Autor de 'Maniac' diz que série da Netflix questiona práticas da psiquiatria

Segundo Patrick Somerville, produção estudou casos de pacientes curados porém infelizes

Emma Stone em cena de Maniac, da Netflix
Jonah Hill na série 'Maniac', da Netflix - Divulgação
Gustavo Fioratti
São Paulo

“Eu não sou o escolhido, as vozes não são reais.” 

Esta é uma frase que Owen Milgram (Jonah Hill), protagonista de “Maniac”, ouve repetidas vezes em um vídeo criado por terapeutas para auxiliá-lo em um quadro de esquizofrenia. Junto com a gravação, ele usa diariamente um punhado de remédios. Até que passa a desprezá-los, dando petelecos para fazê-los voar longe.

O início da trajetória do personagem na série lançada pela Netflix nos revela um olhar específico de seus criadores sobre algumas doenças psiquiátricas associadas à loucura. Após passar pelo tratamento, o protagonista, na verdade, andava bastante cabisbaixo.

“Até que ponto o tratamento de um sintoma psiquiátrico significa um passo em direção à felicidade?” Patrick Somerville, criador da série, diz que uma de suas intenções era a de manter essa questão em estado latente durante toda a história, que terá ainda uma outra personagem central.

Milgram vai cruzar com Annie (Emma Stone), que passou por um episódio traumático relacionado à morte de sua irmã e se viciou em uma droga parecida com o ecstasy, mas inalada como a cocaína. 

Os dois serão convocados a um experimento científico, cercados por computadores de aparência rudimentar que parecem ter saído diretamente dos anos 1980. Toda essa psicodelia vem carregada atmosfera melancólica. 

A abordagem filosófica que a série procura, constantemente referenciada nas cenas em que aparece o livro “Dom Quixote”, o alucinado romântico de Miguel de Cervantes, deve dar norte à palestra que Somerville trará ao Rio2C, evento dedicado ao setor audiovisual e que terá sua próxima edição no fim de abril.

Se existe uma contestação direta aos procedimentos da ciência e da medicina a pacientes psiquiátricos, Somerville, em entrevista à Folha, exemplifica com um caso real: entre as inúmeras histórias que deram base a sua pesquisa, ele foi apresentado à trajetória paradigmática de um morador de rua que acreditava ser a reencarnação de Buda.

Segundo Somerville, esse paciente vivia em um estado de permanente calma e felicidade. Até que deu início ao tratamento médico. Então, ele deixou de achar que era Buda e acabou entrando em um quadro de depressão. 

“Esse sujeito morava debaixo de uma ponte em Los Angeles e era considerado pela vizinhança um cara incrivelmente feliz”, conta Somerville. “Ele tratava com alegria as pessoas que passavam. Até que foi internado e começou a tomar remédios para psicose. E, conforme se curou, ele se tornou uma pessoa mais infeliz”, completa o autor. 

Segundo Somerville, o psiquiatra que tratava desse paciente se fez “uma pergunta óbvia”: “Qual o sentido de curar uma pessoa de uma psicose, se a psicose traz a essa pessoa alguma felicidade? Esse é um tópico que Maniac discute.”

Não será difícil notar que, diagnosticado e medicado desde o primeiro episódio, o protagonista de “Maniac” passa pelo mesmo problema. Quando a trama começa, ele já deixou de achar que era o cara que um tal poder superior escolheu para salvar o mundo. As vozes sumiram, e ele enfrenta uma depressão.

Não é um quadro isolado da vida que, já são, ele encontra à frente. Primeiramente, há o desemprego; depois, há a família disfuncional. O pai, um ricaço, pede para que Milgram preste falso testemunho em uma ação judicial que corre contra o seu irmão. Monta-se uma farsa para “proteger a família”, e ele topa participar. 

Visualmente bastante rica, com as loucuras dos personagens refletidas em padrões de cores da new wave nas paredes de suas casas, nas ruas e nos laboratórios, com as luzes piscando em máquinas de perfil retrô, a série vai aos poucos retratando uma luta contra a opressão sistêmica. 

A partir do experimento pelo qual passam, os personagens embarcam em um universo fantástico típico do livro “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll. 

“Tentamos mostrar que pessoas que sofrem de uma doença psiquiátrica vão passar por muitas coisas que as pessoas que não sofrem do mesmo mal também passam, como, por exemplo, tentar se conectar com outras pessoas”, conta Somerville. 

“Acho que Maniac se empenha em tentar mostrar que o outro nem sempre é um total estranho. Há algo de errado com a ideia de que existe uma parte da população que não está OK e uma outra parte que está OK. Para o outro, nós é que somos o estranho em um certo sentido.”
 

Somerville diz que, por causa da série, ele recebeu uma porção de emails de pessoas que tinham doenças psiquiátricas. “Eles agradecem por termos representado distúrbios mentais dessa forma positiva. Foi muito gratificante.”

A série traz a confusão de atores que atuam em mais de um papel e paisagens que mudam em um piscar de olhos. Não se vale do tipo de didatismo que a indústria audiovisual exige para que uma produção atinja um público mais amplo possível. 

“Hoje existe tanta diversidade de séries que podemos experimentar essa liberdade. Não fico pensando muito na audiência”, diz o roteirista. 

“Há mais vontade de se assumir riscos agora, a indústria não está com medo de focar em apenas uma parte da audiência, eles têm muitos produtos, e não precisam fazer necessariamente uma série que todo mundo vá ver”, diz. 

Não que não haja também pressão para se fazer algo pop, “como em ‘Game of Thrones’,” assume. “As pessoas também querem essas séries de ampla repercussão. Mas existe liberdade de criação agora”, ele conclui, em comparação com o período em que trabalhou como roteirista de “24 Horas”, sucesso da Fox exibido entre 2001 e 2010.
 

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