Descrição de chapéu Crítica Cinema

'Calmaria' tinha tudo para ser um dos melhores filmes, mas é mais do mesmo

Com Matthew McConaughey e Anne Hathaway, longa-metragem é um desperdício de talentos

Ivan Finotti

Calmaria (Serenity)

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Diane Lane, Djimon Hounsou
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Steven Knight

Mas que enorme desperdício de tempo, energia e dinheiro foi a realização deste “Calmaria”. Que enorme desperdício de talentos: Matthew McConaughey e Anne Hathaway refazem a dobradinha do excelente “Interestelar” (2014), e temos ainda Diane Lane, de “Sob o Sol da Toscana” (2003), e Djimon Hounsou, de “Diamante de Sangue” (2006).

Que enorme desperdício de história: Matthew é Baker Dill, um pescador de enormes atuns numa pequena ilha, que ganha a vida levando turistas para se divertir com suas varas em alto-mar. Um passado misterioso lhe assombra. Ele teve um filho, que vive com sua ex-mulher, Karen (Hathaway). Anos antes, quando Baker se mandou pra guerra no Oriente Médio, ela o trocou por um mafioso. 

As coisas desandam quando a bela ex-mulher aterrissa na ilha paradisíaca. Karen é deslumbrante, se veste seguindo a moda marinheira para ir ao cais e usa chapelões e longos para ir bebericar drinques no único boteco da ilha, devidamente sujo e especializado em servir rum ruim.

Nessa hora, parece que estamos diante de um filme especial, talvez uma refilmagem de “Uma Aventura na Martinica” (1945). Matthew McConaughey parece um Humphrey Bogart 74 anos depois: ele transa com a moradora mais bonita da ilha. Ele pula pelado de uma encosta para nadar no mar lá embaixo. O cara domina seu barco, pesca tubarões a rodo; é um Ernest Hemingway no Caribe nos anos 1950.

E Anne Hathaway é Lauren Bacall. Também atualizada, pois além de indubitável femme fatale, ela apanha de cinta do marido que vende drogas e toma champanhe no gargalo. Karen conta a Baker que o filho deles está passando maus bocados nas mãos do gângster. A tensão se completa com a chegada do valentão à ilha, que quer ir pescar justamente com o melhor barqueiro do pedaço.

É um filme noir com sol, com interpretações excelentes e um envolvente roteiro de thriller à antiga. Só que, de repente, não é nada disso.

“Calmaria” segue uma linha chamada pelos americanos “mind twisting movies”, algo que pode ser traduzido como “filmes de inversão do cérebro” ou mais simplesmente “puzzle” ou “quebra-cabeças”.

São obras nas quais nada é o que parece, tipo “Matrix” (1999), no qual descobrimos que o mundo é um programa de computador, ou mesmo “Interestelar”, quando o astronauta se vê no quarto da filha anos no passado.

Não há dúvida que o gênero anda em alta no século 21. “A Origem” (2010), “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” (2004) e “Amnésia” (2000) são títulos que fizeram muito barulho quando foram lançados e ainda são favoritos de muita gente.

Nesse aspecto, “Calmaria” é apenas mais do mesmo. O chato é que, não fosse o ridículo “mind twist” tirado da cartola, o filme tinha tudo para ser um dos melhores do ano.

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