Diário de cineasta Mário Peixoto levanta questão sobre sua sexualidade

'Meu interior só eu sei quanto masculino é', escreveu o diretor de 'Limite', obra-prima de 1931

Cena do filme 'Limite' (1931), de Mário Peixoto - Reprodução
Danielle Brant
Nova York

“Estou muito perturbado porque a senhorita Goldsmith me deu um conselho para ser menos efeminado. Penso que está certo, porque algumas vezes pareço uma garota.”

É dessa forma que Mário Peixoto, cerca de quatro anos antes do lançamento de seu trabalho mais importante, o filme mudo “Limite”, de 1931, aborda uma questão de foro íntimo, mas levantada por pessoas próximas.

A sexualidade do autor e diretor, nunca explicitada, emerge em alguns dos relatos contidos no diário escrito a partir do segundo semestre de 1926, quando Peixoto, então com quase 18 anos, iniciou seus estudos no Hopedene College, em East Sussex, no sudeste da Inglaterra.

Um “college” britânico é uma instituição de ensino complementar frequentada por jovens depois da conclusão do antigo segundo grau. 

Era um ambiente rígido e estritamente masculino. “Havia uma espécie de experiência homoerótica, com grandes amizades entre adolescentes ainda em formação, na fronteira de uma homoafetividade, e que 
poderia incluir experiências homossexuais”, diz Denilson Lopes, professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Desde agosto do ano passado, ele atua como um pesquisador visitante na Universidade Columbia, em Nova York.

Lopes se debruçou sobre o diário escrito por Peixoto no Reino Unido durante sua pesquisa sobre genealogia queer no modernismo brasileiro. Em seus estudos, ele diz tentar quebrar perspectivas e incluir os homossexuais e transexuais na sociedade, em vez de fazer com que simplesmente sejam assimilados e se conformem aos padrões reinantes.

A experiência do cineasta no Reino Unido não foi boa. “Ele conta nos diários que ficou deprimido, triste, não se adaptou à disciplina do college”, afirma o pesquisador.

Mas conseguiu fazer amizade com dois irmãos japoneses, com os quais desenvolveu uma relação bastante afetuosa. Em algumas fotografias, aparece de braços dados com os amigos. Também indica interesse por roupas —começa a copiar os paletós de um colega grego, Nicholas, em uma tentativa de compor sua imagem.

Os gestos de afetividade com os amigos e o refinamento e preocupação com roupas levaram pessoas próximas a questionar a sexualidade do diretor. A senhorita Goldsmith, citada nos diários, é um desses casos. Peixoto concorda com ela. “Pensando comigo mesmo, meu exterior é ‘feminine’, ‘girlish’”, escreve.

“Meu interior só eu sei quanto masculino é. Este assunto me preocupa muito. Não é defeito de ninguém ser gentil e delicado, tanto mais porque fui criado no meio de meninas. Mas, de agora em diante, vou me corrigir e agradeço muito a Miss Goldsmith. Fico muito feliz porque meu amigo não encontraria uma esposa com melhores qualidades.”

Em outro trecho, Peixoto conta ter recebido cartas “horríveis” de familiares, entre eles a avó Cornélia. “Minhas fotografias foram um grande escândalo à minha família. Eu estou furioso e muito triste! Eu não consigo entender por que eles levaram esse assunto tão a sério! Eu espero que Nella faça algo por mim! Eu não consigo mais escrever e estou cheio de desgosto.”

Outro amigo, Otávio de Faria, critica a preocupação com roupas e escreve para o amigo de infância que “um homem de verdade” não se importa com isso. Na época —e como ainda é hoje—, a feminização era considerada uma desqualificação para o homem, em linha com a desvalorização do papel da mulher em uma sociedade patriarcal.

Lopes teve acesso aos diários há dois anos. A intenção do professor da UFRJ era entender o que era ser um artista modernista no Rio de Janeiro e marcado por essas ambiguidades sexuais.

“Não me interessa o diário como apenas uma exposição dele. Não quero necessariamente fazer um ‘outing’ público. Não existe um trabalho, até onde eu saiba, sobre o modernismo que coloque essas questões de gênero e, particularmente, da questão queer, como uma forma de compreender uma obra importante como é a do Mário Peixoto.”

“Eu acho que existe uma certa misoginia ou homofobia epistemológica. É como se fosse desqualificar os artistas. O fato de você discutir a obra dele a partir disso não vai tornar a obra dele menos importante, vai ampliar uma outra leitura”, diz. “Não se trata de fazer fofoca, mas, ao redimensionar esse dado, é possível compreender como a questão de gênero implica formas de vida e de sobrevivência também.”

A obra-prima de Peixoto foi o filme mudo “Limite”, em  que duas mulheres e um homem contam suas histórias em um barco à deriva, enquanto chegam, como diz o título, ao limite de suas existências.
“É um artista importante, considerado o diretor do filme mais importante na história do cinema brasileiro. 

Filme que, para muitos, é tido como uma obra excepcional e meio solta, feita por um jovem sensível, formado por escolas tradicionais do Rio de Janeiro”, diz Lopes. “E o primeiro filme dele, que foi pouco exibido na época, virou essa referência na história.”

A maior produção de Peixoto foi nos anos 1930. Em 1931, publicou “Mundéu”, coletânea de poemas. Dois anos depois, “O Inútil de Cada Um”.

Depois de “Limite”, tentou fazer outro filme, “Onde a Terra Acaba”, de 1933, mas teve desentendimento com a produtora Cármen Santos e foi substituído por Otávio Mendes na direção. Depois, se retirou da cena intelectual, para voltar nos anos 1970, quando sua obra-prima voltou a fazer sucesso. 

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