Mostra de Tiradentes premia a ousadia estética em tempos de conservadorismo

Vencedor, "Vermelha" joga luz sobre cinema autoral goiano, enquanto mulheres, negros e gays brilham

Imagem do filme Seus Olhos e Seus Ossos

Imagem do filme "Seus Olhos e Seus Ossos" Divulgação

Tiradentes (MG)

Foi uma edição de temática progressista, mas quem venceu foi a ousadia estética. A 22ª Mostra de Tiradentes, no interior de Minas Gerais, grande celeiro do cinema experimental do Brasil, premiou “Vermelha”, do goiano Getúlio Ribeiro, com o troféu Barroco da mostra Aurora, a mais importante do evento.

Apesar de destoar do tom politizado dos demais concorrentes, “Vermelha” de fato era o grande filme do festival.

O longa de estreia de Ribeiro é um dos produtos cinematográficos mais originais que o cinema brasileiro (mundial?) já viu em anos. É uma obra que parece ter como princípio fundamental a ideia de quebrar a expectativa do público —e o faz o tempo todo, com inserções de cenas desconexas, aleatórias, mas que se revelam peças de um mosaico maior.

Mostra cenas do cotidiano de uma família, focando a amizade entre dois velhinhos, na periferia de Goiânia. A encenação mescla naturalismo com amadorismo performático, muitas vezes com resultados hilários. Entre a paródia, o lirismo, a comicidade e o registro documental, “Vermelha” surge como um filme estranhíssimo, mas que mostra o quanto o cinema ainda pode surpreender.

Aliás, Goiás se consagrou nesta edição como nova fonte de bons filmes. O documentário “Parque Oeste”, de Fabiana Assis, levou o prêmio da mostra Olhos Livres (dedicada a filmes menos comerciais), com sua revisita a uma desocupação de terra ocorrida em Goiânia. E dois curtas goianos, “Kris Bronze”, de Larry Machado, e “Guará”, de Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista, também foram aplaudidos.

De modo geral, Tiradentes trouxe neste ano menos experimentação e mais ativismo. Filmes preocupados com a representação de negros, homossexuais e mulheres se destacaram. A maior parte explorou a fisicalidade e o direito desses grupos de ocupar espaços, ecoando o tema desta edição, “Corpos Adiante”, que propõe exaltar o corpo em suas várias possibilidades de expressão.

No longa paulista “Seus Ossos e Seus Olhos”, de Caetano Gotardo, o desconforto físico no encontro entre 
duas pessoas rende uma das melhores cenas do festival: um rapaz perde vários minutos apenas procurando uma posição confortável para um papo com uma amiga. 

Já no Brasil distópico do longa cearense “Tremor Iê”, de Elena Meirelles e Lívia de Paiva, são corpos femininos, negros e lésbicos os únicos capazes de oferecer resistência a um governo opressor de extrema direita.

E em “A Rosa Azul de Novalis”, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, o ânus é visto como a forma de transcendência de um homem. O orifício ganha um protagonismo inédito no cinema, com cenas de contração anal e um ousado (e esteticamente justificável) zoom proctológico.

A temática também fluiu entre os curtas, na profusão de pênis e corpos masculinos de “O Bando Sagrado”, de Breno Baptista, ou no delicado abraço entre uma lésbica e uma mulher trans, em “Tea for Two”, de Julia Katharine. Mas surgiu em potência total no vencedor do prêmio do júri popular, “Negrum3”, de Diego Paulino, “lacra movie” que exalta gêneros, sexualidades e comportamentos livres de rótulos.

No conservador Brasil de 2019, Tiradentes surgiu como uma bolha de resistência progressista. Que já estourou, mas que em breve terá seus ecos ouvidos para muito além do pacato interior mineiro.
O jornalista viajou a convite da Mostra de Tiradentes.

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