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Moda militariza elegância em resposta aos tempos de chumbo

Temporada masculina na Europa destila para os desfiles a marcha de coletes amarelos e imigração

Modelos desfilam coleção de outono-inverno 2019/2020 da Dior Homme na semana de moda de Paris, em janeiro de 2019

Modelos desfilam coleção de outono-inverno 2019/2020 da Dior Homme na semana de moda de Paris, em janeiro de 2019 François Guillot/AFP

Pedro Diniz
Paris

Dragões, bandeiras desconstruídas, insígnias, filmes de terror. A tônica aparentemente fantástica que a moda masculina assumiu na temporada de inverno 2020, terminada nesta semana, é só verniz pop para o que moverá parte dos estilistas nos próximos anos, os nervos do Ocidente.

Não é aleatória a predileção de algumas das principais grifes do luxo pelas cores militares, do verde-musgo ao cáqui, do cinza-chumbo ao preto.

Hermès, Louis Vuitton, Ermenegildo Zegna e Prada colocam no centro da passarela a questão migratória e a revolta popular com o poder vigente misturando coletes, provável referência aos “coletes amarelos” de Paris, em contraponto a faixas (presidenciais?).

Há também animais selvagens, da onça-pintada da Versace à pantera de olhos semicerrado da Dior, como signos do humor agressivo entranhado.

Claro que ideias não fazem roupas, por isso a competência dos estilistas se dá na desconstrução desse pensamento.

Na Hermès da estilista Véronique Nichanian, casacos do tipo bomber aparecem, em marcha, arrematados por bolsos de “overshirt”, do tipo militar, tingidos com uma paleta soturna. Os looks, em sua maioria de couro e seda, são acabados com aviamentos geométricos e botas pesadas.

A imagem final denota a elegância simplificada da marca misturada à estética austera da alfaiataria, aqui combinada a broches e botões prateados nos quais se vê gravado Pégaso, o cavalo alado de guerra explorado pela mitologia grega.

O cenário escolhido foi o do Mobilier National, que reúne a produção de mobiliário francês desde a monarquia e remete a um sentido de compartilhamento da criatividade. Uma ideia de integração que também moveu a Louis Vuitton.

Em sua segunda coleção para a marca, Vigil Abloh sintetizou a estética de Michael Jackson no ano em que se completa uma década da morte do rei do pop. Ele preteriu o visual “Black or White” em detrimento do gângster de “Smooth Criminal”, revisitado com casacos nudes e cartucheiras.

A bandeira do estado de Indiana (EUA), onde Jackson nasceu, foi costurada a de países, num patchwork bem ao estilo “We Are The World”.

Os contornos militares estavam ali, embora mais adocicados do que os da italiana Emenegildo Zegna. Ao explorar a alfaiataria relaxada e a cartela de terrosos, do uníssono bege desta temporada ao ferrugem, a marca criou nômades.

Mesclados à paisagem de viajantes da estação central de Milão, a coleção é a cara dos novos tempos de chumbo.

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