Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

'A biblioteca é um milagre, onde me senti perto de Deus', diz Charles Cosac

Ao assumir a chefia do Museu Nacional, em Brasília, criador da editora Cosac Naify chora a sua saída da Mário de Andrade

Silas Martí
Brasília

Na porta dos fundos do Museu Nacional, o iglu de concreto da Esplanada dos Ministérios, Charles Cosac fuma um cigarro de olho no campanário futurista da Catedral Metropolitana. Vestindo um roupão de seda por cima do terno preto, o homem que reinventou a edição de livros de arte no país desdenha de algumas das estratégias construtivas de Oscar Niemeyer, o arquiteto de Brasília. 

“Ele poderia ter posto uma janela na minha sala, mas não sabia que eu ia trabalhar naquele lugar”, pensa alto. 

Nem mesmo Cosac imaginava que Brasília se tornaria seu mais novo endereço, muito menos que responderia pela direção do museu mais vistoso da capital federal, que há anos enfrenta dificuldades.

Dias depois de deixar o comando da Biblioteca Mário de Andrade, no centro paulistano, e ainda amargando o fim da Cosac Naify, a famosa editora criada por ele e fechada há quatro anos, o colecionador de arte, editor e herdeiro de uma fortuna da mineração foi convidado para o novo cargo pelo governo do Distrito Federal.

Ele acabava de voltar do Réveillon no Cairo quando soube que poderia ter de deixar o emprego na Mário de Andrade. Às lágrimas, diz que foi ali onde se sentiu mais “próximo de Deus” em toda a sua vida.

Nesta entrevista, Cosac atribui sua escalação para mais um posto público à sua “absoluta ignorância” em 
relação à política, fala de seus planos para o Museu Nacional, da necessidade de pôr em ordem um acervo que é “um deus nos acuda” e fazer frente ao clima de “histeria social” em torno das artes visuais no país, além de seus planos de ressuscitar a antiga editora só para calar quem pensava que ele estava falido.


Charles Cosac, 55
Nascido no Rio de Janeiro, é herdeiro de uma família de ascendência síria que fez fortuna com a mineração. Ele criou a Cosac Naify, famosa por luxuosas edições de livros de arte, que fechou as portas há quatro anos. Na época, houve rumores de que ele teria falido. Há dois anos, assumiu a direção da Biblioteca Mário de Andrade, cargo que deixa agora para assumir o Museu Nacional 

 

Como foi a transição da Biblioteca Mário de Andrade para o Museu Nacional? Quase não houve transição. Fiquei sabendo que o André [Sturm, ex-secretário paulistano da Cultura] tinha sido exonerado e me senti exonerado também. Só oficializei isso. Teve um certo orgulho meu, não queria ser demitido, como não queria que me vissem como falido.

Ainda sofre com a sua saída da biblioteca? Não saí porque quis. Eu era muito feliz lá. Sentia que eu estava fazendo um trabalho voluntário, que eu estava servindo à sociedade, à sociedade pobre. Era lindo. Foram os dois anos mais felizes da minha vida, muito felizes. Eu amei trabalhar na biblioteca. Não posso pensar numa ideia mais bonita do que a biblioteca, uma ideia milenar, que existe há milhões de anos. A biblioteca é laica, ela é apolítica. Ela é linda. A biblioteca é um milagre. 

Foi uma surpresa o chamado para comandar o Museu Nacional? Quando recebi a ligação, achei que fosse trote. Quando falaram Museu Nacional, eu me lembrei do museu do Rio de Janeiro que pegou fogo. Pensei que seria incrível trabalhar lá, mas à medida que a conversa foi desenrolando entendi que era Brasília. Mas, na verdade, eu não poderia ficar sem trabalhar, entende? Não poderia perder a oportunidade que eu nunca consegui em São Paulo, que era trabalhar num museu.

E como é a vida aqui? Aqui em Brasília, eu fico meio atônito, porque eu reclamava muito que não via mais o céu em São Paulo e tudo o que se vê aqui é o céu. Tem essa experiência de trabalhar na oca, no iglu, que é uma experiência de dentro e fora. Na minha sala, não tem janela. E, quando você sai, você parece que está com o oceano sobre você.

Quando vou ao Conjunto Nacional almoçar, sinto uma essência de Brasil que está todo convergido aqui, Nordeste, Sudeste, Sul, Centro-Oeste, todos os tipos de sotaques.

Brasília me lembra uma cidade meio da África atlântica, alguma coisa feita por uma colônia francesa. Ela é linda demais, mas tem a falta de esquina, a falta da ruela. Em São Paulo, eu me sentia mais protegido, habituado.

