Descrição de chapéu The Washington Post Cinema

Com o filme 'A Esposa', a atriz Glenn Close pode, enfim, ganhar o Oscar

Indicada outras seis vezes, americana vive a mulher cheia de segredos de um escritor famoso

A atriz Glenn Close em 'A Esposa'

A atriz Glenn Close em 'A Esposa' Divulgação

Nova York

O desempenho espetacular de Glenn Close em “A Esposa” já a coloca na lista de favoritas ao Oscar.

Adaptado pela roteirista Jane Anderson (“Olive Kitteridge”), do romance homônimo de Meg Wolitzer, publicado em 2003, o filme dirigido pelo sueco Bjorn Runge gira em torno do relacionamento entre Joe Castleman (Jonathan Pryce), um romancista famoso (e famosamente infiel), e sua mulher, Joan, uma escritora que teve sua carreira abreviada, que apoia o marido, mas parece guardar muitos segredos. O desempenho de Close no papel de Joan foi descrito pelo jornal Guardian como “indecifravelmente brilhante”.

Será que este será o ano em que Close, 71, indicada para seis estatuetas no Oscar por trabalhos passados, enfim levará para casa o prêmio como melhor atriz? Ela não se deixa enredar pelos boatos. “Sou ianque”, diz a atriz, nascida no Connecticut. “Não acredito que coisa alguma de bom vá acontecer até que aconteça”.

O filme começa no momento em que Joe está a ponto de ser informado de que receberá o Prêmio Nobel de Literatura, e acompanha os Castleman em sua viagem a Estocolmo, na companhia do filho adulto do casal (Max Irons), um escritor que tenta escapar à longa sombra de seu pai, e do biógrafo não autorizado de Joe (Christian Slater), um bisbilhoteiro literário que espera encontrar alguma coisa de podre na trajetória do misterioso sujeito que lhe serve de tema. Antes que a história termine, esqueletos escondidos há muito tempo serão exumados, e clichês serão invertidos.

Close, que divide seu tempo entre uma casa de campo no condado de Westchester (Nova York), um pequeno apartamento no West Village (Manhattan), e uma casa em Bozeman, Montana, perto de onde vivem três de seus quatro irmãos, esteve em Manhattan recentemente, em companhia de Runge, para discutir os temas complexos e provocativos de "A Esposa”.

 

Na era do movimento #MeToo e de uma crescente conscientização sobre a desigualdade entre os gêneros em Hollywood, o que este filme tem a dizer quanto ao momento cultural atual?
Glenn Close - Talvez não seja exatamente esse o assunto, mas uma das minhas falas favoritas no filme acontece quando Joe, ao preparar seu discurso do Nobel, me diz que “tenho que te agradecer, ou eles vão pensar que sou um escroto narcisista”. E eu respondo: “Mas você é!”

Amo essa fala. Tem tudo a ver com o momento atual. Mais especificamente, acho que esse filme é realmente um risco. Minha filha [Annie Starke] tem 30 anos, e representa uma geração de mulheres que cresceram depois do movimento feminista. A ideia toda de que as mulheres deveriam ser iguais aos homens as envolvia totalmente, a ideia de que as mulheres não deveriam ter de lutar por aquele poder. E Joan é uma mulher que escolhe viver com um homem abusivo.

Eu tinha medo de que todas as jovens que assistissem ao filme pensassem “por que ela não o deixa e pronto?” Era isso que eu temia. Que elas não fossem capazes de compreender a mentalidade, ou a cultura, da qual o comportamento de Joan provinha. Foi nisso que eu e Bjorn trabalhamos mais. Eu tinha de compreender aquela mentalidade por mim mesma, tinha de colocá-la em ação.
 
A questão de por que as mulheres ficam com homens que abusam delas - quer física, quer psicologicamente - não é só um problema geracional.
Glenn Close -  Certo. O que foi importante para mim, à luz do movimento #MeToo, é que, no final do filme, Joan enfim encontra coragem. A raiva dela enfim chega ao ponto em que ela começa a despertar como uma pessoa plena. Antes disso, ela era cúmplice. Mas passei por isso, pessoalmente. Tive relacionamentos nos quais você se vê na posição de amparar a outra pessoa, em seu próprio detrimento, para impedir que essa pessoa te abandone. É uma permuta.
 
