Do pornográfico ao teológico, peça critica o contexto democrático nacional

Grupo Tablado de Arruar retrata sensação de trauma com a política do país em 'Pornoteobrasil'

Gabriela Elias, André Capuano, Alexandra Tavares, Ligia Oliveira e Vitor Vieira como seus personagens de

Gabriela Elias, André Capuano, Alexandra Tavares, Ligia Oliveira e Vitor Vieira como seus personagens de "Pornoteobrasil", peça do grupo Tablado de Arruar com texto de Alexandre Dal Fara, que divide a direção com Cleyton Mariano Vitor Vieira/Divulgação

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Há cinco anos, a companhia Tablado de Arruar se debruçou sobre uma trilogia, denominada "Abnegação", que versava sobre os conflitos éticos da política nacional. Tinha um especial olhar crítico aos contornos da ascensão do PT ao poder.

Passados os anos e os governos, o grupo decidiu voltar ao tema, ou seja, a investigar a política nacional de agora. 

"Mas foi um processo bastante complexo", afirma o dramaturgo e diretor Alexandre Dal Farra. "Desde o começo do novo projeto [há cerca de um ano], tudo mudou várias vezes. Teve a prisão do Lula, as eleições presidenciais, a facada em Bolsonaro... E delimitar tudo isso ficou complicado."

Por fim, o que delimitou o processo foi justamente a dificuldade em entender a recente turbulência política do país. 

O resultado, "Pornoteobrasil", é menos um discurso político direto e mais "um olhar para uma sensação de trauma, de uma situação que muda tão rápido que você fica perdido, suspende o seu juízo", diz Dal Farra, que divide a direção com Clayton Mariano.

O sentimento se reflete já no cenário, todo devastado. Logo de início, um sistema de escadas e fios cai, espalhando sobre a cena uma série de baldes e outras traquitanas.

O que se segue são cenas fragmentadas, levadas por cinco personagens um tanto desorientados. A exemplo do príncipe Míchkin, protagonista do romance "O Idiota", de Dostoiévski, eles falam de política, mas nunca chegam a um pensamento crítico.

Na reelaboração desse trauma, trazem memórias. Muitas tratam da violência e acabam por discutir a liberdade política no país, como se a ditadura ainda vivesse como uma sombra na sociedade brasileira e hoje ainda não estivéssemos, de fato, numa democracia.

Numa das cenas, fala-se de um garoto que, ao comer um hambúrguer, retirou todo o recheio, ficando só com o pão. "Todo mundo sempre soube que a carne nunca esteve lá", ele conclui. Noutra, uma das personagens fala dos tempos de hoje, repleto de ideias extremistas: "É tudo uma coisa só, não tem mais meio-termo". 

Tanto que uma das cenas traz o quinteto gritando, replicando os debates histriônicos e explícitos de hoje —daí o "porno" do título. Mas o que costura os fragmentos são discursos religiosos (o "teo" do nome), um questionamento de como novas teologias se espalham pelo país e guiam decisões da sociedade.

Pornoteobrasil

  • Quando Qui. e sex., às 20h, sáb., às 18h. Até 6/4 (não haverá sessão em 1º/3)
  • Onde Oficina Cultural Oswald de Andrade - sala 3, r. Três Rios, 363
  • Preço Grátis
  • Classificação 14 anos

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