígenas podem ascender aos níveis mais altos em qualquer ramo. 

É uma aspiração que terá de superar grandes obstáculos. Mais de 70% da população indígena do México vive na pobreza, e a discriminação —nas contratações, educação e sistema judicial— é onipresente.

Antes de saber da indicação ao Oscar de melhor atriz, ela disse que concorrer à estatueta “derrubaria o estereótipo de que, porque somos indígenas, não podemos fazer certas coisas por causa da cor de nossa pele”. “Receber a indicação derrubaria muitas ideias e abriria portas a outras pessoas —a todas as pessoas— e aprofundaria nossa convicção de que agora podemos fazer essas coisas.”

Aparicio não sabe se continuará a ser atriz. Como professora, ela reconhece que o filme pode transmitir mensagens poderosas. Moldar as mentes e corações das crianças é muito mais fácil do que desafiar as crenças enraizadas dos adultos, ela disse, mas ficou espantada ao perceber que “Roma” está fazendo exatamente isso.

“No fim, isso não é tão diferente do que eu queria fazer”, ela afirmou. “Percebi que esse filme pode educar pessoas de todas as idades, de uma maneira muito abrangente.”

Tradução de Paulo Migliacci

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