Longa italiano sobre crimes juvenis em Nápoles faz lembrar 'Cidade de Deus'

Romance de Roberto Saviano, que vive sob proteção após sofrer ameaças da máfia, inspira longa

Guilherme Genestreti
Berlim

Há um bocado de “Cidade de Deus” na proposta do italiano “La Paranza dei Bambini". A afirmação pode parecer bastante reducionista, mas é difícil não pensar na obra de Fernando Meirelles e Kátia Lund ao assistir a esse longa sobre delinquência juvenil na cidade de Nápoles, que compete no Festival de Berlim.
 
Claro que, dado o contexto, saem de cena todos os códigos que regem a violência nas comunidades cariocas para dar lugar aos ritos próprios da máfia, mais especificamente os das gangues de rua que atuam sob o guarda-chuva da organização criminosa Camorra. Nos dois casos, contudo, há uma investigação sobre como a cultura da criminalidade forja a identidade masculina.

Cena do filme 'La Paranza dei Bambini' ('Piranhas'), de Claudio Giovannesi, em competição no Festival de Berlim 2019
Cena do filme 'La Paranza dei Bambini' ('Piranhas'), de Claudio Giovannesi, em competição no Festival de Berlim 2019 - Divulgação

Aqui, o diretor romano Claudio Giovannesi parte de um romance do jornalista Roberto Saviano, que se notabilizou por suas reportagens investigativas sobre as intrincadas engrenagens que sustentam a Camorra, entre elas o livro que deu origem ao filme “Gomorra”, de Matteo Garrone. Hoje, o autor vive sob escolta policial.
 
“Paranza” é um termo dialetal da região da Campânia que pode se aplicar a barcos pesqueiros, grupos musicais folclóricos ou embarcações que transportam o contrabando da máfia. Em inglês, o filme ganhou o título de “Piranhas”, o que dá conta dos personagens do filme: um grupo de adolescentes que querem se firmar por meio da contravenção pesada.
 
Nicola (Francesco di Napoli) é o macho-alfa do grupo. Tem 15 anos e é filho da dona de uma lavanderia. Apesar de certo apego a roupas de grife, o que o impele na trama é certo sentimento de honra. Ele não atura mais ter que ver a mãe, assim como todos os comerciantes das redondezas, pagar propina aos gângsteres do bairro.

Junto dos outros cinco garotos que zanzam com suas motos pelas estreitas ruas napolitanas, ele enfrenta a liderança para se tornar o maioral local. Mas, como logo será advertido, esse é um jogo com cartas marcadas, e as credenciais de Nicola não o tornam apto a ser um líder longevo.
 
Autor do romance que originou o filme, Saviano viajou a Berlim e comentou sobre como é viver em permanente estado de apreensão. Crítico virulento de Matteo Salvini, ministro do Interior e maior nome da direita na Itália, o autor quase se viu sem poder mais contar com a escolta após o político ameaçar suspendê-la.

No ano passado, Salvini disse que era hora de a “Itália rever a forma como gasta dinheiro” e disse estar farto de fazerem associação entre seu nome e a máfia, “uma merda que combato com todas as minhas forças”, segundo escreveu numa rede social. Acabou não cortando a proteção com a qual Saviano conta desde 2006.
 
“Ela não é um privilégio, é um drama”, disse o jornalista na capital alemã, mencionando a morte de colegas na Itália e afirmando que “não há terreno seguro” para se escrever sobre a Europa. Ele sempre foi um enfático opositor às políticas consideradas xenófobas empreendidas por Salvini.
 
Outro título que compete ao Urso de Ouro, o alemão “I Was at Home, But” é o oposto do italiano “La Paranza dei Bambini”: é gélido, elíptico e rigoroso em sua forma –resumo ilustrativo da chamada Escola de Berlim que marca o cinema alemão contemporâneo. Não por acaso, a sua diretora, Angela Schalanec, é uma das expoentes desse gênero estético.
 
Como tal, é difícil encontrar um fio narrativo muito claro nessa história, mais construída pelo que ela omite do que pelo que ela exibe. A obra é contada por meio de cenas esparsas, pequenos trechos que não parecem se comunicar.
 
Há uma mulher de meia-idade dada a arroubos de ira. Ela tem ataques histéricos com os filhos, se enfurece com o sujeito que a vendeu uma bicicleta aparentemente com defeito. E há o seu primogênito, que fugiu da escola e contraiu algum tipo de infecção. E há uma mal-ajambrada colcha de retalhos que misturam diálogos e cenas meio absurdas, como a de animais no campo --incluindo um burrinho de olhar humano que contempla a vista da janela.
 
“I Was at Home, But” é daqueles filmes que ficam na fronteira, sempre muito incerta, entre o que é reflexão erudita e o que é puro charlatanismo cinematográfico. 

O jornalista se hospeda a convite do festival

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