Fenômeno pop, 'Jenifer' domina as paradas e abre disputa pelo hit do verão

Música sobre pegação no Tinder após pé na bunda cresce com letra simples, tema atual, ritmo 'meio axé' e clima de farra

Rafael Gregorio
São Paulo

​A essa altura, o leitor já sabe ou ao menos ouviu falar —o nome dela é Jenifer e o eu lírico a achou no Tinder.

Entoada pelo cantor Gabriel Diniz, “Jenifer”, a canção, se espalhou por festas, rádios, plataformas de streaming e redes sociais. Até o Fantástico, o dominical da Globo, dedicou minutos aos versos: “O nome dela é Jenifer/ Eu encontrei ela no Tinder/ Ela faz umas paradas/ Que eu não faço com você”.

É mesmo um quase conto de fadas a biografia desse hit pop sobre um rapaz que toma um pé na bunda da namorada e dá a volta por cima.

Escrita por um coletivo de Goiânia, a composição foi oferecida a expoentes da música extremamente popular brasileira, como Wesley Safadão e Gusttavo Lima, que a rejeitaram por destoar de suas esticas de moços de família.

A canção só ganhou dimensão de fenômeno pop quando o cantor de arrocha —mescla de forró e axé— viu potencial.

Na esteira de um vídeo protagonizado pelas atrizes Mariana Xavier e Aline Gotschalg, “Jenifer” desbancou “Atrasadinha”, de Felipe Araújo e Ferrugem, e atualmente tem 95 milhões de reproduções no YouTube —eram 67 milhões há seis dias.

“Me sinto abençoado por Deus ter posto ‘Jenifer’ em minhas mãos”, diz Gabriel, o GD, que tem feito cerca de 20 shows por mês na esteira do sucesso da cria ilustre.

“Apesar de estar com a música na rua desde setembro, faz só uma semana que ela aconteceu no Brasil inteiro, ainda estou me acostumando.”

Até o aplicativo de paquera entrou na onda e divulgou as dez cidades onde é mais fácil encontrar uma Jenifer no Tinder —sem surpresas, São Paulo e Rio de Janeiro lideram.

Para além do hype, algumas questões se impõem. Como se deu a ascensão de “Jenifer”? Que razões fizeram a música se destacar tanto? Que outras canções podem rivalizar com ela até o Carnaval? E como antecipar o próximo fenômeno?

A primeira tem boa resposta nas plataformas de streaming, em que os números de “Jenifer” tiveram crescimento vigoroso no crepúsculo de 2018.

No Spotify, a canção acumulava 900 mil reproduções semanais no início de dezembro. O montante cresceu para 2 milhões antes do Natal e para 3,4 milhões em janeiro.

Desde então, o total subiu para 4,2 milhões. “Jenifer” ainda perde para “Atrasadinha” (4,4 milhões de streamings) no ranking semanal do Spotify, mas pode tomar a liderança em breve, pois vem superando a rival na medição diária.

No Deezer, a tendência se repete. Desde o lançamento, em setembro, até o pico, em 12 de janeiro, “Jenifer” cresceu impressionantes 2.759% —a alta foi mais acentuada nos períodos entre 1º e 12 de janeiro.

Se a narrativa da ascensão é límpida, menos exatas são as razões do sucesso.

“Todo hit começa com letra fácil e atual: esse tem muito a ver com a molecada estar no Tinder”, responde o DJ e produtor Marcelo Botelho, requisitado em casamentos de famosos e festas, incluindo Ano Novo e Carnaval.

“O tema da música está no cotidiano das pessoas, principalmente os jovens; são situações que quase todo ouvinte pode viver”, reforça Fábio Santana, editor de conteúdo musical da Deezer Brasil.

Não se trata de cantar a pegação, ele analisa, mas de incentivar dança e diversão, como fez “Envolvimento”, do trio MC Loma e as Gêmeas Lacração, sucesso do verão passado.

Botelho chama a atenção para outra variável que diferencia “sucessos da semana” de “hits do verão”: o endosso de influenciadores digitais.

