Descrição de chapéu Moda

Bruxas da Dior vão à luta com xadrez grunge na semana de moda de Paris

Estilista Maria Grazia Chiuri imprime frase de ícone feminista em camiseta da coleção

Pedro Diniz
Paris

​​A imagem pop das bruxas com seus conjuntos coloridos listrados, capas pretas e maquiagem pesada esconde uma história marcada por perseguição.

Hoje as bruxas são relembradas como mulheres independentes, solteiras e que, por terem desafiado o patriarcado na Idade Média, queimaram na fogueira.

 
 

Dada a atenção que tem sido dada à quantidade de mulheres assassinadas ainda hoje por serem mulheres, é importante que haja grifes como a Dior.

O desfile de inverno da marca neste ano, na semana de Paris, foi um manifesto similar ao da primeira coleção da estilista Maria Grazia Chiuri para a grife, em 2016, quando ela colou a frase "todos deveríamos ser feministas", da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, nas peças.

Desta vez, ela imprimiu em camiseta a frase "sororidade é global", em referência ao livro homônimo da poeta americana Robin Morgan, um ícone feminista.

"Sororidade é Poder" (1970) e "Sororidade É para Sempre" (2003), dois livros da escritora, também serviram de inspiração literária para esse manifesto em formato de coleção.

O núcleo duro de vozes usadas por Chiuri cresceu. E, com Morgan e Chimamanda na plateia, a artista italiana Tomaso Binga declamou um texto no início do desfile, em um Museu Rodin preenchido com colagens suas.

Tomaso Binga é pseudônimo de Bianca Menna, 88, famosa pelas figuras femininas de seu trabalho. Ela adotou um nome que na Itália é de homem para penetrar num mundo machista como o das artes visuais na metade do século 20.

O que Binga representa é similar ao que representavam as Teddy Girls, uma subcultura nascida no pós-guerra e que, por causa do machismo que tirava o lugar feminino também no guarda-roupa, foi eclipsada por sua versão masculina, os Teddy Boys.

Essas garotas usavam alfaiataria masculina, com jaquetas de couro e jeans pesados, em plena época romântica dos anos 1950 —e foram os fios condutores para Chiuri conceber o novo look de combate das bruxas modernas.

Agora, além de suas listras e pesadas capas pretas, elas incluem no repertório o xadrez grunge, vermelho e preto, o tartã escocês e os quadriculados que tingiam a alfaiataria dos dândis ingleses dos anos 1950.

Eles bebiam no estilo eduardiano, inspirado nas roupas do príncipe Eduardo 8º, que foi apropriado pela alfaiataria de proporções ampliadas das Teddy Girls e que serviu como ponto de partida para vários looks que desfilaram na passarela nesta terça (26).

Da monarquia britânica, aliás, a designer também pescou o estilo da princesa Margaret, que, em uma sessão de fotos de Cecil Beaton, no aniversário de 21 anos, escolheu um look da Dior. Naquele 1951, foi um escândalo para a realeza, que tinha como missão exaltar sua cultura e, por isso, só usava grifes nacionais.

Trocando em miúdos, foi a rebeldia, o senso de desajuste e o desafio das convenções que moveu a tesoura da grife nesta temporada parisiense.

Ao fundo, a cantora Amy Winehouse, outra mulher que enfrentou o preconceito e sofreu com o machismo, morta em 2011, embalava tudo com "Tears Dry On Their Own" tocado nas caixas de som.

 

Soa quase irônica a referência a esse grupo de mulheres em uma marca como a Dior. Ao mesmo tempo em que elas balançavam estruturas no Reino Unido, o costureiro Christian Dior espalhava pelo mundo uma estética carregada de glamour aristocrático. Vale lembrar que o "new look", como era chamado, foi criado em 1947 e popularizado nos anos seguintes.

Chiuri se permitiu fundir os dois universos, unindo o do costureiro ao das garotas andróginas para aquela época. Ela reconstruiu a jaqueta bar do look Dior com uma estrutura mais rígida, de linhas retas e ombros marcados. Combinou tanta austeridade à leveza intrincada no portfólio da grife, claro.

Saias esvoaçantes, ora preenchidas de brilho ora cortadas com plissados de alfaiataria, fizeram par com os casacos de cortes simétricos. Desfilaram também pesados casacos em forma de fraque ao avesso, curtos na parte de trás, mas compostos com peças leves, transparências e as flores que Dior adorava.

Não soam nada datadas tantas referências aos anos 1950, porque, espertamente, a estilista aplica um verniz esportivo às peças, com bolsos, amarrações e outros acabamentos funcionais.

Matemática —e ainda assim exuberante—, a coleção pode ser lida como emblema da cartilha criada pela estilista nesses anos na marca. Uma costura que, para além do ativismo, retrata o novo poder da mulher. Agora, mais do que o pano escolhido para cobri-la, o que importa é a sua voz.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.