Descrição de chapéu Artes Cênicas

No teatro, Cássia Kis escova poesia de Manoel de Barros

Atriz estreia peça com 18 poemas retirados do 'Livro sobre o Nada'

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Manoel de Barros conta num de seus poemas que certa vez, quando ainda era menino, espantou-se ao ver dois homens escovando ossos. Logo descobriu que se tratava de arqueólogos e achou bonito aquele gesto amoroso de lustrar relíquias. Decidiu ele mesmo se dedicar ao apuro e se trancou no quarto a escovar seus versos.

Um gesto parecido tem a atriz Cássia Kis em “Meu Quintal É Maior do que o Mundo”, espetáculo que a atriz estreia, a partir de escritos de Barros, conhecido como o “poeta das miudezas” —dada sua atenção aos temas cotidianos. 

Há tempos, desde o início dos anos 1990, ela aventava uma homenagem ao poeta mato-grossense, que conheceu e com quem se correspondeu até próximo da morte dele, há cinco anos. Nesse tempo, diz, foi apurando, escovando o espetáculo.

Na montagem, dirigida por Ulysses Cruz (com quem a atriz trabalha desde a juventude), partiu-se de 18 poemas do “Livro sobre Nada”, de Barros. O encenador os dividiu em três tipos: aqueles que destacam os espaços de Barros, como o quintal ou a sombra de uma árvore; os que falam do próprio poeta; e os que tratam de objetos que inspiram o escritor. “Mas quis deixá-los fluídos, numa narrativa não fragmentadas”, diz ele.

Para tanto, criou-se um cenário limpo, mas pincelado de símbolos. No meio, um grande tapete, que remete ao quintal e ao chão de casa onde se aventura aquele menino-narrador. Surgem aqui e ali referências à natureza e seus detalhes, tão descritos por Barros, como galhos e folhas secas. 

Em dado momento, aparecem sobre o palco grandes esferas pesadas e de um colorido estelar, que lembram bolas de criança e também grandes planetas —esse mundo tão imenso do autor.

Kis não faz da peça um recital poético, mas adentra o espírito daquele narrador curioso, que usa as palavras para compor seu silêncio, como ele mesmo descreve. 

Sua narrativa é acompanhada de uma trilha sonora executada ao vivo por Gilberto Rodrigues. Bastante persuasiva, tem como principal instrumento o vibrafone, que “constrói as atmosferas” dos poemas, explica Cruz, da inocência infantil à filosofia.

Tudo para descortinar as camas da poesia de Barros. “Não é simples. Ele não é só aquilo que ele aparenta. Se você escova uma frase, descobre que tem mais coisas ali, ela é maior ainda”, afirma Kis.

Assim, para aproximar a plateia do poeta, a atriz também fará conversas com o público após as sessões. “Poesia na cabeceira da cama é difícil.” 

Meu Quintal É Maior do que o Mundo

  • Quando Estreia qui. (31), às 20h. Temporada: sex. e sáb., às 20h, dom., às 19h; até 17/2
  • Onde Sesi-SP, av. Paulista, 1.313
  • Preço Grátis
  • Classificação Livre
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