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Morto na semana passada, Jonas Mekas foi o pai do underground

Após passar por campos para deslocados durante a Segunda Guerra, o lituano chegou aos EUA em 1949

Cena de 'This Side of Paradise' (1999), de Jonas Mekas
Cena de 'This Side of Paradise' (1999), de Jonas Mekas - Divulgação
Patrícia Mourão

Em 1973, voltando de um encontro com o cineasta alemão Hans Richter, impressionado com sua jovialidade e sagacidade mental aos 85 anos, Jonas Mekas escreveu um texto celebrando a idade avançada do amigo.

Idosos como ele restauravam sua fé no homem. “São como coroas da vida, pontes, sinalizações. Podemos olhar para eles como uma obra de arte da humanidade, a coroação da vida como arte.” 

Mekas, que morreu na semana passada, aos 96, não tinha como saber que, em 1973, publicava seu próprio epitáfio. Nascido na Lituânia em 1922, ele chegou aos Estados Unidos em 1949 com o irmão Adolfas.

Depois da Segunda Guerra, os dois haviam passado quatro anos em campos para deslocados, locais para onde eram enviados os prisioneiros libertados que não podiam retornar aos seus países de origem. Assim que chegam aos EUA, os irmãos compram uma câmera 16 mm e começam a filmar o seu cotidiano.

Não foi, entretanto, por seus filmes que Mekas ficou primeiramente conhecido, mas por atividades ligadas à criação e ao fortalecimento da cultura de cinema de vanguarda nos Estados Unidos. 

Ele mantém uma coluna no jornal independente mais lido do país destacando o trabalho de novos realizadores; funda uma revista dedicada ao cinema independente, a Film Culture; cria uma cooperativa de distribuição de filmes e uma cinemateca, o Anthology Film Archives.

Em país com uma indústria cinematográfica como Hollywood, havia pouco espaço para a cultura alternativa. Mekas assume a função de ajudar a criar um ambiente para uma produção que não se dobrasse às regras do cinema comercial. Essa dedicação lhe rendeu os epítetos de “pai e parteiro do underground” e “ministro da defesa e da propaganda do novo cinema americano”.

Embora tenha finalizado poucos filmes desde sua chegada a Nova York, Mekas filmou religiosamente seu dia a dia. Registrava momentos aparentemente insignificantes de sua vida ao lado de amigos como Allen Ginsberg, Andy Warhol e Patti Smith. Seus registros eram notas em um diário, breves anotações para uma memória futura.

No final dos anos 1960, quando nomes como John Cassavetes, Stan Brakhage e Andy Warhol haviam despontado, o cinema independente não precisava mais de militância constante.

Mekas, então, se volta para o seu material e entende que não só havia registrado a história da vanguarda, mas que também tinha desenvolvido um estilo e uma linguagem próprios. Um estilo caseiro, baseado no uso da câmera na mão e em um modo intuitivo de manipular a velocidade do registro.

Em 1969, ele reúne parte dessas imagens em “Walden: Diaries, Notes & Sketches” (Walden: diários, notas e esboços), um diário no qual se vê o cotidiano da vanguarda americana entre 1967 e 1969. 

Há imagens do casamento de John Lennon e Yoko Ono, caminhadas com Allen Ginsberg pela cidade, passeios com membros do Fluxus. “Walden” parece uma explosão de fogos de artifício —um filme caseiro com a virtuosidade de uma pintura pontilhista.

A partir dos anos 1970, o cineasta começa a montar novos capítulos desse diário. Se agrupados, todos os seus filmes compõem um longo registro de aproximadamente 1.200 minutos, no qual temos nada menos que 65 anos de Mekas celebrando a vida ao lado de sua família estendida.

Em suas últimas décadas de vida, Mekas teve sua obra exibida nas mais importantes cinematecas, museus e eventos de arte do mundo. 

Com a difusão de seus filmes, o cineasta virou uma espécie de herói para legiões de jovens que viam nele um modelo de integração de arte e vida. Mekas se tornou o exemplo vivo de que é possível não se dobrar a autoritarismos ou imposições para inventar as próprias regras do jogo.

Mekas nos deixa em um momento sombrio, quando forças parecem querer apartar os laços que nos unem e autoridades celebram o exílio dos que sonham outros mundos. Que ele e seus filmes permaneçam como pontes, sinalizando que é possível seguir adiante para (como diz o título de um de seus filmes) “ocasionalmente encontrar lampejos de beleza”.

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