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O talento de Donen morreu antes de Donen

A elegância do diretor de 'Cantando na Chuva' o havia deixado há décadas, mas a lembrança que deixou permanece

Stanley Donen, após receber seu prêmio honorário na 70ª edição do Oscar, aos 74 anos - Reuters
Inácio Araujo

No Twitter, alguém questiona a ausência de Jonas Mekas na lista dos homenageados pelo Oscar: seria uma honra para o refratário experimentalista. Ainda na rede social, outra pessoa lamenta o esquecimento de Stanley Donen.

Talvez, o instantâneo não tenha chegado ao Oscar: normalmente, são pessoas mortas no ano passado que são homenageadas, assim como os filmes premiados referem-se ao ano de 2018. E ambos morreram neste ano. Ou seja, Donen não foi esquecido. 

Já quanto a um independente como Mekas, nunca se sabe o que vai acontecer. Donen foi ligado desde o início aos grandes estúdios. Sua amizade com Genen Kelly o levou à unidade de musicais de Arthur Freed. Entre os anos 1950 e 1960, aquele era um lugar de alto prestígio no principal estúdio de Hollywood, a MGM.

Ali, Donen se destacou ao co-dirigir “Um Dia em Nova York” com Gene Kelly. A glória veio mesmo em “Cantando na Chuva” (1952), que  afirma-se até hoje como uma obra-prima do musical e talvez até mais do que isso. O primeiro êxito solo do diretor seria “Sete Noivas para Sete Irmãos” (1954), versão musicada de uma antiga história romana.

O fim da era dos musicais foi decisivo para a carreira de Donen. Saindo da Metro, fez “Um Pijama para Dois”, com Doris Day, e “Cinderela em Paris”, com Audrey Hepburn e Fred Astaire.

Jean-Luc Godard não economizou maldade, em 1963, ao descrever sua carreira: “Com a cumplicidade de Vera-Ellen, Audrey Hepburn, Doris Day, Susy Parker, verificou o aforisma segundo o qual [fazer] cinema é fazer belas mulheres fazerem belas coisas. Ele dançou durante o verão, e foi um verão prodigioso. Depois, como a cigarra, apagou-se [...]. Hoje, é um velho jovem prodígio que escorrega docemente pela ladeira da negulesqueria [referência ao fraco diretor Jean Negulesco]”.

Godard questionava onde tinham ido parar os encantos e a elegância dos primeiros filmes de Donen. E, admita-se, quase sempre tinha razão. 

Só não quando atacava “Charada” (1963), um suspense sem a grandeza de um Hitchcock, é verdade, mas no qual Donen usa até o talo o charme e o humor de Hepburn e Cary Grant. Já “Arabesque” (1966), por sua vez, trouxe Sophia Loren ao grupo de atrizes de primeira linha a que Donen soube dar relevo.

Daí por diante não há como discordar de Godard. A era clássica, com seu jeito doce de ver o mundo, estava acabada. E, mesmo fazendo em “Movie Movie - A Dupla Emoção” (1978), uma homenagem àquele período, Donen havia parado no tempo.

Por algum tempo, ele ainda insistiu. Foi a “Saturno 3” com a insossa Farrah Fawcett,  fez um filme para TV e até mesmo dirigiu um episódio de “A Gata e o Rato”.

É de se louvar o vigor do diretor, morto no dia 21/2 aos 94, 16 anos após sua derradeira incursão na direção cinematográfica, um vídeo dedicado ao cantor Lionel Richie. Era uma evocação tardia, talvez, dos grandes dias do cineasta no musical.

Sua sutil elegância o havia abandonado há décadas. Mas a lembrança que deixou, de “Um Dia em Nova York” a “Charada”, com “Cantando na Chuva” à frente de todos, permanece com toda sua força.

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