Descrição de chapéu Artes Cênicas

Em tempos de censura às artes e guerra cultural, teatro discute a Justiça hoje

Espetáculos debatem falta de conhecimento das leis, injustiça e a quem, na prática, os códigos se aplicam

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Lembrando um fórum, o espetáculo “Segredo de Justiça” vai aos poucos se abrindo, dando mais e mais espaço para intervenções e colocações da plateia, que pode se posicionar sobre as questões postas em cena —todas baseadas em casos da Justiça.

A escolha da forma, diz o diretor Marco André Nunes, não é à toa. “Estamos procurando, como todo mundo neste momento, entender que justiça é essa. Acho que a peça só é feita desse jeito pelo que a gente está vivendo agora.”

Ele se refere ao clima polarizado que tomou conta do país há alguns anos e se intensificou durante a última eleição, revelando uma ascensão do conservadorismo e de ideias extremistas, além de recentes agressões às artes, com produções censuradas e ataques virtuais a artistas

É um momento que parece impulsionar montagens que discutem justamente o significado de justiça nos dias de hoje, um conceito balançado pela violência, por casos de corrupção e por discursos de governantes que se dizem salvadores da moral política.

“O que se percebe é que vamos ter uma série de retrocessos. Por que chegamos a esse ponto?”, questiona o diretor Miguel Rocha, que estreia “(In)justiça” com a Companhia de Teatro Heliópolis.

O grupo partiu de sua vivência na periferia paulistana e do questionamento sobre “o que veredictos não revelam” para discutir a Justiça no país.

Para tanto, narra a história de um jovem que se envolve num crime. Cerol, exímio empinador de pipas, foge de uma briga e acaba disparando involuntariamente contra uma mulher, que morre. Ele então é preso e julgado.

Mas o que está em jogo não é apenas o caso individual do rapaz. Debatem-se também os direitos humanos, o julgamento da sociedade, o que é nossa noção de certo e errado —e para quem ela se aplica. 

Assim, o grupo faz um histórico social brasileiro, falando das contradições e desigualdades do país, e coloca a plateia como júri de um tribunal. 

“Queremos pensar no tema, provocar. Não achamos que é nossa responsabilidade dar respostas, muito menos apontar o dedo”, diz o diretor.

Também na busca de humanizar um personagem marginalizado, Vinícius Piedade faz em “Cárcere” um pianista, preso por traficar drogas, que se vê no meio de uma rebelião. 

“Falamos da necessidade de permanecer humano num lugar que nos trata como um animal”, diz o ator, diretor e dramaturgo, que teve a ideia para a montagem quando encenava um trabalho anterior dentro de presídios nacionais.

“E hoje estamos num momento de generalização, de julgar a todos e dizer que bandido tem que morrer mesmo.”

Também é um período de muita midiatização da Justiça, comenta Marco André Nunes. “A gente vê os julgamentos do Supremo [Tribunal Federal], os depoimentos da [Operação] Lava Jato, assistimos a tudo ao vivo, na televisão, no celular.”

Em seu “Segredo de Justiça”, ele se baseia no livro homônimo da juíza Andréa Pachá, no qual relata casos que vivenciou em tribunais. “Mas discutimos menos os casos e mais o questionamento da Justiça hoje e de que como se julga”, afirma o diretor, lembrando o ensaio de Franz Kafka “Sobre as Questões da Lei”, no qual o autor escreve: “É extremamente penoso ser governado por leis que não se conhecem”.

“Ninguém estuda as leis, a Constituição”, continua Nunes. “O próprio Estado às vezes tira coisas que a gente não sabia que a gente tinha.”

Mas por vezes o debate no palco surge menos direto. Vem por meio de alegorias, como em “Meia-Meia”, adaptação do romance “O Anão”, do escritor sueco Pär Lagerkvist. Luís Mármora vive um sujeito mesquinho, que nos subterrâneos de um castelo trama atrocidades com o seu povoado.

“O desejo de criar a peça nasceu dessa urgência, de dialogar com o que está acontecendo”, diz o ator. “O personagem destrincha o pior do ser humano, conceitos que são exatamente o que vivemos hoje.”

Noutras, a discussão surge em forma de humor, como na montagem de “O Martelo”, texto de Renato Modesto dirigido por Alexandre Reinecke.

A comédia policial adentra a loucura de um homem injustamente acusado de matar uma série de mulheres. Durante a encenação, na qual os atores trocam de personagem a todo momento, não se sabe se o que vemos é real ou algum distúrbio mental. 

Mas o protagonista resume a tese numa fala: “A realidade é o que as pessoas pensam, não o que as pessoas veem”. Casa bem com a virulência dos bate-bocas de internet e com a onda de notícias falsas, tão alimentadas no meio político.

Tanto que em seu novo espetáculo, “Hamlet Cancelado”, previsto para estrear em abril, em São Paulo, Vinícius Piedade põe a tragédia de Shakespeare num diálogo com políticos dos dias de hoje.

“Não tem como eu não colocar Cláudio [personagem que mata o rei, seu irmão, para tomar o trono] nessa figura de um novo governante que veio trazer falsas ideias, ele representa muita gente, como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Não tem como não dialogar com a Justiça.”

Ainda mais num momento em que o mundo artístico se vê extremamente criticado por políticos e por parte da sociedade. “Vemos algumas paranoias e uma perseguição ao politicamente correto”, comenta Piedade.

“Vemos um movimento antiartistas, uma coisa absurda, mas muito bem articulada. E de uma arbitrariedade total”, diz Marco André Nunes.

Ele lembra casos em que o governo e Justiça intervieram na produção artística, como o veto a sessões da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, no qual a atriz travesti Renata Carvalho interpreta um Cristo transexual, e o fechamento, na última semana, da exposição “Literatura Exposta”, justamente na véspera de uma performance que teria nudez feminina.

“Mas o que queremos é o contrário, justamente o diálogo. Esse moralismo extremo não é ser justo. Justo é ouvir.”

 

Cárcere
Centro Cultural Banco do Brasil, r. Primeiro de Março, 66, Rio de Janeiro. Qui. a dom., às 19h30. Até 3/3. Ingr.: R$ 30. 14 anos


(In)justiça
Casa de Teatro Maria José de Carvalho, r. Silva Bueno, 1.533, São Paulo. Sex. e sáb., às 20h, dom., às 19h. De 25/1 a 19/5. Ingr.: contribuição voluntária. 14 anos


Meia-Meia
Tusp, r. Maria Antônia, 294, São Paulo. Sex e sáb., às 19h; dom., às 18h. Até 24/2. Ingr.: R$ 15 a R$ 30. 14 anos


O Martelo
Teatro Novo, r. Domingos de Morais, 348, São Paulo. Sex. e sáb., às 21h, dom., às 19h. Até 7/4. Ingr.: R$ 50 a R$ 60. 14 anos


Segredo de Justiça
Sesc Ginástico, av. Graça Aranha, 187, Rio de Janeiro. Qui. a sáb., às 19h, dom., às 18h. Até 10/2. Ingr.: R$ 7,50 a R$ 30. 14 anos

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