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'Não preciso matar Gabo para ser um bom escritor', diz Juan Gabriel Vásquez

Em feira literária, autor colombiano de 'Reputações' fala que memórias podem ser aterradoras

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O escritor colombiano Juan Gabriel Vázquez, que lança em Cartagena a coletânea de contos ‘Canciones para el Incendio’
O escritor colombiano Juan Gabriel Vázquez, que lança em Cartagena a coletânea de contos ‘Canciones para el Incendio’ - Adriano Vizoni/Folhapress
Cartagena (Colômbia)

​Mais respeitado autor colombiano da atualidade, o bogotano Juan Gabriel Vásquez, 45, caminha pelo Hay Festival Cartagena como um típico “cachaco” (habitante da montanhosa Bogotá) no calor do Caribe. Sem perder a formalidade, mas suando o rosto vermelho pelo sol intenso.

Veio ao evento para lançar seu mais recente título, a coletânea de contos “Canciones para el Incendio” (Alfaguara, importado), mas falou mais sobre “As Reputações” (Bertrand Brasil), seu romance mais recente a ter saído no Brasil.

“Eu cresci na cidade e vivi uma década de muita violência. Quando eu tinha 11 anos, Pablo Escobar, líder do Cartel de Medellín, tinha mandado matar o ministro da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla. Quando tinha 20, Escobar foi morto.”

Embora não tenha sido exposto diretamente a nenhum ataque, “vivia paranoico e ainda vivemos, toda a sociedade, uma espécie de estresse pós-traumático". "Não saíamos às ruas e, se o fazia, levava sempre uma moeda para, em caso de um atentado, poder ligar para casa e dizer que estava bem. As janelas de minha casa e as de quem eu frequentava tinham essa proteção de madeira para conter vidro em caso de explosão. Impossível que isso não te marque para sempre”, diz, em entrevista à Folha.

Porém, depois de temporadas na Espanha e nos Estados Unidos, Vásquez retornou a seu país em 2012 e pôs a lente na sociedade colombiana que encontrou. O resultado são “As Reputações” e “La Forma de las Ruínas” (Alfaguara, importado). Ambas compõem sua “reconciliação com Bogotá”.

“‘As Reputações’ é um livro que sempre quis escrever, um thriller sobre a memória, sobre quão pouco confiável pode ser a memória e, ainda assim, os eventos do passado influenciam muito a sua vida presente”, conta.

O protagonista do livro é um retraído cartunista político dos dias de hoje, que, no auge da carreira, é abordado por uma mulher que diz ser jornalista, mas que, na verdade, busca informações sobre algo que ele viu, mas não se lembra bem do episódio, numa noite, 28 anos atrás. 

Recordar essa passagem vira não apenas uma obsessão para o cartunista como uma questão moral. “Pois uma caricatura que fez depois disso e o alçou à fama pode ter levado um político ao suicídio.”

Apesar de não desenhar, Vásquez quis que seu protagonista fosse um cartunista, “porque eles têm um poder imenso". "Alguém que se sentiu ofendido por um artigo de jornal pode responder à provocação com outros argumentos. Mas não se pode responder a um cartum, soa ridículo.”

Foi, também, uma forma de prestar uma homenagem a um cartunista famoso na Colômbia, Ricardo Rendón (1894-1931), “a quem eu consumia desde criança sem saber direito do que ele estava falando". "Depois, entendi, e entendi que o cartum é importantíssimo na América Latina, onde muita gente não sabe ler, e o desenho é acessível. Além disso, serviu para fazer comentários satíricos em momentos de repressão política”, completa.

Rendón era um liberal, “vivia retratando de forma jocosa os conservadores, que o odiavam, mas que não podiam fazer nada”. Por outro lado, Vásquez sentiu que queria tentar entendê-lo, pois sua morte o impactou muito. “Como alguém tão influente e criativo, um dia entrou num bar de Bogotá, pediu uma cerveja, fez um desenho, e deu-se um tiro na testa?” Rendón tinha 37 anos.

Outro aspecto que o autor explorou na obra foi a relação das pessoas com a memória. “Se você pensa quais as coisas mais importantes do romance, os poucos fatos que ocorrem, eles estão no passado, e no presente os personagens estão tentando entender o passado, olhar-se num espelho que não necessariamente reflete a verdade que se tinha como segura até outro dia.”

Essa ideia, segundo ele, é aterradora, mas ao mesmo tempo “faz com que as pessoas sejam extremamente interessantes”, afirma.

Já em “La Forma de las Ruínas”, Vásquez coloca a história recente de Bogotá no centro dos acontecimentos, ressaltando os assassinatos do popular político Jorge Eliécer Gaitán (1903-1948) —que deu origem ao período de violência conhecido como Bogotazo— e o do general liberal Rafael Uribe Uribe (1859-1914), que inspirou o Nobel Gabriel García Márquez (1927-2014) a criar Aureliano Buendía, de “Cem Anos de Solidão”.

Com relação ao que acontece com jovens escritores argentinos e o legado de Jorge Luis Borges, ou aos colombianos com o de García Márquez, Vásquez diz que não se sente intimidado. 

“Não quero e não preciso matar Gabo para ser um bom escritor”, ri. Acrescenta: “E também já propus mais de uma vez que façamos algo distinto de ler suas obras como realismo mágico”.

“Se você quiser entender toda a a história da Colômbia, ela está em Gabo. Uma história com os pés no chão, mas em que acontecimentos e personagens saem um pouco da linha, que é o que o transforma no grande literato que foi. Se o lermos assim, veremos ainda mais seu talento.”

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