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The New York Times Cinema

Novo 'Mary Poppins' exibe flerte da Disney com a blackface

Longa recicla passagens tidas como racistas nos livros que deram origem aos filmes

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Julie Andrews em cena de ‘Mary Poppins’, filme da Disney de 1964
Julie Andrews em cena de ‘Mary Poppins’, filme da Disney de 1964 - Divulgação
Daniel Pollack-Pelzner
The New York Times

“O Retorno de Mary Poppins”, indicado a quatro categorias no Oscar, é um filme simpático, que busca inspirar nos espectadores uma nostalgia pelas fantasias inocentes da infância, bem como as lembranças sobre férias divertidas em que o primeiro “Mary Poppins” era exibido.

Parte desse sentimento, porém, está ligada ao uso persistente de blackface (como ficou conhecida a maquiagem caricata em que brancos se passam por negros) nos trabalhos envolvendo Mary Poppins, seja nos livros de P. L. Travers, seja na adaptação cinematográfica que a Disney realizou em 1964, e que tem ecos na mais recente versão do estúdio sobre a personagem.

A lição dessa canção é que “o rei pode ser vilão”, uma pista de que o gentil financista interpretado por Colin Firth no filme talvez seja sinistro. Como documentaram Eric Lott e outros historiadores, havia uma conexão importante entre apresentações em blackface e as classes operárias nos Estados Unidos e Reino Unido. Os menestréis disfarçados de negros ofereciam a chance de definir a brancura da plateia em contraposição a uma caricatura negra e também permitiam que os espectadores zombassem dos patrões, por meio das trapalhadas dos menestréis.

Quando T.D. Rice, um artista branco popular por se apresentar em blackface, atravessou o Atlântico na década de 1830, seu empresário conta que ele inspirou os limpadores de chaminés londrinos e seus aprendizes, que “giravam e saltavam e pulavam como Jim Crow [escravo negro estúpido, era o personagem de Rice; o nome mais tarde viria a descrever o sistema de segregação racial que perdurou no sul dos Estados Unidos de 1870 à década de 1960], da manhã à noite, para irritação de seus patrões, mas para grande alegria dos cockneys”.

Os limpadores de chaminés que dançavam como os velhos menestréis estavam apenas um passo atrás, no tempo, de Bert, o limpador de chaminés interpretado por Dick Van Dyke, e de sua provocação ao almirante no alto do telhado —ou do acendedor de lâmpadas de Miranda em “O Retorno de Mary Poppins”, que trabalhou para Bert quando criança.

A convenção do “pickaninny”, criada na era dos menestréis, retratava as crianças escravas negras como artistas entusiásticos que, como argumenta a historiadora Robin Bernstein, pareciam “comicamente imunes à dor” que seu trabalho lhes infligia. Da mesma forma, os sorrisos que iluminavam rostos escuros e os passos de dança dos acendedores de lampiões transformam seu perigoso trabalho em brincadeira; “smile and smirk”, eles cantam, em uma rima em dialeto cockney para “work”: sorria e trabalhe.

A presença dessa tradição do blackface não só é constante nos livros de Travers como é uma peça importante nos musicais da Disney, o que inclui o malandro identificado como Jim Crow em “Dumbo”, de 1941” (“quando eu vir um elefante voando, terei visto tudo nesta vida”).

O uso do blackface, na verdade, pode ser considerado como parte das origens do estúdio Disney. Em um dos primeiros curtas de Mickey, “Mickey's Mellerdrammer”, uma paródia realizada em 1933 do romance antiescravista “A Cabana do Pai Tomás”, Mickey usa dinamite para escurecer o rosto e interpretar Topsy, uma criança negra descabelada, com roupas esfarrapadas e comicamente indisciplinada, que se tornou sinônimo do estereótipo do “pickaninny”.

Em “O Retorno de Mary Poppins”, o nome da personagem descabelada, esfarrapada e comicamente indisciplinada (interpretada por Meryl Streep) também é Topsy. Ela é uma variação de Mr. Turvy, no romance “Mary Poppins Comes Back” (1935), cuja oficina de trabalho vira de cabeça para baixo.

Mesmo que o nome compartilhado pelos personagens seja um acaso, isso revela algo maior: o costume da Disney de recorrer à blackface em seus produtos —uma babá que escurece o rosto, limpadores de chaminé que zombam das classes endinheiradas, acendedores de lampiões sorridentes que fazem de seu trabalho uma canção.

Em sua mais recente versão, “Mary Poppins” pode estar fazendo uma serenata aos costumes culturais da Disney, antiquados mas estranhamente recorrentes, com a canção “The Place Where Lost Things Go”, indicada ao Oscar, que nos lembra de que “as coisas não desaparecem, elas apenas estão fora de lugar”.

Tradução de Paulo Migliacci

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