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Mulher de Pablo Escobar diz que 'A Dança', de Dalí, pode ter salvado sua vida

Em livro, Victoria Eugenia Henao descreve saga de sua família com o quadro do pintor surrealista

Peter Libbey
The New York Times

“A Dança” talvez não seja o melhor quadro do surrealista espanhol Salvador Dalí, mas provavelmente é sua obra com a história mais interessante.

"A Dança" (1957), quadro de Salvador Dalí
"A Dança" (1957), quadro de Salvador Dalí - Reprodução

A primeira versão decorava o Ziefgfeld Theater, em Nova York, e posteriormente foi perdida no incêndio que destruiu a casa de Billy Rose, o empresário teatral da Broadway, em Mount Kisco. Dalí fez uma segunda cópia para Rose, que a vendeu. Um proprietário à frente, a pintura terminou na casa de Pablo Escobar, o traficante de drogas colombiano cujo império da cocaína o colocou entre as pessoas mais ricas do mundo, e cujas campanhas de terrorismo paralisaram seu país.

Agora, uma visão do que aconteceu em seguida ao quadro, também conhecido pelo título “Rock ‘n’ Roll”, é relatada em um novo livro publicado em espanhol por Victoria Eugenia Henao, a mulher de Escobar. No livro, "Mi Vida y Mi Cárcel con Pablo Escobar (A Minha Vida e a Minha Prisão com Pablo Escobar), ela recorda seus sentimentos ao ver pela primeira vez o trabalho de Dalí.

“Foi incrível”, ela escreve. “Fiquei impressionada com o movimento do casal por um deserto sem fim, sexual e onírico”.

O mais importante é que o quadro se tornou uma espécie de talismã para os familiares de Escobar, que escaparam por pouco a um atentado contra sua casa em Medellín, ela relata, e mais tarde serviu como uma espécie de “presente” que, acredita Henao, pode ter salvado sua vida e a vida de seus filhos.

Abaixo, um relato do percurso do quadro, como descrito no livro.

Nova York, 1944

A primeira versão de “A Dança” era conhecida como “Arte do Boogie-Woogie”, e era parte de uma série encomendada por Rose para decorar o teatro Ziegfeld em sua produção de estreia, uma revista musical intitulada “Seven Lively Arts”, encenada em 1944. Dalí criou pinturas que refletiam sua visão da música, do teatro e de outras artes, em uma pequena sala no teatro, cujo saguão os quadros mais tarde viriam a decorar.

A versão original do quadro, conhecida como “Arte do Boogie-Woogie”, mostrava figuras alongadas semelhantes às da versão posterior, mas o cenário era um saguão, não um deserto.

O quadro original mostrava diversas figuras retorcidas e emaciadas entrelaçadas no que parecia ser mais um combate que uma celebração, enquanto se moviam por um corredor ou túnel. Há uma tuba em chamas entre elas, e figuras misteriosas contemplam a cena, ao fundo.

Mount Kisco, estado de Nova York, 1956

As obras mais tarde foram transferidas para a casa de Rose em Mount Kisco, um subúrbio de Nova York, e terminaram destruídas no incêndio de 1956.

Quando Dalí descobriu que as peças tinham sido destruídas, ofereceu-se para pintar novas versões pelo mesmo preço das originais, como um sinal de gratidão ao patrono, Rose.

Port Lligat, Espanha, 1957

Dalí pintou os quadros substitutos na Espanha, em Port Lligat, onde vivia. O espanhol havia se tornado um pintor conhecido internacionalmente, àquela altura, famoso por sua imprevisibilidade, sua ousadia e sua mistura surreal entre o brutal e o divino.

A segunda versão do quadro era ligeiramente diferente. Só havia duas figuras, e a tuba desapareceu. O pano de fundo também mudou. Os dois dançarinos aparecem diante uma paisagem árida típica das obras do pintor. Os quadros substitutos foram mais tarde transferidos ao apartamento de Rose em Manhattan.

Nova York, 1985

O homem que comprou o Dalí de Rose leiloou a peça em 14 de maio de 1985, na Sotheby’s, em Manhattan. Henao não deixa claro em seu livro se foi ela a compradora que pagou US$ 209 mil (US$ 490 mil em valores atuais) pelo quadro ou se ela adquiriu a peça mais tarde. Mas por volta de 1988, o quadro estava na Colômbia, como parte da coleção que ela estava criando.

