Descrição de chapéu Cinema Oscar 2019

'Vice' surpreende e mostra que a democracia nos EUA, no cinema, ainda pulsa

Filme de Adam McKay tem atuação irretocável de Christian Bale como Dick Cheney

Sérgio Alpendre

Vice

  • Quando Estreia nesta quinta (31)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Christian Bale, Amy Adams, Sam Rockwell, Steve Carell
  • Produção EUA, 2018
  • Direção Adam McKay

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A história de Dick Cheney, desde que era um beberrão briguento até se tornar um dos homens mais oportunistas e poderosos dos Estados Unidos, durante o governo de George W. Bush, é o que nos mostra o filme “Vice”, de Adam McKay, com oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção e ator.

Christian Bale tem atuação irretocável como Cheney, daquelas que o tornam um dos favoritos ao troféu. A Academia ama transformações físicas, e Bale engordou (realmente) e envelheceu (por maquiagem) para viver várias fases da vida do biografado.

No elenco ainda estão a excelente Amy Adams, que interpreta sua mulher Lynne Cheney, e o ótimo Steve 
Carell como Donald Rumsfeld, secretário de Defesa de dois governos, os de Gerard Ford e George W. Bush. E ainda tem o careteiro, mas bem escalado, Sam Rockwell como Bush filho, playboy que se torna presidente, e o subaproveitado Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, vice-secretário da Defesa no governo de Bush filho.

 

“Vice” ainda tem um roteiro bem estruturado pelo próprio Adam McKay, que costura as idas e vindas da trama com habilidade, deixando espaço para um tipo de invenção pouco comum na atual Hollywood.
Mas, com tudo isso, o filme é bom? Sim, surpreendentemente bom. Mas no começo parece que será um fiasco, por causa da direção. Em seu filme anterior, o superestimado “A Grande Aposta”, McKay insiste na câmera inquieta e na montagem ágil.

No início de “Vice”, quando vemos a juventude de Cheney, temos a mesma falsa ideia de que mexer a câmera e cortar a cada três segundos é moderno por si só, quando, na verdade, podemos dizer, há alguns anos, que esse estilo é acadêmico, porque geralmente é usado de modo burocrático, como se fosse uma regra.

Felizmente o susto passa logo. Com a chegada dos créditos, aproximadamente após dez minutos, a direção começa a revelar aos poucos seus trunfos, e o longa se torna um quebra-cabeças narrativo pensado e filmado com inteligência, em que a câmera funciona tanto na mão quanto num tripé e o ritmo varia conforme a intensidade do drama.

Temos uma série de truques narrativos —final falso, barulhos de controle remoto que acionam cortes abruptos, narrador misterioso, instâncias de representação que se modificam e até mesmo, em alguns momentos, um humor que parece inspirado pelo grupo britânico Monty Python

Esse humor, que nos lembra o passado de McKay como diretor do anárquico “O Âncora” e de sua continuação, não impede (pelo contrário, até ajuda) que “Vice” seja um dos filmes mais críticos a aparecer em Hollywood desde “Tropas Estelares” (1997), de Paul Verhoeven (equivocadamente tido como belicista).

Não se pode negar que a democracia nos Estados Unidos ainda pulsa. Pelo menos no cinema.

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