Paulo Cavalcanti, ex-editor da revista Rolling Stone Brasil, morre aos 57 em São Paulo

'Seu amor pela música nos inspirava', dizem amigos sobre jornalista, tido por colegas como 'a internet antes da internet'

São Paulo

Paulo Alderaban Lopes Cavalcanti, o Paulo Cavalcanti, ex-editor da Rolling Stone Brasil, morreu na manhã desta terça-feira (26), em São Paulo, após um infarto.

O jornalista estava internado no Hospital do Mandaqui desde domingo, quando sentiu dores no peito. Tinha 57 anos e não era casado nem tinha filhos.

O velório acontece nesta quarta (27), cemitério municipal de Santana, também conhecido como Chora Menino (r. Nova dos Portugueses, 141, Santana), até as 15h, horário do enterro no cemitério Nova Cachoeirinha (av. João Marcelino Branco, s/n).

Considerado um dos maiores jornalistas de música do Brasil e notório pelo conhecimento enciclopédico, Paulinho, como era conhecido por amigos e colegas, foi durante anos editor da versão nacional da revista Rolling Stone.

Ele também foi colaborador da revista Bizz, referência da cobertura musical no Brasil entre os anos 1980 e 2000, e integrou a equipe de entretenimento do folclórico jornal Notícias Populares.

“Ele sabia tudo da música nos anos 1950 e 1960. Tinha centenas de discos e fitas VHS; era uma internet na época em que não existia a internet”, lembra Ivan Finotti, jornalista da Folha e amigo e ex-colega de Cavalcanti.

“Sergio Martins, eu e Paulo, o Alderabinha, éramos a editoria de variedades do Notícias Populares. O [André] Barcinski foi um dos nossos chefes, e depois veio o Thales [de Menezes]”, recorda-se Finotti, citando outro apelido de Cavalcanti, filho do também jornalista Alderaban Cavalcante.

“A gente fazia aquelas matérias malucas, como quando ele juntou sósias do Elvis Presley, do Bob Marley e do Raul Seixas para fazer um campeonato de futebol.”

Finotti, que encontrou Cavalcanti pela última vez há um mês, quando tiraram a foto que ilustra esta reportagem, cita outra história, também relembrada pelo jornalista Sérgio Martins, da revista Veja, em publicação nesta terça em memória ao amigo.

“A gente fechava o jornal começando todo dia do nada; não tinha preparação, era tudo em cima da hora. Tinha uma seção com receitas culinárias; a pessoa mandava escrito à mão. Mas, certo dia, ele não encontrava a tal da receita, e a gente tinha que fechar, então ele inventou uma na hora e batizou de 'bolo cucamonga'. Só que ele esqueceu de listar o fermento. Foram semanas de leitores ligando no jornal pra xingar a gente porque o bolo tinha estragado as assadeiras.”

Atualmente, o jornalista trabalhava com André Barcinski, colunista da Folha, em uma série sobre músicos populares dos anos 1970.

“Paulinho era um tipo raro hoje em dia: alguém que tem conhecimento sem ficar apelando para a internet”, afirma. "E foi uma pessoa muito boa. Um cara honesto, íntegro, nunca vi alguém falar mal dele.”

Segundo Barcinski, o conhecimento de Cavalcanti impressionava mesmo em meio a jornalistas conhecidos pela farta cultura geral.

“Ele era o pesquisador de uma série que estou produzindo e estreia em junho no canal Music Box. A gente quase terminou, faltam só três dias de filmagem. Chamei ele por suas qualidades, seu profundo conhecimento da música; ninguém que eu conheço sabia tanto de bastidores dos artistas.”

Barcinski também ressalta a generosidade do amigo.

“Quando eu estava fazendo o livro 'Pavões Misteriosos', lembrei que o Moacyr Franco tinha uma música sobre a rádio AM, um tributo que lançou para ironizar o surgimento da FM. Mas não tinha certeza e não conseguia achar a informação. Perguntei pro Paulo, que falou 'lembro sim, vou ver aqui e te mando'. Dias depois, chegou na minha casa um DVD com o registro de um programa de TV de 1990 com o Moacyr cantando a música. Porra, quem é que tem isso? E quem passaria o VHS para DVD só para eu poder assistir?”

Amigo de Cavalcanti há 30 anos, Sergio Martins, da revista Veja, recorda-se o “sujeito de ouro” que lhe ensinou a gostar do Elvis Presley para além do galã.

“Na verdade, a ficha ainda não caiu. Só vou acreditar quando infelizmente tiver de ir ao velório e o vir no caixão. O Paulo era um cara especial. Meu irmão mais velho quando me doutrinava sobre Beach Boys, meu irmão caçula quando eu o contrariava ou chamava a atenção dele. Em três décadas, nunca o vi sacanear, maldizer ou prejudicar alguém. E muita gente que conheço começou no jornalismo graças a ele.”

Foi assim com Pedro Henrique Araújo, o Peu Araújo, que descreveu a influência e a importância de Cavalcanti em um emocionado relato em uma rede social:

"Acabei de ficar sabendo que o Paulo Cavalcanti se foi. Estou muito triste por não poder ter contado a ele da sua importância em minha vida profissional. Em 2010 ele me deu a primeira oportunidade na Rolling Stone Brasil com uma resenha de um disco ao vivo do Dexter Oitavo Anjo. Ele me chamou para escrever sobre o 'Nó na Orelha', do Criolo, o primeiro disco da Tulipa Ruiz e de mais um monte de gente. Fiz dezenas de resenhas musicais sob sua batuta e muitas delas sobre rap."

Segundo Martins, as principais características do amigo eram as paixões verdadeiras e arrebatadoras pela música e pelo jornalismo e um sentimento de não-pertencimento aos tempos atuais, marcados por superficialidade e aparências.

“Ele tinha aquela coisa do herói romântico, do cara que sofria por amor. Tem uma música dos Beach Boys chamada 'I Just Wasn't Made for These Times' (eu simplesmente não fui feito para essa época, em inglês) que me lembra muito ele. Nesse tempo que a gente vive, de cinismo, de pouco amor pela profissão, ele era até inadequado, porque amava muito o que fazia. O amor que ele tinha nos inspirava.”

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