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Cinema

Atrevimento de 'Temporada' é extrair beleza de algo aparentemente banal

Filme de André Novais Oliveira nos coloca em contato com rotina de agentes sanitários da periferia

Inácio Araujo

Temporada

  • Quando Em cartaz
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Grace Passô, Russo Apr, Rejane Faria
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção André Novais Oliveira

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A audácia é a marca mais evidente do cinema de André Novais Oliveira, desde sua estreia, com "Fantasma". Nesse curta de 2010, Novais mostra um único plano: um posto de gasolina numa esquina, à noite. Pela conversa que se escuta, entre dois amigos, depreende-se que estão em um bar e que um deles espera a passagem da ex-namorada.

Qual o objetivo? Matar a moça? Vingar-se por ter sido abandonado? Não. Muito prosaicamente ele deseja apenas vê-la.

Em alguns minutos, Novais desconcerta ali qualquer expectativa, ao mesmo tempo em que constrói outras —como se afastasse fantasmas dinossáuricos do cinema para instalar um outro.

A coisa mais difícil no cinema, no entanto, talvez não seja a audácia, mas a capacidade não de renunciar a ela, mas sim de contorná-la para chegar ao centro da questão.

Evitar as ideias e o desejo de dizer algo em troca de mostrar algo inédito. Eis o que faz de "Temporada" um filme excepcional.

Chegando a "Temporada", seu segundo longa-metragem, de 2018, Novais não renuncia nem à audácia nem ao hábito de rebaixar o tema para melhor observar as pessoas, sua atividade, um bairro, talvez uma cidade.

Aqui, ele nos coloca em contato com um grupo de agentes do serviço sanitário, encarregados de eliminar focos de dengue. Talvez a coisa mais banal no mundo. Todos já vimos ou ouvimos distraidamente os alertas governamentais sobre isso.

Mas quem são, precisamente, essas pessoas que tentam eliminar focos de insetos? Como são recebidos em cada casa? Que dificuldades enfrentam? Quanto ganham por mês? Como são suas casas? Como se divertem?

São questões elementares, talvez até supérfluas num mundo em que, supostamente, tudo tornou-se visível. Tudo, exceto, talvez, o essencial. Como, por exemplo, a vida de uma pessoa ou o funcionamento de um serviço de saúde pública.

Ao atrevimento de mostrar o inédito no cotidiano mais banal, "Temporada" nos conduz à melhor tradição clássica. Ele faz lembrar "Aquela Mulher!" (vulgo "Manpower"), em que Raoul Walsh trata de um grupo encarregado de executar consertos em redes elétricas.

Claro, ali havia Marlene Dietrich e não Grace Passô (por sinal, ótima —ela faz Juliana, a protagonista), Edward G. Robinson em vez de Russão.

Mas o cinema e o seu realismo mudaram dos anos 1940 para cá. É tão emocionante ver Juliana subir em uma escada para chegar ao teto de uma casa, sabendo que ela sofre de vertigens, quanto acompanhar os homens que, no alto de um poste, tentam religar cabos elétricos durante uma tempestade.

O princípio é idêntico. O cinema de Novais Oliveira é uma exaltação do humano no que tem de mais elementar: seu trabalho, sua beleza, suas paisagens.

Sim, a beleza existe —embora agreste— em Contagem, na periferia de Belo Horizonte. Basta buscá-la. Basta querer vê-la. Ela está na casa improvisada da mulher que acaba de se instalar e espera a chegada de alguém que talvez nunca chegue.

Existe beleza na simples aplicação profissional de agentes públicos mal pagos, que examinam essas casas de periferia, cujos jardins ou adjacências parecem ótimos lugares para o desenvolvimento de insetos.

Quem souber apreciar o encanto dessas pequenas coisas que mostram com tão discreta eloquência inesperadas belezas do humano também saberá apreciará esse filme raro.

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