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Cinema

'Dogman' capta algo de errado nas atuais relações humanas

Em filme do diretor de 'Gomorra', que estreia no Brasil, cada um procurar sobreviver como pode

Inácio Araujo

Dogman

  • Classificação 16 anos
  • Elenco Marcello Fonte, Edoardo Pesce, Nunzia Schiano
  • Produção Itália/França, 2018
  • Direção Matteo Garrone

O que é mais fácil: lidar com homens ou com cães? Eis a pergunta incontornável que “Dogman” deixa no ar. Pois, logo na primeira cena, Marcello (Marcello Fonte), um tratador de cachorros, se vê às voltas com um espécime particularmente feroz. E, no entanto, em poucos minutos ele consegue amansá-lo.

Bem diferentes são as relações com os homens. Em particular com Simoncino (Edoardo Pesce), uma espécie de Maciste da periferia. Mas, diferente do famoso personagem da mitologia cinematográfica, Simoncino não produz nenhum ato heroico. Seu prazer principal consiste em, pela força, bater e maltratar as pessoas do pedaço. Também rouba e faz dívidas que nunca pagará graças à capacidade de intimidação.

O franzino Marcello mantém com Simoncino relações particulares. Ele é, ao mesmo tempo, protegido pela força daquele de quem se diz amigo e submetido a ela. O gigante pede-lhe o possível (drogas, por exemplo) e o impossível (participação em um assalto). 

O personagem é de certa forma fascinante: não há sinal de transcendência nele. É o homem do imediato, do aqui e do agora como dogma rasteiro. Seus atos podem lhe dar uma bela motocicleta, é verdade. Mas do que serve ela? Para andar daqui até ali na calçada local. Em resumo: a força serve apenas como demonstração de força. Ponto.

Além deles, existem os comerciantes do lugar, que também sofrem nas mãos do gigante e pretendem lhe dar um destino bem ao sul da Itália: contratam alguém de fora na tentativa de liquidá-lo.

Matteo Garrone, que há dez anos nos deu o precioso “Gomorra”, desta vez parece afirmar que em nosso tempo é mais fácil a um homem relacionar-se com cachorros do que com outros homens.

Ainda que se aceite a boa natureza dos animais, o fato é que existe, do ponto de vista do filme, algo profundamente errado nas relações humanas contemporâneas. Voltamos, com isso, à grande tradição do cinema político italiano.

Maciste e Hércules tornaram-se inúteis (tanto quanto seriam, em outra escala, Batman ou Homem-Aranha), já que os homens não partilham o destino de outros homens. 

Marcello, no caso, preocupa-se com a filha e consigo mesmo. O apego à família, agora num nível quase patológico, é o que subsiste. À parte isso, cada um se vire como puder, sobreviva o quanto der.

O interessante, no caso, é que o filme articula sua ideia do destino humano à bela e estranha paisagem. O arrabalde melancólico onde as ações se passam parece indicar a fronteira intransponível entre os que têm direito a uma existência salubre e os que não têm —é onde tudo acontece, de onde ninguém sai.

Numa sociedade que eliminou a luta entre classes, Maciste não lutará pelos pobres: ninguém tem causa, exceto a sua. O mundo começa e termina em si. O inimigo do pobre não é o rico, é outro pobre.

Garrone faz disso uma constatação, não um motivo de proselitismo. Eis talvez o seu traço principal de pertencimento ao contemporâneo. Pois, se retoma a tradição do filme político italiano, ele o faz sem reivindicar a originalidade narrativa como traço essencial e sem afirmação de crença política definitiva.

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