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Série brasileira 'Hard' faz humor com bastidores dos filmes pornô

Hard, que irá ao ar na HBO, abordará mudanças no segmento, como advento do nicho feminista

Julio Machado e Natália Lage em cena da série 'Hard'

Julio Machado e Natália Lage em cena da série 'Hard' Divulgação

Guilherme Genestreti
São Paulo

Um jumento chamado Policarpo pasta no gramado de um casarão de arquitetura brutalista no Morumbi.

Ele rumina despreocupado enquanto à sua volta se desenrola o corre-corre das filmagens de “Hard”, série cômica brasileira que deve estrear no canal a cabo HBO neste ano. 

O asno faz parte da trama sobre os bastidores de uma fictícia produtora de filmes pornográficos. A narrativa começa quando o dono da empresa morre, deixando o empreendimento para a mulher, Sofia, uma dondoca que até então nunca soube de onde brotava o dinheiro do marido.

Na cena que reportagem viu, a moça tinha que se desvencilhar dos flertes de Marcelo Mastro Duro, celebridade pornô que Julio Machado interpreta na história. Sofia, vivida por Natália Lage, ainda estava em estado de negação. “Minha filha já está desconfiando”, diz, envergonhada.

Para fazer a série, inspirada numa homônima que foi ao ar na TV francesa, o diretor Rodrigo Meirelles imergiu no mundo dos filmes adultos.

“O consumo desse tipo de produto é monstruoso, mas são poucas as obras que tratam disso. Há um buraco”, diz.

Na sua pesquisa, Meirelles notou duas guinadas no mundo do pornô. A primeira foi a crise das produtoras tradicionais, que sobreviviam da venda de DVDs e sucumbiram diante de sites gratuitos, pondo fim à era em que subcelebridades e astros decadentes estavam no elenco desses filmes.

No país, a mais folclórica representante é a Brasileirinhas, que no  seu auge teve um casting que incluiu de Rita Cadillac ao hoje deputado federal Alexandre Frota, do PSL-SP

Em “Hard”, o auge da produtora da trama se deu nessa época. “Era uma empresa hardcore, voltada ao prazer masculino”, diz Meirellles.

A outra guinada, central na narrativa da série, foi o advento do pornô de nicho, sobretudo o antenado ao feminismo e que se volta contra o olhar que objetifica a mulher.

Sofia, a nova proprietária da empresa de filmes adultos, é quem encampará essa visão. Isso depois de vencer seus preconceitos e resolver tocar o negócio. O jegue, que era usado nas produções, acaba virando xodó de seus filhos.

“Ela segue uma linha Erika Lust”, diz Natália Lage, citando a diretora e produtora sueca que virou cult fazendo filmes em que as mulheres são protagonistas e o público-alvo. 

A atriz vê “relevância política” na proposta de “Hard” e na trajetória de sua personagem. “Ela sai do lugar de bela, recatada e do lar e se torna uma empreendedora que faz um pornô feminista”, afirma. 

Alguns dos figurantes são atores pornô de fato. “Eles lidam com o corpo de forma tão natural que você nem percebe que estão nus”, diz Lage. “Parece uma praia de nudismo.”

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