Apresentação de ópera abolicionista faz Carlos Gomes renascer na Europa

'Lo Schiavo' abriu a temporada do Teatro Lírico de Cagliari, uma das principais casas do circuito italiano

Lucas Ferraz
Roma

​Considerado pelos pares italianos um “selvagem elegante”, ou como disse certa vez Giuseppe Verdi, um “verdadeiro gênio musical”, o compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes (1836-1836) colecionou êxitos e alguns bons fracassos nas quase três décadas que viveu na Itália, na segunda metade do século 19, quando se tornou um dos principais nomes do circuito da ópera de seu tempo.

Na lista de fiascos está a ópera abolicionista "Lo Schiavo" (o escravo, em italiano), composta para o país europeu durante os anos 1880, período em que no Brasil se discutia o fim da escravidão.

Um drama em quatro atos, a ópera começou a ser composta na Itália em 1883. Ela foi idealizada pelo Visconde de Taunay, um carioca de família aristocrática, notório abolicionista e amigo do compositor, que no esboço original escolheu como protagonista um escravo negro.

Durante a composição, trabalhando ao lado do tradutor e letrista italiano Rodolfo Paravicini, um antigo parceiro, Gomes foi convencido a trocar o negro por um índio tamoio escravizado pelos portugueses —como em "O Guarani", sua obra de maior sucesso, a ópera é ambientada no Brasil do século 16.

Era uma forma de atenuar as críticas ao racismo e às condições de vida dos escravos africanos. A mudança rendeu críticas de Taunay, que pediu para ter seu nome retirado do projeto, o que não aconteceu.
O motivo da ópera nunca ter sido apresentada na Itália nunca foi de todo esclarecido. Mas certamente passa por um desentendimento do compositor com Paravicini e a editora italiana que publicaria as letras. Como aconteceria nos muitos imbróglios envolvendo o brasileiro, o caso foi parar na Justiça.

Sua vida pessoal também contribuiu. Deprimido, ele enfrentava naqueles anos uma grave crise financeira e problemas no relacionamento com a mulher.

Sem ir aos palcos italianos, “Lo Schiavo” acabou debutando —o índio tamoio era o protagonista— com grande sucesso no Rio de Janeiro em setembro de 1889, um ano depois do fim da escravidão e poucas semanas antes da Proclamação da República. A apresentação, dedicada à princesa Isabel (filha do imperador e responsável pela promulgação da Lei Áurea), foi conduzida pelo próprio artista.

Mais de 130 anos depois, marcando um reencontro de Carlos Gomes com a Itália, a ópera foi apresentada pela primeira vez no país na última sexta-feira (22). A produção abriu a temporada de 2019 do Teatro Lírico de Cagliari, na ilha da Sardenha, uma das principais casas do circuito italiano de ópera.

“Esperamos que seja um novo renascimento de Carlos Gomes. Ele foi um importante protagonista da música italiana e internacional no final do século 19”, afirma Claudio Orazi, superintendente do Teatro Lírico de Cagliari.

Nascido em Campinas numa família de 26 irmãos, Carlos Gomes começou a estudar música aos dez anos por influência do pai, também músico. Após estudar no Rio de Janeiro, ele desembarcou na Europa em 1866, aos 28 anos, para estudar no conservatório de Milão graças a uma bolsa concedida pelo imperador dom Pedro 2º. Conta-se que ele decidiu pela Itália graças aos conselhos da imperatriz Teresa Cristina, nascida em Nápoles. Em Milão, após se formar, começou sua longa e prestigiosa carreira no país.

“Na sua época, sair do Brasil para estudar ópera na Itália não era uma coisa comum. Era um grande ato de coragem”, conta Orazi. 

Seu primeiro —e mais retumbante— sucesso na Itália foi "O Guarani", baseado no romance homônimo de José de Alencar, que estreou em 1870 no Teatro Scala de Milão —uma das mecas da ópera, o Scala ainda hoje reverencia o brasileiro em imagens que remetem à sua mais conhecida obra.

Na sequência, outros trabalhos do compositor fizeram sucesso no país, como "Salvator Rosa" e "Fosca". O brasileiro foi uma exceção no circuito da música lírica europeia, cenário onde reinavam os artistas do continente.

A década em que compôs "Lo Schiavo" foi turbulenta para Carlos Gomes. Sua mulher italiana, com quem teve cinco filhos, morreu em 1887. Endividado por causa de seu vício no jogo, ele precisou vender o suntuoso palácio onde vivia, dentro de uma vila em Lecco, no norte da Itália, para pagar dívidas —hoje o imóvel faz parte do maior parque de Lecco, batizado de Villa Gomes.

“Ele teve muitos êxitos e ganhou muito dinheiro na Itália, mas perdeu quase tudo. Ele devia ter muitos problemas psicológicos. Carlos Gomes era irascível, um sujeito difícil que devia ter todos os complexos de um brasileiro mulato na Europa do século 19”, afirma o mastro carioca John Neschling, radicado na Suíça e o responsável pela orquestração de "Lo Schiavo" nas nove apresentações na capital da Sardenha (a última será no dia 3 de março).

Coproduzido pelo Festival Amazonas de Ópera, que vai encená-lo em Manaus ano que vem, o espetáculo é patrocinado pela Embaixada do Brasil em Roma, onde foi apresentada uma prévia há duas semanas.

“Na história da ópera há ciclos positivos e negativos. O esquecimento de Carlos Gomes na Itália é um dos exemplos negativos. Ele foi muito importante num tempo remoto, merece ter sua obra celebrada”,  comenta Orazi.

Após apresentar "Lo Schiavo" no Rio, o compositor voltou à Europa e escreveu mais algumas óperas, mas seu sucesso nunca mais foi o mesmo. Carlos Gomes voltou ao Brasil em 1895 para dirigir o conservatório de música do Pará, em Belém, onde morreu no ano seguinte de um câncer na garganta. Tinha 60 anos.

John Neschling lamenta o ostracismo imposto a Carlos Gomes também no seu país natal —apesar de a introdução de "O Guarani" abrir e fechar o programa de rádio A Voz do Brasil desde os anos 1930. “O Brasil não tem um lobby cultural forte. Se tivesse, essa ópera já teria sido encenada na Itália antes.”

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