Seu famoso apartamento em Higienópolis, que chegou a ser posto à venda, vai continuar como está? O apartamento vermelho vai ficar intacto. Não sei o que fazer. Tenho uma mãe com 91 anos que mora no prédio do lado. Ela está com Alzheimer. Não queria deixar minha mãe sozinha. 

E o apartamento guarda a coleção, os meus livros, os meus pertences. Não tem como mover. Acabei me tornando um refém daquele espaço e ainda sou muito feliz lá. 

O Museu Nacional, por outro lado, deve ser um desafio, não? Sempre foi uma instituição um tanto apagada e com dificuldades financeiras. O [ex-diretor Wagner] Barja fez esse museu do zero. Era uma oca oca, não tinha nada dentro. E o museu não tem dotação orçamentária, então ele vive muito a partir de acordos de confiança, parcerias e fica um pouco naquele universo das embaixadas, dos interesses políticos. Já deduzi isso antes de vir e não achei que fosse ser diferente. A biblioteca também vivia dessa maneira. Mesmo assim, acho que dá para tentar dar uma voz a ele.

Estou fazendo um levantamento físico do prédio, a parte de papéis, a parte do jurídico. A coleção do museu também é um deus nos acuda. É um acervo mais enxuto, não é de se desmaiar, mas é bacana. E tem algumas obras apreendidas dessa questão da Lava Jato, que a gente não sabe bem. Mas existem planos de criar um fundo para uma política de aquisições de 
novas obras, um endowment.

Sendo um colecionador e entusiasta das artes visuais, você pretende atuar também como curador de exposições? Não sei, mas ser curador é como ser editor. Queria tentar fugir um pouco desse ciclo de receber exposições já prontas. Agora, se tiver que receber uma ou outra, vou ter que aceitar. Tento criar um pouco de coerência até nas gratuidades que a gente aceita. É saber dizer não e correr atrás de outras coisas com que a gente possa substituir, porque também não posso dizer não e deixar o museu vazio.

Outro problema são os episódios recentes de censura a museus no país. Há dois anos, um artista foi preso aqui em frente por ficar nu durante uma performance. Como vê essa questão? Isso é uma coisa lastimável, porque nudez existe desde a Grécia, existe há muitos milênios, não foi lançada agora. Mas, se está havendo uma histeria social, é uma pena. Só posso dizer que isso é uma lástima. 

Ouvi dizer que teve isso no MAM também e que tem um movimento pró-família. Não entendo bem essas coisas. Pró-família é achar que aquilo é contra a família? Acho isso de uma ignorância sem igual, acho que a arte anda lado a lado com a liberdade de expressão. Não pode haver censura. Se for alguma coisa explícita e se você quiser indicar isso, cabe aos pais resolver. Não acho que o poder central tenha mais autoridade. Se você tem filho e acha que ele pode ver nudez, então pode.

O presidente Jair Bolsonaro, que trabalha na outra ponta da Esplanada, e seus apoiadores, no entanto, vêm inflamando esse discurso agressivo às artes visuais. À frente de um museu público, você não vê isso como um problema em potencial? Não me sinto habilitado para falar de política. Acho até que uma das razões pelas quais me convidaram para vir aqui é a minha absoluta ignorância. Ignorância mesmo. Nunca tive nem título de eleitor. 

Mas não acho, não deduzo e não seria político um presidente fazer um movimento contrário ou retroceder. Não acho que tudo vai ser proibido, que a Parada Gay vai terminar, que as pessoas não vão poder mais andar de mãos dadas como era na minha época. Não vejo o Brasil voltando a esse ponto. Espero que não, senão vai todo mundo embora. O Brasil lutou muito pela democracia, e não acho que a gente vá abrir mão dela agora.

Você, aliás, nunca escondeu sua homossexualidade e ostenta sua vaidade com roupas extravagantes. Acredita que há espaço para mostras de moda no Museu Nacional? Sou fascinado por moda e louco pelas criações do Alessandro Michele, na Gucci. Vi que as exposições de moda no Metropolitan têm feito muito sucesso. Moda é um tipo de arte produzido em série. É muito poderosa. Claro que, aos 55, você só pode se vestir de preto, mas quando você tem 25 anos, é magro e jovem, moda é muito bacana. 

Há quatro anos, você decidiu fechar a Cosac Naify, uma editora que redefiniu a ideia de livro de arte no Brasil. Sente saudades dela? Livro vicia. Decidi lançar agora um livro póstumo do Tunga com o selo Cosac Naify só para silenciar aqueles que disseram que fui à falência. Vai ser o último livro que eu edito. É que essa questão da falência é muito grave. Fechei a editora como abri. Não tive uma causa trabalhista, uma queixa, nada consta. Gastei muito mais dinheiro para fechar do que para manter a editora. Quis fechar como eu abri, com classe, e as pessoas não entenderam.

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