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Cinema

Atriz trans expõe suas dificuldades em 'Lembro Mais dos Corvos'

Sem fronteiras entre documentário e ficção, nada é trivial no longa de Gustavo Vinagre

Naief Haddad

Lembro Mais dos Corvos

  • Quando Estreia nesta quinta (21)
  • Elenco Julia Katharine
  • Produção Brasil, 2017
  • Direção Gustavo Vinagre

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"O que eu posso contar sobre mim?", pergunta a atriz transexual Julia Katharine ao diretor Gustavo Vinagre logo no início de "Lembro Mais dos Corvos". "Tudo", ele responde. "Tudo?! Tá", ela concorda.

Ao longo de uma madrugada, na sala de seu pequeno apartamento em São Paulo, Julia conta passagens da sua vida, momentos difíceis em geral.

Lembra sua relação com um tio-avô quando tinha apenas oito anos. Só adulta, ela se deu conta que havia sofrido abuso sexual de um pedófilo. Recorda-se ainda da surra que levou da turma do colégio que não admitia sua orientação sexual. Traumatizada, Julia não conseguiu mais voltar a essa escola e nem se adaptou a outras.

 

Como ela diz, os filmes se tornaram seu refúgio.

Do ponto de vista do estilo, "Lembro Mais dos Corvos", o primeiro longa de Gustavo Vinagre, parece simples. Uma transexual narra episódios de sua história diante da câmera de cinema.

Mas essa é uma falsa impressão, nada é trivial. A começar pelo fato de que, embora não apareça, o diretor é um personagem. A amizade de Julia e Gustavo os deixa à vontade para armar um jogo de aproximação e afastamento, em que um busca acuar o outro, ainda que de modo farsesco.

Mas essa dinâmica só é possível porque Julia não se coloca em posição de inferioridade. Embora tenha sofrido muito, ela não se vitimiza.

Existe, no entanto, outro aspecto mais curioso. O filme oferece sinais de que talvez Julia não esteja dizendo a verdade. Boa atriz e dona de uma ampla cultura cinematográfica, ela é capaz de fantasiar sem que isso soe como um truque óbvio. É nebulosa, portanto, a fronteira entre documentário e ficção.

"Lembro Mais dos Corvos" cumpre papel de alerta ao expor as dificuldades de uma trans. Mas o filme se fortalece em outra camada, quando os enigmas se impõem, o que acontece sobretudo graças ao talento de Julia. Falando de si mesma ou vivendo uma ilusão, ela transita entre a ironia, o deboche e a melancolia de um modo surpreendente.

Não deixe o cinema quando surgirem os créditos. A sessão também inclui "Tea for Two", curta dirigido por Julia, no qual ela aparece como atriz coadjuvante.

Seja como atriz, seja como diretora, Julia Katharine é um nome do cinema paulistano que merece atenção.

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