Elba Ramalho canta amores e dores da estrada em novo 'O Ouro do Pó da Estrada'

Itinerante e hiperativa, paraibana expande sonoridade e paleta vocal em 38º disco, que lança em fevereiro, em shows em SP

Rafael Gregorio
São Paulo

Todo artista tem de ir aonde o povo está, e Elba Ramalho vai. “Estradeira”, como se define, a paraibana canta as dores e os amores do nomadismo artístico em “O Ouro do Pó da Estrada”.

“A inspiração do álbum é o caminhar, o não precisar de um fim para chegar. Cada dia é uma poeira que sobe, um algo que vira ouro, um aprendizado, um relacionamento”, comenta a cantora.

A estrada tem sido uma constante para a paraibana desde que lançou seu primeiro álbum, “Ave de Prata”, em 1979.

E ainda é. Prestes a celebrar quatro décadas de carreira, Elba lança seu 38º disco de estúdio —quase um trabalho por ano, média frenética no paralelo com colegas de geração.

“Estou há quase 40 anos na estrada, sempre sem fazer distinção de lugares ou pessoas. Existe uma coisa intensa entre artista e público que faz transcender todas as dificuldades.”

Marca dela sobre o palco, a hiperatividade também se manifesta na agenda. Elba fez 12 shows em dezembro (um a cada dois dias e meio), virou o ano em minitemporada em Trancoso, na Bahia —como faz há anos—, e em fevereiro subirá ao palco do Sesc Pinheiros, em São Paulo, para lançar seu novo trabalho.

O ritmo intenso colaborou para render grande estima do público e, mesmo em meio a tantas vozes femininas marcantes, o reconhecimento como uma das maiores cantoras da MPB.

“É da minha alma mesmo, da minha composição física; eu sou uma pessoa muito ativa. Todo dia acordo e vou correr por uma hora na areia fofa diante do mar”, diz Elba, 67.

“Mas eu me cuido, claro, seria hipocrisia dizer que não faço nada. Não adianta eu querer que Deus me bote em pé se passei a noite toda debandando por aí, fazendo farra.”

Ao longo da carreira, a cantora frequentou listas de mais ouvidas e trilhas de novelas com temas como “Sonho Meu”, “Anunciação” e “Ai que Saudade d’Ocê”, fruto das colaborações com Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença que, desde 1996, renderam discos e shows sob o epíteto de “O Grande Encontro”.

Mesmo após tantos anos e tantas conquistas, o que a motiva em um novo trabalho?

“Esse disco me desacomoda”, responde Elba.

“Eu podia deitar e rolar, né? Fazer Carnaval cantando só sucessos. Mas pra mim é essencial ter motivações e não plagiar a mim mesma”, diz a cantora, interrompida três vezes por fãs em busca de autógrafos e selfies enquanto falava com este repórter do aeroporto de Aracaju, onde fez show, com destino a Brasília, onde cantaria no dia seguinte.

Também a impulsionou no novo álbum o canto, mais especificamente a busca por tonalidades distintas, como nas belas releituras de “Girassol”, sucesso do grupo Cidade Negra nos anos 2000, e “Princesa do Meu Lugar”, de Belchior.

“Minha voz tem tons agudos, mas nesse disco cantei mais grave. É aprendizado.”

Sua mescla de baião, forró e MPB ganha tons roqueiros e joviais no novo álbum, produzido por Yuri Queiroga e seu tio, Tostão Queiroga, e repleto de composições de gente mais jovem —Marcelo Jeneci e Chico César, por exemplo, fornecem “Oxente”, enquanto Siba assina “José”.

Também abundam participações, como a de Ney Matogrosso, em “O Girassol da Caverna”, e as de Maria Gadú, Roberta Sá e Lucy Alves, em “O Mundo”, de André Abujamra.

Elba, aliás, parece se dividir entre a inquietação e o devaneio. “As coisas morrem para renascerem, erros acontecem para aparecerem acertos, do silêncio vem o barulho. Vou lidando com as dualidades.”

Ela só evita falar de política —talvez pelo impacto polêmico de afirmações recentes criticando o governo Michel Temer e, depois, a corrupção, por ela associada aos governos de Lula e Dilma Rousseff.

“Não quero falar de política. Mas acredito no potencial do Brasil, a gente vai se recuperar. Nunca torço contra, seria antidemocrático. Ganhou, agora vá lá e faça o seu melhor. É só o que eu quero dizer.”

O Ouro do Pó da Estrada Elba Ramalho

  • Quando Shows de lançamento: Sesc Pinheiros - r. Pais Leme, 195, Pinheiros, São Paulo. Sex. (8/2), sáb. (9/2) e dom. (10/2): horários e valores dos ingressos a divulgar
  • Preço Deck. R$ 24,90 (CD). Disponível nas plataformas digitais

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