BaianaSystem bebe das ruas e investiga raízes do som regional no terceiro disco

Álbum 'O Futuro Não Demora' sai nesta sexta (15) e deve embalar apresentação do grupo no Carnaval

Da esq. para a dir., Russo Passapusso, SekoBass e Roberto Barreto, do grupo BaianaSystem
Russo Passapusso, SekoBass e Roberto Barreto (da esq. para dir.), do grupo BaianaSystem - Divulgação
Rafael Gregorio
São Paulo

Não foi só pelo som energético, capaz de erigir catarses em palcos e trios elétricos, que a banda BaianaSystem se tornou um dos nomes mais interessantes da safra que alçou os holofotes do rock-MPB nos anos 2010.

Nem foi só pelas letras que mesclam poética e crônica social ou porque Russo Passapusso, 36, é um dos mais energéticos cantores de sua geração e compositor de criações cantadas por Vanessa da Mata e Anelis Assumpção.

A autoridade do conjunto soteropolitano —assim reconhecida por láureas como as de melhor álbum no Prêmio da Música Brasileira e no Multishow, em 2017— advém de ambições como a que embasa "O Futuro Não Demora".

O terceiro álbum do grupo sai nesta sexta (15) nas plataformas digitais e deve ganhar edição em LP em breve.

Em vez de replicar a fórmula dos bem recebidos "Duas Cidades" (2016) e "Outras Cidades", a banda preferiu investigar as raízes da música baiana deste século 21 —aquilo que Passapusso chama de "quebra-cabeças da diáspora".

 

A produção durou um ano e começou em Itaparica, na Bahia, onde o grupo refletiu sobre de onde vieram e para onde vão os tambores baianos.

"Passamos os primeiros meses na ilha, entendendo o repertório; a primeira parte vem dessa experiência", diz Passapusso, referindo-se à cisão conceitual do álbum em dois lados, como em um LP, batizados de "Água" e "Fogo".

Os dois opostos são divididos pela bela "Melô do Centro da Terra", em que o mestre de capoeira Lourimbau canta letra de Barreto feita para a trilha sonora do filme "Trampolim do Forte" (2010), do diretor João Rodrigo Matos.

Passapusso vê em Itaparica, palco de batalhas separatistas no século 19, uma ilustração da miscigenação da formação da cultura nacional.

Esteticamente, chama a atenção uma versão apaziguada do clima de paredão eletrônico em que o grupo escorou sua sonoridade entre o reggae, a música baiana de raiz africana e a eletrônica.

Produzido por Daniel Ganjaman e pela banda, o álbum se destaca ainda pela qualidade e diversidade das parcerias.

 

Antônio Carlos e Jocafi, por exemplo, foram aliados em criações como "Salve" e aparecem em faixas como "Água". A aproximação veio da admiração de Passapusso pela dupla, que fez sucesso nos anos 1970.

Já o francês Manu Chao chegou por intermédio de Barreto, ícone da guitarra baiana, ex-membro do Timbalada e idealizador da formação do BaianaSystem, em 2009.

Chao ajudou a escrever o tema "Sulamericano", em que encarna um personagem recorrente em sua produção, o Señor Matanza, ilustração da opressão que vê ser imposta aos povos na América Latina.

Há ainda nomes como BNegão e Curumin, que colabora na faixa "Sonar", de ambientação afeita ao rocksteady que precedeu o reggae na Jamaica.

O repertório poderá ser visto ao vivo em 9 de março, em São Paulo, quando o trio elétrico do conjunto, chamado Navio Pirata, desfila pela segunda vez em São Paulo.

"O Carnaval permite fazer leitura do campo político, entender se a população está compreensiva ou nervosa", diz Passapusso.

A se repetir o frenesi de 2018 na capital paulista ou o de 2017, quando o grupo se alçou às manchetes após um "fora, Temer" na festa em Salvador embalado à revelia de instrução da prefeitura contra falas políticas, podem-se esperar manifestações contra Bolsonaro?

"O povo sempre bota para fora o grito represado. O importante é refletir sobre o contra-ataque. É nesses momentos de falta em que aparecem as grandes soluções. Minha visão não é pessimista."

O Futuro Não Demora

  • Onde disponível nas plataformas digitais nesta sexta (15)
  • Autor BaianaSystem
  • Selo Máquina de Louco

Trio Navio Pirata

  • Quando sábado (9/3), a partir das 13h
  • Onde concentração na av. Tiradentes, em São Paulo
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