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Dançarinos drogados fazem suruba e criam pandemônio em novo filme de Gaspar Noé

Em 'Climax', diretor conhecido por obras polêmicas rememora suas noites selvagens com bebedeira e amnésia alcoólica

Cena do filme 'Clímax', de Gaspar Noé

Cena do filme 'Clímax', de Gaspar Noé Divulgação

Guilherme Genestreti
Paris e São Paulo

Enquanto se esbalda em batatas fritas num hotel cinco estrelas da capital francesa, o diretor Gaspar Noé pondera qual é o seu filme menos odiado. Ele sabe de cor as porcentagens de resenhas negativas de todas as suas obras. A resposta não demora para vir: é “Climax”.

Ainda assim, o longa que estreia nesta quinta (31) está longe de ser apaziguador.

Os seus 95 minutos de duração batem como uma “bad trip” de LSD —um pesadelo lisérgico que não acomete só os personagens, mas que também derruba os espectadores, enquanto o cineasta pincela provocações sobre aborto, imigração, automutilação e maus-tratos a crianças.

Nas duas ocasiões em que conversou com a Folha, em Paris e em São Paulo, o diretor refutou a ideia de que sua obra seja um libelo contra as drogas à semelhança de “Réquiem para um Sonho”. “É um filme sobre a perda do controle. E isso pode acontecer em qualquer ocasião. Num protesto ou no Carnaval do Rio...”

O mote de “Climax” é sucinto: num ginásio fechado, um grupo de dançarinos sacode na batida de sintetizadores. 

Enquanto flertam e trocam segredos, entregam-se a copos de sangria. Só mais tarde vão se dar conta de que a bebida está batizada com ácido —as danças, então, começam a ficar mais ensandecidas, as brigas afloram e os desejos ficam mais vorazes. Por ser um filme de Gaspar Noé, o retrato do pandemônio não terá freios. 

“Todo mundo tem as suas questões, que explodem em situações extremas”, diz o diretor. “Somos humanos e tentamos nos comportar como mamíferos, mas em perigo nos tornamos répteis cruéis lutando por sobrevivência.”

A luta reptiliana de seus personagens revela mesquinharia na maioria das vezes; noutras, os embates trazem à tona assuntos de reverberação política. Não à toa, um amplo tecido de lamê pintado conforme as cores da bandeira da França se impõe atrás das picapes. 

O dançarino de origem árabe, por exemplo, é o primeiro suspeito do entorpecimento coletivo e será defenestrado num rito sumário conduzido pelos que ficaram dopados. 

Noé despejou na história as suas próprias experiências de baladeiro inveterado. Durante as gravações de “Viagem Alucinante”, de 2009, ele varava noites e noites em boates de Tóquio que nunca soube como chegaram ao fim. “Só me lembro de baterem à porta do meu quarto no dia seguinte, reclamando que eu estava atrasado para as filmagens.”

Para rodar “Clímax”, insiste que tanto ele quanto os atores estavam sóbrios. “No máximo, fumaram um baseado, mas não estavam chapados.”

Com elenco formado por não atores em sua maioria, o diretor só buscou bons dançarinos. “Jamais faria um filme sobre boxe, natação ou tênis. Mas a dança me hipnotiza”. 

A sequência inicial traz uma pulsante coreografia com passos de voguing, estilo baseado nos movimentos das passarelas e que ganhou fama com Madonna e com o documentário “Paris Is Burning”, de 1990. Esse filme, hoje cult, não serviu de referência, contudo. “Só assisti aos primeiros 40 minutos e depois dormi”, diz Noé. 

Aos 55, o cineasta nascido em Buenos Aires reflete sobre seu legado com algum escracho. Diz que adora a “imprensa raivosa” que detona seus filmes e se irrita com a insistência de lhe colarem a pecha de  “diretor provocador”. “Só faço os filmes que quero fazer.”

Isso significa incluir uma controversa cena de nove minutos em que Monica Bellucci é estuprada em “Irreversível”, de 2002. Ou uma ejaculação em 3D em “Love”, de 2015.

“Meu pai odeia aquela parte”, conta, sobre esse longa de quatro anos atrás. “Ele ficava me perguntando se era meu pênis ali. Mas é claro que não.”

A hipersexualização que marca seus filmes parece ter abrandado em “Clímax”. Há, sexo, mas muito mais pudico. A atriz principal não quis mostrar o mamilo. Noé cedeu.

Não deixa de ser uma guinada para o nome mais estridente de certo cinema do corpo, que tanto marca a produção francesa das últimas décadas e se vê refletido em Claire Denis, François Ozon e outros.

Sinal dos tempos, talvez. Noé diz invejar a liberdade de outro “enfant terrible”, Lars von Trier. Acha que há cada vez menos espaço para filmes transgressores. “Um ‘Taxi Driver’ jamais seria feito hoje”.

Culpa, segundo ele, dos produtores, “interessados apenas em obras imbuídas de um senso moral”. Essa não é sua onda.

“Os filmes mais sensacionais hoje são documentários. Porque só retratam as coisas como são, e a decisão sobre o significado daquilo cabe só ao espectador, não ao produtor.”

O jornalista viajou a convite da UniFrance
 

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