“Para ser sincero, não tinha escutado essa música até cinco dias atrás. Mas quando os famosos postam vídeos cantando trechos, a coisa estoura”, diz, citando o que ocorreu em 2012, quando Cristiano Ronaldo projetou ao mundo “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló.

“Agora, até o [DJ] Alok já fez um remix. Virou febre.”

Botelho vê influência de um fator estético. Para ele, a voz de Gabriel lembra a de Safadão, que fronteou as paradas nos últimos anos, e a familiaridade pode ter colaborado.

“Além disso”, diz, “Jenifer” é estilisticamente contígua ao arrocha, “um gênero que tem tudo a ver com calor e festa”.

“Todas as músicas que bombaram nos últimos Carnavais tinham algo de axé”, reforça Thiago Endrigo, sócio da Elemess Music n’ Services, empresa de gestão de carreiras.

Ele também credita a tríade “verão, festa e beira-mar”, de hits pretéritos como “Lepo Lepo” (Psirico) e “Metralhadora” (Banda Vingadora).

“Letra e harmonia fáceis ajudam, mas um hit pode ser literalmente qualquer coisa”, comenta Rodrigo Gorky, produtor de Pabllo Vittar, uma das que pode destronar “Jenifer”.

Já Rodrigo Amar destaca que o potencial de “Jenifer” só se revelou quando ela foi abraçada por Gabriel Diniz.

Ele é CEO do Sua Música, plataforma de streaming e download grátis que hoje é líder de acesso no Nordeste entre ouvintes de 21 a 54 anos, à frente de concorrentes como Spotify, Deezer e Tidal. “Gabriel é irreverente, espontâneo e raiz; não deixa de comer um ‘dogão’ na saída do show.”

Sobre o sucesso de “Jenifer”, Amar soma dois argumentos aos dos colegas —a coreografia e o engajamento nas ruas do “Brasil real”, para além da ponte aérea Rio-São Paulo.

“Ajuda a música ter um passinho, um jeito de ser interpretada com o corpo. E, no Brasil do ‘aperreio’ em vez do ‘problema’, há a influência dos ‘microinfluenciadores do offline’: o sujeito que tem um paredão de som no porta-malas e para num posto de gasolina. Cair no gosto dele ajuda muito.”

Tais elementos são comuns às candidatas a hit do verão.

Além de “Jenifer” e “Atrasadinha”, concorrem “My Baby”, do grupo Furacão Love (que tem versão com Zé Felipe e Naiara Azevedo); “Dentro do Carro Hoje Vai Ter Putaria”, de DJ Isaac 22 e DJ Kevin; “Fábio Assunção (Hoje Eu Vou Ficar Loucão)”, do grupo La Furia; “Qualidade de Vida”, de Simone e Simaria; e “Estado Decadente”, de Zé Neto e Cristiano.

Também é preciso levar em conta que alguns artistas ainda não soltaram suas apostas, em especial Anitta, que pode lançar parceria com Ludmilla ou com Diplo e o duo Tropkillaz.

A despeito das métricas, contudo, falta ciência e sobra subjetividade no que diz respeito aos hits do verão.

“É possível identificar tendências, mas prever que algo será um hit é muito difícil”, pondera Amar, do Sua Música.

Além disso, os ambientes digital (streaming) e analógico (rádios FM) não convergem.

Nesta semana, por exemplo, as cinco mais ouvidas nas rádios têm só uma canção em comum com os top cinco dos streamings: “Atrasadinha”.

E alguns artistas, como os de funk, tocam menos no dial.

Botelho tem dúvidas se o sucesso de “Jenifer” resiste até a Quarta-Feira de Cinzas, e Thiago Endrigo questiona seu potencial de sobreviver à farra. “A música toca tanto que o mercado fica de ressaca.”

Rodrigo Gorky, o produtor, também curioso, reconhece os atributos de “Jenifer”.

“Não gosto de nada nessa música, mas tenho de dar o braço a torcer; você escuta uma vez, ela fica na cabeça e acabou.”

 

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