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Burberry faz crítica ao nacionalismo britânico na semana de moda de Londres

No segundo desfile à frente da marca, diretor criativo Riccardo Tisci eleva o tom em temporada que parecia insossa

Modelo na passarela outono/inverno 2019 da Burberry, na semana de moda londrina Daniel Leal-Olivas/AFP

Pedro Diniz
Londres

De que serve um desfile se não para despertar ideias? Para a Burberry, que tomou de volta a coroa da moda inglesa em setembro passado, com a estreia de Riccardo Tisci na direção criativa, a apresentação no domingo (17) foi um dedo apontado na cara do nacionalismo britânico.

Se o primeiro desfile do italiano massageou o ego dos tradicionalistas que amam o xadrez tricolor sobre o fundo bege da grife, a performance numa sala da Tate Modern propôs desencapar os ingleses de seu trenchcoats para vesti-los com coletes, blazers e vestidos tipo doudoune, feitos daquele náilon com enchimento usado em roupas de frio, combinados a peças urbanas.

Diversas bandeiras foram costuradas no peito em um dos primeiros looks, antecedendo a marcha de linhas e cores da bandeira do Reino Unido. Em um deles, a bandeira em doudoune foi usada como capa de super-herói sobre o traje preto, coberto por uma espécie de colete à prova de balas.

O estilista parecia lembrar o público da escalada xenófoba que acontece porta afora. Ou nas diversas fronteiras pelo mundo, inclusive as do microcosmo da performance.

A sala foi toda cercada por estruturas metálicas, como muros em construção, onde jovens de diferentes etnias tentavam escalar, pendurando-se uns nos outros para cruzar a linha que os separava do público chique, uma metáfora da crise migratória para a qual o Reino Unido fecha os olhos.

Na fachada da Tate, estava escrito “entrada livre” em letras garrafais, o que elevou o tom de ironia pretendido por Tisci, que parece ter adotado o estilo de humor inglês.

Ele colou nas roupas de estética street a pergunta “não é suficiente para você?”, provocando os críticos de sua última coleção, tachada por parte dos fashionistas de clássica demais para seus padrões, e, ao mesmo tempo, pedindo uma reflexão sobre o estado de agonia global.

Mas de nada serviria a embalagem do discurso se a execução na passarela não correspondesse à altura. E, de forma quase perfeita, a Burberry provou seguir o caminho da renovação.

Dos escarpins de salto alto com bico colorido até os conjuntos de saia envelope e blusa cavada, tudo cheira a novidade no portfólio da etiqueta. O desfile transita entre a alfaiataria desconstruída, com peças unidas por alfinetes, até a roupa esportiva combinada a casacos pesados de oncinha.

A grife consegue seduzir, em um mesmo bloco de looks, a turista afeita ao xadrez, que desta vez recebe o novo logo da marca estampado por todos os lados, e o garoto grunge de butique atrás de um jeans com camisa de flanela redesenhada.

Protegido sob o mote da integração desses universos díspares, o estilista ainda escava as origens do estilo em voga quando o Exército britânico usou pela primeira vez o casaco impermeável de Thomas Burberry. Assim, mistura militarismo e romantismo em laços, saias-lápis e casacos rígidos.

O estilista emula tempos de extremos ao conjurar diversos estilos vinculados tanto às tribos urbanas quanto às das rodas da elite europeia. Do universo equestre, tema caro à grife, ele tira detalhes da selaria para aplicá-los em vestidos envelopados e contornos sinuosos. O couro, claro, é uma das matérias-primas exploradas nesse bloco temático.

Ao reunir diferentes visões sobre o legado da Burberry, Tisci consegue atingir bolsos endinheirados em escala global, dos “millennials” que ostentam marcas, mas não querem soar datados, até a geração que de fato banca os caprichos dos filhos.

Pode soar excessivamente plural, mas, sabiamente, Tisci embalou em xadrez a ideia de miscigenação estética para dar a última palavra nesta confusa primeira metade de temporada de moda.

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