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Livro de colombiano traz cicatrizes dos filhos da guerra do narcotráfico

Novo personagem de Jorge Franco tenta reconstruir sua vida após a morte do pai, um alto funcionário de Escobar

Sylvia Colombo
Cartagena

Há 20 anos, o escritor colombiano Jorge Franco, 56, deu vida a Rosario Tijeras. Seu romance, que virou filme e série de TV, narra a história de uma jovem que sofre abuso na infância e se transforma numa temível sicária no período do auge da guerra do narcotráfico na Colômbia.

Agora, numa fase mais reflexiva, Franco propõe uma nova interpretação dessa violenta era da história colombiana —quando Estado, Exército, paramilitares e cartéis se enfrentavam e cometiam atentados, sequestros, assassinatos e o sangue corria solto em vários âmbitos da sociedade.

O escritor Jorge Franco - Casa de América

Fruto disso é seu mais recente romance, “El Cielo a Tiros” (Alfaguara, importado), que trata do mesmo período, mas de um ângulo diferente. Seu principal narrador é Larry, filho de um alto funcionário do chefão do cartel de Medellín, Pablo Escobar

Depois da morte dele, Larry tem sua família desfeita, cada um tentando reconstruir sua vida como pode. Ele viaja a Londres para tentar uma nova vida, e só retorna mais de uma década depois, quando encontram os restos mortais de seu pai e a família prepara um funeral para ele.

“É um personagem perturbado, como ficaram perturbados vários dos filhos dos narcotraficantes famosos. Fiz várias entrevistas. São pessoas que liam nos jornais as atrocidades pelas quais seus pais eram conhecidos e os tinham em casa, carinhosos com eles”, afirmou, durante o Hay Festival, realizado em Cartagena no último fim de semana.

Nascido e criado em Medellín, Franco, que ganhou o prêmio Alfaguara de 2014, conta que via essa geração de filhos de bandidos pelas ruas da cidade. “Eles eram diferentes, tinham carros e roupas caras, estavam nas discotecas, nos centros comerciais, se exibiam. Além disso, estudavam nos melhores colégios e falavam outros idiomas. Mas, depois que tudo acabou, muitos se deram conta e passaram a ser depressivos ou a querer romper completamente com esse passado. Alguns foram para outros países ou mudaram de nome. Para mim, são também vítimas de seus pais.”

A atriz colombiana Flora Martinez em cena do filme 'Rosario Tijeras', de 2005, do mexicano Emilio Maillé - Divulgação

O título se inspira num ritual popular iniciado naquele tempo e que segue até hoje —ainda que proibido pelas autoridades. Na “noite da Alvorada”, celebrada na madrugada do primeiro dia de dezembro, há rojões, fogos de artifício e tiros. “É um problema para o Estado porque a pólvora está proibida, e é uma festa perigosa, mas, se a cidade inteira adere e a pólvora é vendida no mercado negro, não há o que ser feito.”

Pelo menos, ele conta, a finalidade do festejo mudou. Ele nasceu nos anos 1990, quando os herdeiros do cartel de Medellín comemoraram uma vitória contra os paramilitares (milícias anticartéis da droga apoiadas pelo governo). “Mas hoje não se pensa nisso, é uma festa para celebrar a chegada do último mês do ano, mas é violenta e mostra que nossa sociedade ainda não processou toda a sua violência”, conta.

Além de fazer a promoção do livro, Franco está envolvido nas atividades impulsadas pelas autoridades de Medellín de tentar diminuir o “narcoturismo” e fazer com que a história violenta da cidade não seja apagada, mas tratada de forma crítica.

A prefeitura da cidade, por exemplo, quer destruir o famoso edifício Mônaco, onde Pablo Escobar viveu e foi vítima de um atentado a bomba pelo cartel rival, o de Cali.

“Não basta derrubar o prédio, é preciso colocar ali uma placa, fazer um memorial às vítimas, explicar o que ocorreu”, afirma. Quanto às “narcotours”, que passam por lugares onde Escobar viveu, organizou atentados terroristas, explodiu bombas e onde está enterrado, Franco tem outra proposta.

“Não se trata de deixar de fazê-las porque é nossa história —não apenas turistas, mas nossas crianças têm de conhecê-la. Mas é necessário mudar o discurso. No lugar de dizer: ‘Aqui Escobar decidiu explodir tal avião ou aqui ele se proclamou o maior bandido do mundo’, é preciso mostrar o lado das vítimas, quantos morreram, as imagens do horror. Porque só assim se supera um trauma histórico.”

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