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'República Luminosa', de Andrés Barba, retalha infância idealizada

Premiado livro se passa em um povoado fictício surpreendido por uma gangue mirim no passado

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Buenos Aires

"República Luminosa" se passa num lugar imaginário, uma cidade pequena de uma província distante que faz fronteira com uma floresta. "Poderia ser um romance brasileiro, pois não tem lugar definido, mas geográfica e socialmente se encaixaria perfeitamente no Brasil", conta o escritor espanhol Andrés Barba, 44, cuja obra é lançada agora pela Todavia.

Vivendo parte do tempo em Madri e parte em Buenos Aires, Barba conversou com esta repórter num café portenho. "A ideia do livro é questionar a visão idílica que se criou da infância. Hoje em dia, quando para muitos Deus está morto, essa visão romântica ganhou ainda mais força, porque parece que a infância é o único lugar em que pudemos ter sido felizes, e com isso apagamos da memória o fato de que ali nós também sofremos", diz.

A história se desenrola a partir do momento em que, em 1993, o narrador do livro, um funcionário do governo que trabalha com indígenas e sociedades afastadas, chega ao povoado de San Cristóbal.

Ali, fica sabendo que, 20 anos atrás, havia ocorrido algo marcante —a aparição de mais de 30 crianças de entre nove e 13 anos estranhas ao lugar, que falavam um idioma desconhecido, atuavam de forma violenta durante o dia e desapareciam na selva à noite, até que uma tragédia ocorre num supermercado.

"A literatura e o cinema estão cheios de exemplos de gangues infantis, no Brasil está um exemplo recente, que é 'Cidade de Deus'. Ou seja, não é uma novidade, mas creio que é interessante abordar esse tema hoje, porque parece que se idealiza cada vez mais a infância."

O espanhol Andrés Barba, autor de 'República Luminosa' - Diario de Navarra

Outra das influências para pensar a transformação da infância foi o clássico personagem de Peter Pan. "Ele é basicamente um adulto, que fisicamente se faz passar por criança, e que é um sequestrador de outras crianças. Alguém que transmite a ilusão de que, sem os adultos por perto, as crianças podem ser sua essência, alguém que não precisa de educação ou de intermediários."

Além dessas referências, Barba conta que se inspirou também no próprio lugar em que cresceu, em Madri, num bairro ao lado de um acampamento de ciganos.

"Eu achava que era um mundo como o meu, só que cigano. Haveria um 'eu' cigano, que tinha um irmão como o meu, só que cigano. Depois, ao nos observarmos tanto, percebi que havia fascinação dos dois lados. Nós gostávamos da ideia de que eles eram livres, não iam à escola e não tomavam banho. E eles do fato de nós termos brinquedos e andarmos de carro."

Esse mundo de espelhos Barba transpôs para o livro ao criar o personagem de uma garota "civilizada", Teresa Ontaño, de 12 anos, que havia crescido e sido educada em San Cristóbal, mas que podia entender os meninos desconhecidos.

A leitura política da obra é um diálogo com os dias de hoje, em que a imigração é um tema tão candente nas grandes cidades europeias. "Eu creio que o espanhol médio é um ser desconfiado, inculto e sem memória. Não se lembra, por exemplo, que a América Latina nos recebeu aos montes quando fugimos da Guerra Civil [1936-1939] ou durante a ditadura de Francisco Franco [1936-1975]. E por isso trata os latino-americanos que chegam ao país, principalmente os que têm costumes ou uma etnia diferente, como equatorianos e bolivianos, como cidadãos de oitava categoria."

Em "A República Luminosa", que venceu o prêmio Herralde de 2017, Barba diz que muito de sua visão como estrangeiro, ao ter morado nos Estados Unidos e agora passando o tempo entre a Espanha e a Argentina, ajudou muito. "O narrador do meu livro tem um pouco disso. Ao vir de fora, uma pessoa pode perceber mais fácil as rupturas de uma sociedade, coisas que foram normalizadas e que não eram para ser nada normais. Por outro lado, essa pessoa não tem mais informações de contexto. Eu me sinto muito assim, mas é preciso transformar isso em aprendizado. As movimentações geográficas são um território rico para a literatura."

República Luminosa

  • Preço R$ 47,90 (160 págs.)
  • Autor Andrés Barba
  • Editora Todavia
  • Tradução Antonio Xerxenesky
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