'Não esperem que dê apoio a um político', diz Marcelo Falcão, ex-Rappa

Músico lança primeiro álbum solo da carreira, fruto de 600 arquivos digitais

Thales de Menezes
São Paulo

Há um ano, quando O Rappa encerrava turnê pelo Brasil antes de uma anunciada parada da banda por tempo indeterminado, o vocalista Marcelo Falcão, 45, já tinha arrumado muita coisa para fazer.

Ele tinha entregue mais de 600 arquivos digitais ao amigo e produtor Felipe Rodarte. Entre canções inteiras e trecho de músicas, a missão era garimpar o primeiro álbum solo do cantor.

Retrato de Marcelo Falcão, ex vocalista da banda O Rappa, que lança novo álbum de sua carreira solo - Bruno Santos/ Folhapress

Começava assim a criação de "Viver (Mais Leve que o Ar)", que chega às lojas e plataformas digitais nesta sexta (15). "Entre as 600, ficaram 47", conta Falcão.

"Aí chamei um clã de amigos, produtores e camaradas, gente com quem eu trabalhei, para tomar um vinho comigo. Quando eles começaram a elogiar essa ou aquela, passei a separar umas 20 que seriam as eleitas para o disco."

Muita gente disse que seria maluquice lançar um álbum com 20 músicas. Falcão insistiu um pouco, mas depois cedeu e foi finalizada a lista de 13 canções que seriam gravadas.

Inabalável era a vontade de ser realmente um álbum completo. Ele diz que não poderia se satisfazer em lançar músicas soltas nas redes, "como essa rapaziada faz".

O gosto pelo formato de álbum reflete também a maneira como ele consome música. É um colecionador com mais de 4.000 discos de vinil de reggae.

Conferir a ficha técnica do disco é perceber que Falcão não exagera nos elogios aos músicos que o acompanham. Estão ali nomes estelares como o baixista Bino Farias, do Cidade Negra, ou o celebrado percussionista Marcos Suzano.

Há um naipe de metais forte, que ajuda a encorpar um apanhado de músicas de apelo popular, num disco solar, que passeia pela música jamaicana. Canções como "Viver", "Gold Coast" e "Diz Aí" estão destinadas à aceitação plena dos fãs.

Se o som é pulsante, pronto para empolgar nos shows, as letras soam mais amadurecidas. Falcão continua cutucando feridas sociais, preserva a contundência que exibe no Rappa, mas sem tanta virulência como a banda às vezes demonstra.

Na faixa "Quando Você Olhar para Mim", um bom exemplo desse lado de mais serenidade nos versos "Sobre dores, eu posso contar/ Por mais que eu sofri, jamais vou revidar”.

Ele cita Marcelo Yuka, integrante do Rappa até 2001, morto no mês passado em decorrência de um AVC, e Marcos Lobato, um dos letristas da banda. "Eu venho de uma escola com Yuka e Lobato, dois caras que vou admirar para sempre, meus parceiros para sempre. Aquilo era uma história. Agora eu venho para o meu disco com mais maturidade."

O álbum tem algumas parcerias com seu pai, Ademir Custódio, o poeta Ricardo Palmiro e o cantor, compositor e amigo Lula Queiroga. Apenas a última faixa é uma regravação, versão reggae de "Senhor Fazei de Mim (Instrumento de Sua Paz)", a conhecida "Oração de São Francisco".

Ele diz que quem está no disco é um Falcão simples, do Engenho Novo (zona norte do Rio de Janeiro), que vai até hoje lá e não viu nada mudar. "Faço meus trabalhos sociais sem precisar falar que estou fazendo. Ando por lugares no Rio que estão destruídos, principalmente com essa chuva de agora, e coloco o dedo na ferida."

Para Falcão, buscar o lado positivo das coisas o instiga. "De ruim, basta ligar a televisão, pegar as contas para pagar." Falcão sabe que, quando começar a turnê desse disco, em abril, será cobrado para posicionamentos políticos.

"Esperam que eu levante uma bandeira de partido, mas nunca levantei e não vou levantar. Minha luta é social, fazer com que o cara tenha energia para acreditar num futuro melhor, independente de quem está no poder. Não esperem que eu dê apoio a um político porque nunca encontrei algum que conseguisse me cativar."

Viver (Mais Leve que o Ar)

  • Preço R$ 30 (CD)
  • Autor Marcelo Falcão
  • Gravadora Warner Music
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