Artista comparado a Basquiat e 'it boy' nas redes sociais busca os holofotes

Samuel de Saboia apresenta pela 1ª vez esculturas e bordados em sua nova individual em São Paulo

Giuliana Mesquita
São Paulo

Em 2019, já não basta ser só um ótimo artista. O pernambucano Samuel de Saboia, 21, sabe bem disso. Ser um personagem que entende seu público, conversa com ele, tem presença forte nas redes sociais e cativa quem estiver a poucos metros de distância deixou de ser bônus para virar regra. 

Sarmurr, como ficou conhecido no Instagram, é a epítome de tudo isso. “Saí da periferia e sempre tive a vontade de ser um grande jovem artista”, diz ele, que cresceu no bairro pobre de Totó, no Recife.  

“A gente vivia bem e depois caiu”, conta. Nos tempos das vacas gordas, Saboia estudou francês e inglês. Também dos pais, que são pastores, veio o gosto pela leitura e pela Bíblia. Nas redes sociais, fala de Deus em textões emocionados.

A moda é outro elemento importante para analisar a ascensão de Saboia na internet e fora dela. Sem seguir modinhas, ele usa peças garimpadas em brechós de São Paulo, Nova York ou Paris. 

Qualquer breve conversa com ele revela um vocabulário que emula sequências de vitrines de um shopping de luxo: Dior, Prada, Galliano. 

“Quando era adolescente comprava revistas Vogue com quatro anos de atraso por R$ 2,50. Eu via as fotos e pensava: quero usar essas roupas”, lembra o artista, que sonha em ser patrocinado pela Dior. 

O faro para as passarelas herdou da mãe, que sempre costurou, é fã de Chanel e de Pucci, e, do pai, que ele define como “consumista”, e que sempre se vestiu bem, combinando sapatos, terno e gravata. 

“A moda aparece em meu trabalho na cor, na textura e no movimento dos pincéis, que para mim são drapeados de um tecido, que vem criando volume”, define.

Sarmurr recebeu a alcunha de “o novo Basquiat”. A comparação com o artista americano Jean-Michel Basquiat é inevitável. Não só pelos desenhos, mas muito também pelo apelido, já que ele assinava SAMO nos grafites que decoravam as paredes de prédios abandonados de Nova York no fim dos anos 1970. 

Saboia vem se esforçando com afinco para aplicar a lógica das blogueiras de moda à construção de sua figura de artista; muitos reconhecem seu admitido deslumbre com a vida que conquistou a duras penas. “Estou muito pertinho de tudo o que eu imaginei”, diz. “Está sendo uma loucurinha”, suspira, feliz por agora poder comprar todos os materiais que deseja para os trabalhos.

A pouca idade é outro fator que, apesar de levantar sobrancelhas de quem por muito tempo se acostumou a idolatrar artistas mais velhos, o aproxima de seu público. Seus fãs lotam sua caixa de mensagens de Instagram com pedidos de conselhos —não porque achem que ele tem a fórmula mágica, mas porque se enxergam em seus posts, em seus desabafos, no fato de ele rir de si mesmo.

Para quem gosta de receitas, a de Saboia começou quando ele passou a publicar selfies nas redes, em 2016. Ele era modelo em uma agência com tipos mais “reais” e, a conselho de uma booker, publicou suas primeiras fotos. Foi o início da construção de uma imagem da qual ele cuida bem: “O artista negro não pode errar”, diz.

“Diferentemente de artistas adultos, os jovens criam coletivos para se fortalecerem. Isso é necessário”, explica ao falar sobre o AEANFDC, coletivo do qual participava com a artista transexual Matheusa Passarelli, assassinada no Rio de Janeiro no começo de 2018 e com quem fez performance na SP-Arte, e sobre o HOA, espaço compartilhado por novos artistas onde mantém seu ateliê em São Paulo.

Seguindo a narrativa que criou em sua primeira mostra individual, “Beautiful Wounds”, que fala sobre as mortes de cinco amigos próximos por crimes de homofobia, transfobia e xenofobia, exposta em Nova York no final de 2018, Saboia decidiu continuar falando sobre morte em sua nova individual, “Guardiões”, que abre nesta quinta (31), na Galeria Emmathomas, em São Paulo. 

O ponto de partida foi a tela “Memento Mori”, que fala sobre mortalidade. “Ela é pintada com pigmentos que, com o tempo, vão sumir. Só o bordado da tela vai continuar lá, como um resquício seu, um rastro de alma que você deixou no planeta ou nos outros”, conta. Essa é a primeira vez que o artista apresenta esculturas e bordados.

Seus clientes, seus fãs e os discípulos podem não ser a cara de quem sempre consumiu ou apreciou arte no país, mas, se depender de Saboia, tudo está prestes a mudar no próximo clique.


Guardiões
Galeria Emmathomas, alameda Franca, 1054, Jardim Paulista. Abertura na quinta (31), às 19h. De seg. a sex., das 11h às 19h, sáb., das 11h às 15h. Grátis. Até 23/3 

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