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Monstro voador aterroriza a zona leste de São Paulo na gravação de filme de terror

Dirigido pelos reis do baixo orçamento, 'Skull' movimenta a Vila Carrão com explosões na madrugada

O ator Rurik Jr. nas filmagens de ‘Skull’, primeiro filme de terror do selo da revista Fangoria produzido na América Latina  Marlene Bergamo/Folhapress

São Paulo

Eram 2h26 da madrugada de terça quando uma explosão iluminou a Vila Carrão, na zona leste de São Paulo, e expulsou da cama diversos moradores assustados. Luzes se acenderam no prédio em frente à antiga fábrica da Sal Cisne, há muito desativada.

O estouro do material nuclear, armazenado em tonéis, fez o monstro sanguinolento Skull ser arremessado a metros de distância, tornando as coisas mais fáceis para a policial Beatriz Obdias.

Isso será verdade quando o filme ficar pronto —é a primeira produção da clássica marca de terror americana Fangoria na América Latina.

O monstro é nojento —ele adquire poder ao consumir pessoas. Então, tripas, corações e pedaços de membros vão se incorporando a seu corpo, que vai balançando as novas partes enquanto se move.

Mas na vida real da filmagem, o Skull não voou. O ator Rurik Jr., por trás da máscara de terror, saiu correndo e deu um pulo numa pequena cama elástica, aterrissando de cara num colchão.

Para o estouro, foram usados três pequenos botijões de acampamento com gás butano, envolvidos cada um em um cilindro fechado de ferro, com furinhos, do tamanho de uma bola de futebol americano, para que estilhaços não atingissem os atores. Espoletas ativadas por controle remoto desencadearam a explosão no exato instante em que o monstro pulou.

Mas uma labareda atingiu o colchão em que Skull repousava e a equipe de produção correu para salvar o monstro (e o ator). Mas teve de parar no meio do caminho, enquanto o diretor Kapel Furman tranquilamente acompanhava a cena atrás das câmeras.

Até que ele gritou "corta!", e o bombeiro presente foi lá apagar a chama com seu coturno preto. "Foi um calorzão atrás de mim que eu não esperava", comentou Rurik, em meio aos escombros da indústria salina.

Naquela hora, a policial Beatriz gritou "puta que o pariu, ficou demais". Mas ela não era a policial naquele momento, e sim a atriz Natallia Rodrigues, que já participou de novelas na Globo e na Record e de programas em diversos canais pagos. De repente agora, aos 38 anos, também está se transformando em protagonista de cinema de ação.

"Foi uma coincidência", disse, em relação aos papéis seguidos que interpretou em "Virando a Mesa", "A Volta", "O Doutrinador" e agora em "Skull, a Máscara de Anhangá". O fato deste último ser um filme de terror aumenta o espanto de Rodrigues. "Não é um gênero que eu assista", conta a atriz, que está em cartaz no Teatro Novo com a peça "O Martelo", que tem um tom de comédia.

"Contar a história de mulheres fortes é muito importante. Mas essa 12 [espingarda] é muito pesada! Sem falar no colete à prova de balas, na pistola. Ser empoderada faz você carregar um peso muito grande", brinca ela, que tem 52 kg e 1,68 m.

"Skull" é produzido pela firma texana Cinestate, que recentemente comprou os direitos da Fangoria, famosa revista de terror nos Estados Unidos, publicada desde 1979. Agora, Fangoria virou também um selo para lançamentos de filmes de terror. No Brasil, a Infravermelho e a Boccato assumiram a coprodução.

"É um slasher de ação", define a dupla que dirige o filme, Kapel Furman e Armando Fonseca. Slasher, no caso, é um subgênero no qual algum ente sobrenatural ou serial killer mata um infeliz atrás do outro utilizando os instrumentos e métodos mais sórdidos possíveis. Exemplos: "Sexta-Feira 13", "Halloween", "A Hora do Pesadelo" e "Jogos Mortais".

Furman e Fonseca são dois dos apresentadores do "CineLab", um programa da Universal Channel e SyFy no qual eles produzem —e ensinam— efeitos especiais de cinema com baixo orçamento e tempo limitado. Já está em sua quinta temporada e é exibido em dez países.

Assim, além de dirigirem "Skull", eles são os maiores responsáveis pelos efeitos que serão vistos na tela. O filme anterior da dupla, "A Percepção do Medo", impressionou os gringos em diversos festivais mundo afora, e por isso bastou apresentar o novo projeto para a Cinestate, em maio do ano passado, para que eles tivessem carta branca.

"A Percepção do Medo", entretanto, não estreou nos cinemas do Brasil; foi direto para o canal Turner. "Produz-se muito filme de terror no Brasil, mas eles não chegam aos cinemas", diz Fonseca. Furman afirma que a Ancine não dá bola para o gênero. "É uma visão ultrapassada", diz ele. Já "Skull" deve estrear em algum festival de terror no segundo semestre deste ano.

"O foco não é o efeito especial", explica Furman. "O efeito é que deve servir ao personagem e à história." A filmagem termina com a alvorada. Os vizinhos agora poderão dormir em paz. Mas não os diretores: "Precisamos ir para casa fazer sangue".

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