Em seu livro de 512 páginas, Henao dá a entender que a arte se tornou uma espécie de refúgio para ela, uma atividade mais amena em uma vida muitas vezes envolta em violência e medo. Ela afirma que não estava ciente da extensão dos crimes de Escobar. Mas não tenta negá-los, e em entrevista a uma rádio colombiana no mês passado pediu desculpas pela dor que seu marido causou.

Quanto à sua coleção de arte, ela escreve que Escobar não ligava muito. Ele só se interessava por “antiguidades e carros antigos”.

Henao colecionava peças de diversos artistas, entre os quais o pintor Claudio Bravo, o pintor e escultor Fernando Botero e o escultor Édgard Negret.

Mas adquirir o Dalí foi especialmente importante, ela escreve, por conta da estatura do artista. “Parecia incrível para mim”, ela escreveu, “que aos 22 anos de idade eu tivesse uma obra de arte como aquela em casa”.

Medellín, Colômbia, 1988

O apartamento dos Escobar ficava em El Poblado, um bairro de Medellín. Henao conta que pendurou o Dalí em um espaço que descreve como privilegiado, a biblioteca, onde a peça podia ser vista de múltiplos ângulos.

O quadro estava lá em 1988 quando um carro-bomba que tinha Escobar e sua família como alvos devastou o edifício. Escobar não estava em casa, mas alguns parentes estavam, e fugiram de lá.

Dias depois do ataque, a irmã de Henao voltou ao edifício, encontrou o quadro, intacto, e o recuperou, conta ela.

O quadro foi transferido para a casa da irmã de Henao em outro bairro de Medellín. Mas aquela casa também foi atacada, por um grupo paramilitar chamado Los Pepes, que odiava seu marido, escreve Henao.

A casa foi incendiada em 1993, e Henao conta que inicialmente presumiu que o quadro tivesse sido destruído. Mas os incendiários tinham levado o quadro de Dalí, fato que ela descobriu depois que seu marido foi morto, em dezembro daquele ano. Pouco mais tarde, ela disse ter recebido uma mensagem de um intermediário de Carlos Castaño Gil, que com seu irmão, Fidel, liderava Los Pepes.

Eles estavam dispostos a devolver o quadro a Henao, já viúva, para ajudá-la a pagar os inimigos do marido. Mas ela recusou porque lembrou de um conselho de Escobar, caso ela viesse a encontrar situações perigosas. “No dia em que eu morrer”, ela recorda ter ouvido de Escobar, “lhes dê tudo que tiver sobrado, para que eles não a matem e nem matem nossos filhos.

O gesto, ela conta, foi um do muitos que fez para convencer os antigos inimigos de seu marido de que ela não representava ameaça, e para compensá-los pelos custos de sua luta contra Escobar. Ao que parece, a ideia funcionou. Henao e sua família puderam deixar a Colômbia em segurança, e mais tarde se radicaram na Argentina.

“A última coisa que sei sobre ‘A Dança do Rock and Roll’ foi que Carlos havia ligado a diversos comerciantes de arte em Bogotá e pedido a ajuda deles para vender a peça a um colecionador internacional”, ela escreveu.

Fukushima, Japão, 2018

Em 1994, “A Dança” foi leiloada pela Christie’s, em Londres. A seção sobre proveniência da obra no catálogo citava Billy Rose e um segundo colecionador como proprietários anteriores, mas não identificava o vendedor e nem mencionava Escobar. A casa de leilões estimava um valor de US$ 625.195 para o quadro, que terminou sendo arrematado, a preço desconhecido, pelo empresário japonês Teizo Morohashi, fundador da Xebio, uma cadeia de varejo de material esportivo.

Colecionador de arte fascinado especialmente por Dalí, Morohashi adquiriu cerca de 330 quadros, esculturas, gravuras e outras peças do artista. Ele em seguida as doou, em companhia de 70 obras de outros artistas, para criar o Museu Morohashi de Arte Moderna, inaugurado em 1999 em um terreno doado por ele na região de Fukushima, a cerca de duas horas do mar. Hoje, o museu recebe cerca de 50 mil visitantes ao ano.

Dalí provavelmente teria gostado da existência de mais um museu dedicado ao seu legado. E, dado seu apego especial pelo humor e beleza que podem ser encontrados em mundo que saiu dos trilhos, ele provavelmente também apreciaria a estranha jornada que “A Dança” fez para chegar ao seu novo lar.

Tradução de Paulo Migliacci

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