Carlos Fernando, ex-cantor da banda Nouvelle Cuisine, é encontrado morto em SP

Músico, arquiteto e artista plástico fez sucesso no fim dos anos 1980 e início dos 1990 com releituras de standards de jazz

Rafael Gregorio
São Paulo

O músico, arquiteto e artista plástico Carlos Fernando Nogueira, ex-vocalista da banda Nouvelle Cuisine, foi encontrado morto em seu apartamento, no centro de São Paulo, nesta quarta (6).

Nascido em 1959, Carlos Fernando cantou em três discos do grupo de jazz Nouvelle Cuisine.

Formado por músicos como o baterista e vibrafonista Guga Stroeter e o guitarrista Maurício Tagliari, hoje diretor da gravadora YB Music, o conjunto fez sucesso no fim dos anos 1980 e início dos 1990 com releituras ousadas e pós-modernas, na definição de Stroeter, de standards de jazz.

O conjunto foi criado em 1987 a partir de sessões de improvisação na casa de Stroeter, que era amigo de Carlos Fernando dos tempos de escola no Colégio Equipe —mais ou menos a mesma turma de outros nomes que viriam a trilhar carreira artística, como Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, que mais tarde formariam os Titãs.

A banda rapidamente fez sucesso na noite paulistana e acabou contratada pela gravadora Warner, sob a qual lançou dois álbuns: “Nouvelle Cuisine” (1988) e “Slow Food” (1991).

Durante seu auge, do fim dos anos 1980 até meados dos anos 1990, a banda de jazz chegou a fazer parcerias com grandes nomes da MPB, como Angela Maria, que cantou a música “Bons Amigos” com o grupo.

No início, o repertório do conjunto trazia releituras cheias de personalidade de temas clássicos do jazz americano, como "My  Funny  Valentine", famosa no trompete de Miles Davis e na voz de Chet Baker, e "Embraceable You".

Posteriormente, a banda agregou ao programa composições brasileiras, de nomes como Dorival Caymmi e Djavan.

Caetano Veloso também compôs "Luzes" para o conjunto —a música foi gravada com participação de Gal Costa no disco "Slow Food".

 

“Nós fomos colegas no colégio, em 1977. Éramos todos cabeludos pós-hippie. E o Carlos, que tinha o apelido de Careca, era um dândi. Um peixe fora d'água, extremamente culto e talentoso, citando Oscar Wilde”, disse Stroeter, 59, amigo e colega no Nouvelle.

“Era um multi-artista: um artista plástico e um incrível desenhista, de muito, muito talento. Conhecia poesia, literatura, cinema e um tanto de filosofia e tinha uma cultura absurda, falava português, francês, inglês, italiano.”

Carlos Fernando foi quem deu o nome à banda, e mais, lembra o amigo.

“Além de cantor, o Carlos tinha a concepção musical do grupo na cabeça. Ele quem veio com a ideia de minimalismo no jazz, de importar para o jazz procedimentos de outras artes.”

O músico também era o responsável por alguns dos primeiros arranjos do grupo, embora tivesse parca formação de instrumentista, tendo tido aulas de piano na infância.

“Não sabia nenhuma nota, não tinha nem instrumento, mas trazia todos os sons na cabeça. Digo sem exagero: era sinfônico. Ele cantava os sons e o Luca Raele [pianista e arranjador] transcrevia. Tinha essa capacidade de abstração absurda.”

Após esse segundo trabalho, Carlos Fernando começou uma carreira solo, ainda em paralelo com a banda, da qual posteriormente se separou, mantendo os relacionamentos com os amigos.

Até 2005, o Nouvelle Cuisine ainda lançaria mais dois discos —“Novelhonovo”, em 1995, pela gravadora Eldorado, e “Free Bossa”, em 2000, pela Brazil Music—, além de uma coletânea de sucessos e raridades.

No período solo, Carlos Fernando gravou e fez shows com nomes como a cantora Marisa Monte e o violonista Toninho Horta.

Como artista gráfico, foi o responsável pela direção artística de livros de poesia e de álbuns como “Fina Estampa” (1994), de Caetano Veloso.

Nos últimos anos, Carlos Fernando foi coordenador de arquitetura e identidade visual da Secretaria de Estado da Cultura e da Poiesis.

Nesse posto, foi autor do projeto de reforma arquitetônica e museográfica da Casa Guilherme de Almeida, antiga residência do poeta, no bairro Pacaembu, em São Paulo.

Em junho de 2012, Carlos foi cocurador e museógrafo da exposição "De uma Estrela a Outra", sobre o poeta Giuseppe Ungaretti, na Casa das Rosas.

Nas décadas após a saída da Nouvelle Cuisine, o artista continuou cantando com a banda em ocasiões pontuais —a última delas foi em 2009.

“Nos últimos tempos ele se queixava de algum problema vocal. Ele me explicou várias vezes qual era, mas não consegui entender bem, até porque quando ele cantou com a gente, cantou muito bem”, diz Stroeter.

“Eu pessoalmente o considero um marco do pós-modernismo na música”, acrescenta o músico, citando a mescla que Carlos Fernando sugeriu para a versão da banda da música “My Funny Valentine”, amalgamando desde arranjos do compositor armênio Aram Khachaturian (1903-1978) até o solo de Miles Davis e as fermatas da interpretação de Sarah Vaughan, “mas tudo isso num arranjo linear”.

O corpo do músico foi velado e cremado na quinta (7), no crematório da Vila Alpina. Segundo a perícia, sua morte foi causada por um infarto.​

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do informado, o artista Carlos Fernando Nogueira cantou em três discos da banda Nouvelle Cuisine, não em dois.

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