Descrição de chapéu Artes Cênicas

Nathalia Timberg vive harmonia desbaratada da 'estrela geriátrica' Iris Apfel

Monólogo 'Através da Íris' cria documentário cênico sobre a americana, que se tornou ícone acidental da moda

A atriz Nathalia Timberg como Iris Apfel na peça Através da Iris

A atriz Nathalia Timberg como Iris Apfel na peça "Através da Iris" Rodrigo Lopes/Divulgação

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Iris Apfel, como ela mesma se descreve, está longe de ser uma minimalista. Ficou conhecida pelo vestuário extravagante, repleto de badulaques das mais diversas cores e estilos, os óculos de aro preto que extrapolam a moldura do seu rosto e pelo bordão "more is more, less is bore" —"mais é mais, menos é chato", uma brincadeira com a expressão "menos é mais".

Explicou certa vez que se veste no improviso, "como se estivesse tocando jazz".

"Mas, depois adentrei o mundo dela, percebi que há um equilíbrio nessa coisa tão livre que ela faz. Ela consegue uma harmonia nas coisas mais desbaratadas", comenta a atriz Nathalia Timberg. 

Afinal, a intérprete brasileira literalmente adentra o universo da americana em "Através da Íris", espetáculo inspirado na vida da decoradora de interiores, que se tornou ícone da moda já depois dos 80.

Há 14 anos, começou a chamar a atenção quando suas roupas foram exibidas no Metropolitan, em Nova York, numa mostra intitulada "Rara Avis", ou pássaro raro.

Logo a imagem daquela senhora de cabelos brancos e vestuário complexo chamou a atenção do mundo da moda, que fez dela um ícone, um tanto acidental, como ela mesma conta em sua biografia, "Iris Apfel: Accidental Icon" (Harper Collins), lançado no ano passado nos Estados Unidos. 

Uma sensação similar teve Cacau Hygino, autor da montagem. "Estava olhando meu Instagram, de repente apareceu uma foto de uma senhora excêntrica, e pensei: quem é essa doidinha? No mesmo dia pesquisei sobre ela e pensei que ela daria uma peça."

Mas não foi com essa rapidez que conseguiu contato com Apfel, hoje com 97 anos. Hygino passou semanas tentando falar com empresários e familiares. Chegou a mandar cartas (sem resposta) a um endereço que viu escrito num tapete, em frente a um prédio de onde ela saía, numa foto postada em redes sociais. 

Pediu ajuda a um amigo que mora nos Estados Unidos, descobriu outra casa da americana na Flórida, mas só depois de muitas ligações conseguiu alguma resposta e um encontro com Apfel em seu apartamento nova-iorquino.

Iris Apfel em São Paulo, em 2013 - Leticia Moreira/ Folhapress

Hygino se baseou nas conversas, na autobiografia, num documentário e em outras publicações sobre a americana. Assim, não faz de "Através da Íris" um espetáculo sobre moda, tampouco é extremamente fiel à biografia de Apfel. O que faz é se concentrar na sua personalidade libertária e em seu humor sarcástico.

Ela ironiza o fato de ter se tornado uma referência na moda ("dizem que sou moderna. Engraçado que não estou fazendo nada diferente, sou a mesma pessoa que eu era há 70 anos"), fala de seu estilo ("eu não tenho medo de excessos") e da velhice. "E ela tem uma expressão que eu até adotei para mim: 'estrela geriátrica'", diz Timberg, 89.

"Pensamos que o mais interessante não seria fazer uma biografia dela, imitá-la em cena, mas se apropriar dessa persona e criar uma identificação com a persona da Nathalia", afirma a diretora Maria Maya, que faz da montagem um documentário cênico, mesclando realidade e ficção.

"Brincamos com esses universos todos, e deixamos esta questão: até que ponto está se falando da Iris, da Nathalia ou dessa geração delas."

Apfel entra em cena como se participasse de uma entrevista —o cenário, uma caixa cênica sobre o palco, lembra um estúdio de filmagem, decorado com as excentricidades típicas da americana. Fala para a plateia em tom de conversa, como se respondesse a perguntas do público.

Discorre não apenas sobre seu contato tardio com o universo da moda, mas sobre sua família judia, a infância no Queens, sua formação em belas artes (as cores de Matisse foram uma grande influência), seu senso de estilo desde a juventude —diz ela que foi a primeira mulher a vestir calças jeans. Além do trabalho com decoração de interiores e da relação com o marido, o também decorador Carl Apfel, que morreu em 2015, pouco antes de completar 101 anos.

"É uma mulher muito interessante, realmente", diz Timberg. "Haja vista o que provocou na moda sem mesmo ser estilista." É mesmo um pássaro raro, desses de cores deslumbrantes, que nem sempre conseguimos compreender.

Através da Íris

  • Quando Sex. e sáb., às 21h, dom., às 18h. Até 10/3
  • Onde Teatro Faap, r. Alagoas, 903
  • Preço R$ 80
  • Classificação 12 anos
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