Descrição de chapéu

Bibi entrou em cena fazendo psiu e armou-se um escarcéu ao seu redor

A imprensa, os escritores, os políticos e a classe teatral de um lado, uma escola de freiras de outro

Ruy Castro

No dia 10 de novembro de 1927, às 21h, uma garotinha surgiu da coxia do Salão Renascença, no Beira-Mar Cassino, no Rio de Janeiro. Caminhou sorrindo até o centro do palco, sentou-se no chão cruzando as pernas e levou o dedo aos lábios, fazendo “psiu!”. Saiu pelo outro lado e abriram-se as cortinas para o que seria o começo do moderno teatro brasileiro: a estreia da companhia Teatro de Brinquedo, de Eugenia e Alvaro Moreyra, com a peça “Adão, Eva e Outros Membros da Família”, de Alvaro. Era um texto coloquial, cínico, quase amoral, como nunca se vira no Brasil —algo impróprio para se dizer na presença de uma menina de cinco anos. Mas Aída, a mãe da garota, estava no elenco, e seu pai, Procópio, na plateia. A menina se chamava Bibi Ferreira.

Não foi a estreia de Bibi nos palcos. Fala-se que, em bebê, ela já entrara em cena no colo da mãe, interpretando, por coincidência, um bebê. E, naturalmente, sua aparição na peça de Alvaro Moreyra era só uma brincadeira, um charme. Mas, pouco mais de um ano depois, em fevereiro de 1929, todo o país ouviria falar de Bibi.

Ela estava então para fazer sete anos, e o Colégio das Irmãs de Sion, das freiras francesas, em Laranjeiras, recusou sua matrícula no primeiro ano por ser filha de artistas de teatro. A alegação era a de que isso fazia parte do regulamento e era uma exigência das famílias das alunas. As freiras, que não deviam ir muito à rua, não sabiam com quem estavam lidando.

Procópio Ferreira tinha 30 anos e já era um nome nacional. Mais que qualquer outro ator, tornara-se —literalmente— dono de seu nariz, das peças que representava e dos teatros onde as representava. Tirava-as ou as devolvia ao cartaz à sua vontade e tinha casa cheia em todas as récitas —duas por dia, três, às quartas e aos sábados—, de segunda a segunda. Para todo mundo, ele era apenas Procópio. Não precisavam mais do sobrenome.

Em 1925, publicara um livro, “A Arte de Fazer Graça”, com “reflexões” sobre a arte de ser ator, o teatro, o amor, a vida. Procópio se via como um intelectual. A ideia de ter sua filha recusada por um colégio era inadmissível. Principalmente porque as famílias que impunham ao colégio aquela restrição eram as mesmas que iam vê-lo no teatro. Como podiam aplaudi-lo e recusar o convívio com sua filha de seis anos?

A imprensa, os escritores, os políticos e a classe teatral ficaram do seu lado. Durante duas semanas, as freiras se viram diariamente nas manchetes, e a situação piorou quando se soube que elas também não aceitavam meninas “de cor, mesmo que de famílias da sociedade”. Os editoriais acusaram o colégio de ser uma instituição estrangeira, a negócios no Brasil, que fazia pouco da nossa composição étnica. “O que dizer dos padres brasileiros negros?”, perguntavam.

Mas as freiras não cederam. E, mesmo que fizessem isso, Procópio não queria mais. O Colégio Anglo-Americano abriu as portas para sua filha e, assim, Bibi Ferreira foi estudar lá, feliz da vida. Talvez fazendo um psiu para a confusão que se armara por sua causa.

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