Plataforma nacional e grátis lança hits do verão e desbanca Spotify no Nordeste

Criada na Paraíba, Sua Música tem 1 milhão de acessos por dia e ajuda a lotar shows no Nordeste

Tiago Dias
São Paulo

O próximo hit do Carnaval já circula por aí. Aquele refrão chiclete, que invade os ouvidos e se alastra entre os amigos sem aviso, também já surgiu, ainda que não tenha aparecido no seu radar. Mas ele já deve estar no Sua Música.

Criada em João Pessoa (PB), a plataforma de streaming e download gratuito é líder de acesso no Nordeste entre os ouvintes de 21 a 54 anos, o que o coloca na região à frente de concorrentes como Spotify, Deezer e Tidal.

O feito 100% nacional se deu graças ao catálogo, dedicado quase exclusivamente aos ritmos que fazem a cabeça na região, seja o batidão romântico da Paraíba, a arrochadeira (ou swingueira para alguns) da Bahia ou o forró do Ceará. “Aquele artista cool, indie, pop, com barba ruiva desenhada do sul da França, a gente deixa para o Spotlight”, explica Rodrigo Amar, CEO do plataforma, como se desconhecesse o nome da concorrente sueca.

O Sua Música surgiu em 2011 em formato de blog, com conteúdo cedido por artistas até então desconhecidos, mas que entendiam o que fazia bombar as caixas de som. Entre eles, um tal de Garota Safada, liderado por um moço de olhos verdes e cabelos compridos chamado Wesley Safadão.

Sem investimento, o paraibano Éder Rocha Bezerra coordenava o site de sua casa, com ajuda de mais dois amigos. Era apenas um hobby, mas que conseguia reunir, em apenas um dia, 80 mil usuários únicos. Hoje, o Sua Música tem 1 milhão de acessos únicos por dia e é um dos 60 aplicativos mais baixados no Brasil.

A diferença entre o Sua Música e as outras plataformas é que não há planos de assinatura, nem repasse de direitos autorais, algo com o que o mercado local nunca contou no fim do mês, preferindo a estratégia de viralizar. Que o diga Aldair Playboy, paraibano que jogou no Sua Música, ainda em 2017, sua grande aposta, “Amor Falso”, uma das músicas mais tocadas em 2018.

Empresário musical, o potiguar Elanio Tinôco tem uma meta: fazer com que “My Baby”, do grupo baiano Furacão Love, seja o novo “Amor Falso”. A mistura de batidão romântico com arrochadeira entrou em julho no Sua Música e rapidamente se alastrou. O grupo, liderado pelo casal baiano Eduardo Mascarenhas e Camila Souza, então correu para adesivar um ônibus e cair na estrada pela primeira vez.

Vindo de Carnaúba, no Rio Grande do Norte, o Saia Rodada é outra aposta da plataforma. “Na verdade, eles já estouraram”, explica o CEO do Sua Música, “mas não ainda no Itaim Bibi e no Leblon”, pondera, citando dois bairros nobres em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente.

O Nordeste é uma região  historicamente colocada à margem do mercado, concentrado no eixo Rio-São Paulo. Se hoje é consenso em todo o país que os shows passaram a ser o principal ganha-pão do artista, o Nordeste entendeu essa dinâmica anos atrás, ao fazer girar sua engrenagem, impulsionada pela cultura de shows que agitam as cidades de segunda a segunda.

Tinôco explica a lógica: “Eu não assino contrato com gravadoras, então tenho que fazer minha própria mídia, colocar a música na boca do povo, porque aí eu faço mais shows, faço com que o prefeito de alguma cidade me conheça”.

A estratégia era simples: distribuir de mão em mão CDs e pen drives em feiras, eventos, bares e quiosques de praia. Até mesmo o pirateiros, que nos anos 1990 e 2000 ajudaram a indústria fonográfica a entrar em crise, recebiam as gravações dos próprios artistas.

Safadão hoje tem estrutura grande de gravadora e cachês em torno de R$ 600 mil, mas continua a alimentar seu perfil no Sua Música com versões promocionais dos seus discos. Ele  lidera o ranking dos mais ouvidos em 2018.

Artistas nacionalmente conhecidos, como Claudia Leitte e a dupla Henrique & Juliano, trabalham lançamentos na plataforma. Tinôco explica a via de mão dupla: “Se uma música emplaca no Nordeste, ela vai fazer sucesso no Brasil”.

O paraibano Éder, fundador  que ajudou nas aspirações de Safadão e tantos outros artistas, vendeu a marca e foi atrás de realizar o próprio sonho: Ser dono de bandas.

TAB, do UOL

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