Falando de poder e de seu oposto, pelo que sei Glenn tinha poder de veto sobre o diretor que seria contratado para o filme. Vocês podem dizer como isso funcionou?
Bjorn  Runge -Sim, recebi o roteiro de um dos produtores, Meta Louise Foldager, com quem eu estava trabalhando em Copenhagen. Li e pensei que era um texto absolutamente maravilhoso. E a produtora disse que “nós queremos que você dirija. Agora só depende de Glenn Close aprová-lo ou não”.
 
Não é incomum que uma mulher tenha esse tipo de poder, em Hollywood?
Glenn Close - Não sei. No mundo do cinema independente, não creio que seja assim tão incomum, porque em muitos casos a produção de um filme depende da presença de um ator, e a esperança é de que outras pessoas desejem participar por quererem trabalhar com esse ator. Faço muitos filmes independentes. Minha definição de filme independente é “filme que por pouco não é realizado”. Esse roteiro estava circulando há mais de 14 anos. Por isso, nosso encontro era importante. Foi no Cafe Cluny, pertinho do meu apartamento no Village. E só conversamos.
Bjorn  Runge - Sim, conversamos.
 
Você disse algo especial para convencê-la?
Bjorn  Runge - Fiquei surpreso, porque além de conversar sobre o roteiro, falamos sobre a vida, sobre teatro, sobre cinema. Por fim, lembro de que Glenn me olhou e, agora entendo, foi aquele o momento. Houve uma pausa - não só uma pausa, mas como um silêncio decisivo - e de repente ela disse “Quero que você dirija o filme”. Foi ali que começamos nossa colaboração.
Glenn Close - Foi como que uma reação instantânea, quase instintiva. Estava tudo no jeito pelo qual você falou do projeto, a na nossa química.
 
A natureza da colaboração - e da cumplicidade - é outro dos temas do filme. Será que a suspensão do Nobel de Literatura este ano, depois que surgiram acusações de delitos de conduta sexual, criou um subtexto involuntário para “A Esposa"?
Bjorn  Runge - Na Suécia, temos um nome para um tipo especial de homem: o “Homem da Cultura”. Em muitos casos, é um homem de grande poder, que atrai as pessoas e usa esse poder. Na Academia Sueca, hoje, existe uma grande crise, porque neste ano, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o Nobel de Literatura não será conferido.
Glenn Close - Torna o filme muito oportuno.
Bjorn  Runge -  Essa crise de poder dentro do grupo tem a ver com acesso, com o #MeToo, com o poder entre pessoas...
Glenn Close - Poder sexual.
Bjorn  Runge -  ... e a cultura do silêncio. Isso adiciona muitos ingredientes adicionais à história. É quase shakespeariano. Joe Castleman, que tenta seduzir a jovem fotógrafa, é um Homem da Cultura clássico.
 
Quando Joe é convidado a criticar a trama do primeiro conto de seu filho, oferece uma avaliação áspera que contém uma crítica implícita à trama do filme: “O marido picareta, a mulher estoica com sua raiva reprimida - nada disso me convence. É um clichê”. No entanto, embora essa descrição resuma a trama de “A Esposa”, o filme evita esses clichês escrupulosamente. Como atriz, e como diretor, isso não dificulta muito mais as coisas?
Glenn Close - Sim. A cena na qual Joe está tendo um ataque cardíaco foi uma das mais difíceis, porque Joe me pergunta se eu o amo, logo depois que eu lhe digo que vou deixá-lo. Lembro de ter parado para perguntar a Bjorn se ele realmente tinha de dizer aquilo.
Bjorn  Runge - E em seguida, depois que ela responde que sim, Joe retruca: “Você mente tão bem. Como é que posso ter certeza?”
Glenn Close - Eles mentiram um ao outro a vida toda.
 
Joan também está mentindo descaradamente na sua grande cena com Christian Slater, na qual o personagem dele tenta arrancar informações sobre Joe. Ver o jogo de gato e rato entre vocês me fez recordar uma crítica ao seu trabalho na série “Damages”, do canal FX. “Não existe ator, vivo ou morto, que seja mais assustador do que Glenn Close quando sorri”.
Glenn Close - [Rindo] Amo aquela cena, porque é tudo um jogo mental.
 
Você disse certa vez que sentia ser alguém que está do lado de fora, olhando para dentro. O que quis dizer com isso?
Glenn Close - Sou introvertida. Li o livro “Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking”. Não gravito naturalmente para situações sociais. Não passo muito tempo pensando sobre minha posição na hierarquia de Hollywood. Talvez porque nunca tenha passado muito tempo por lá. Sempre fui uma pessoa que passa a maior tempo do tempo fechada com seus pensamentos. Para mim, atuar é pensar.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

The Washington Post
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